Produção de cafés especiais cresce com protagonismo de cafeicultores negros
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São Paulo - O setor cafeeiro brasileiro está diretamente ligado ao racismo, à escravidão e à exclusão da população negra. Principal produto da economia brasileira no século XIX, a cafeicultura se expandiu sustentada pela exploração da mão de obra de africanos escravizados e seus descendentes.
Celebrado em 24 de maio, o Dia Nacional do Café foi instituído em 2005 pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) para marcar o início oficial da colheita do grão nas principais regiões produtoras.
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Atualmente, a data também tem sido usada por especialistas e entidades para ampliar discussões sobre desigualdade social, condições de trabalho e representatividade racial no agronegócio brasileiro.
Para a consultora da Giuliana Bastos, consultora da Abic, discutir café no Brasil significa falar sobre identidade e cultura. “Celebrar o café no Brasil é celebrar a diversidade. A conversa sobre raça, gênero e justiça social também passa pela forma como produzimos e consumimos essa bebida”, afirma.
Giuliana destaca que o setor ainda enfrenta dificuldades para ampliar a representatividade negra em posições de liderança e reconhecimento.
Os pretos sempre aparecem como trabalhadores ou escravizados, mas raramente como proprietários, empresários e profissionais valorizados dentro do café”, diz.
A especialista explica que as barreiras atuais enfrentadas por pessoas negras no setor refletem uma herança histórica ainda presente na cadeia do café.
"Os cafezais foram por séculos um dos locais que mais recebeu escravizados trazidos da África. A cafeicultura no Brasil foi construída sob essa névoa e carrega até hoje uma herança da mentalidade escravocrata", pontua.
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Segundo dados históricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Arquivo Nacional, o Brasil recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados durante o tráfico transatlântico. Grande parte dessa população foi direcionada para engenhos e, posteriormente, para as lavouras de café.
Na época, o produto chegou a representar mais de 40% das exportações brasileiras e consolidou o poder econômico dos chamados “barões do café”.
Mesmo após a abolição da escravidão, em 1888, a população negra ficou fora das políticas de acesso à terra e do mercado formal de trabalho rural. Em vez de integrar trabalhadores libertos à economia cafeeira como assalariados, o Estado incentivou a imigração europeia para substituir a mão de obra nas fazendas.
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Dados do Censo Agropecuário do IBGE mostram que a desigualdade racial permanece presente no campo brasileiro. Produtores brancos concentram propriedades maiores e com maior valor econômico, enquanto agricultores negros possuem menos acesso a crédito, assistência técnica e tecnologia.
A desigualdade também aparece nos indicadores sociais, já que pessoas negras têm menor renda média, maior taxa de informalidade e menos acesso ao ensino superior, segundo levantamentos do IBGE sobre desigualdades sociais por cor ou raça.
Trabalho escravo ainda atinge a cafeicultura
A relação entre desigualdade racial e exploração do trabalho continua sendo apontada por órgãos públicos e entidades trabalhistas. O Estado de Minas Gerais, maior produtor de café do País, liderou em 2025 o número de operações de combate ao trabalho análogo à escravidão, segundo dados do Ministério Público do Trabalho.
Publicado em março deste ano, um estudo conduzido pela organização KnowTheChain em parceria com a Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere-MG) identificou indicadores de trabalho forçado em 100% dos casos analisados nas fazendas de café de Minas Gerais.
Com base nos critérios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o levantamento ouviu 24 trabalhadores rurais, parte de um grupo de 100 pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão, e apontou uma média de cinco situações de exploração relatadas por cada entrevistado.
O Observatório Digital do Trabalho Escravo aponta que mais de 90% dos trabalhadores resgatados vivem em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O perfil predominante envolve homens pobres, com baixa escolaridade e em situação de extrema vulnerabilidade social.
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O próprio Ministério Público do Trabalho afirma que “a escravidão contemporânea abastece cadeias produtivas e chega ao cafezinho que tomamos”.
A consultora Giuliana Bastos afirma que a precarização não representa toda a cadeia cafeeira, mas reconhece que o problema ainda exige enfrentamento estrutural. “Nada justifica a precariedade e a exploração dessa mão de obra. O trabalho análogo precisa ser totalmente erradicado”, afirma.
Protagonismo negro no café
Apesar da exclusão histórica, produtores, torrefadores e empreendedores negros vêm ampliando a presença no mercado de cafés especiais.
Em São Paulo, o empresário Danilo Negrete transformou uma inquietação pessoal em negócio ao perceber a ausência de marcas que destacassem a população negra na cafeicultura brasileira. Assim nasceu a Café Quilombo, marca que reúne cafés especiais, identidade cultural e protagonismo negro nas prateleiras dos supermercados.
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Hoje, os produtos da empresa são vendidos em mais de 60 pontos de venda em São Paulo, além do e-commerce. A marca também já está presente em unidades do Pão de Açúcar, mercados de bairro, empórios e restaurantes.
Quando eu criei a marca, o que me chamou atenção foi passar pelas gôndolas e não ver nenhum produto homenageando uma população que ajudou a construir uma nação cafeeira como a nossa”, afirma Danilo.
Danilo Negrete criou a marca Café Quilombo para reforçar a importância do empreendedorismo negro - Arquivo pessoal
Para ele, a proposta nunca foi apagar outras histórias da cafeicultura, mas abrir espaço para narrativas pouco representadas no mercado. “O objetivo da Café Quilombo não é tirar mérito de ninguém. Não é uma ONG, é uma empresa que visa lucro. Mas é uma empresa que quer dar protagonismo e espaço na gôndola para falar da nossa história”, diz.
Danilo é formado em Ciências Contábeis e construiu carreira em grandes empresas dos setores industrial e varejista. Antes de empreender, trabalhou em companhias como Marfrig, Natural One e Americanas.
Durante a pandemia, começou a vender produtos brasileiros de forma independente, como tucupi, chocolates, cachaças e café. Entre todos, o café era o item mais procurado.
Foi então que decidiu estudar mais sobre o setor e acabou mergulhando na história da cafeicultura brasileira e na participação da população negra nesse processo.
“Eu fui caindo sempre na história afro-brasileira. E pensei: os negros construíram isso tudo e não tem uma marca falando disso?”, relembra. A partir daí nasceu o conceito da Café Quilombo.
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Uma das características mais marcantes da Café Quilombo está nas embalagens. Os cafés recebem nomes e ilustrações inspiradas em figuras históricas negras como Dandara dos Palmares, Tereza de Benguela e Anastácia.
As artes foram desenvolvidas em parceria com o artista plástico Bacari, que reinterpretou como essas mulheres seriam nos dias atuais. “A ideia é que a pessoa pegue o produto e pergunte: quem foi Dandara? Quem foi Tereza de Benguela? Quem foi Anastácia?”, explica Danilo.
Além das informações resumidas nas embalagens, um QR Code direciona os consumidores para conteúdos mais completos sobre essas personalidades. Para o empresário, a iniciativa também ajuda a enfrentar o apagamento histórico da população negra no Brasil.
Quando a gente anda pelas cidades, vê avenidas com nomes de coronéis e presidentes, mas quase nenhuma homenagem a mulheres negras tão importantes para a nossa sociedade."
A Café Quilombo trabalha exclusivamente com o grão canéfora, variedade conhecida pela resistência e intensidade sensorial. “O canéfora é um grão marginalizado, assim como a nossa população também foi durante muito tempo”, afirma Danilo.
Para o empresário, o crescimento do consumo desse tipo de café no Brasil acompanha a ascensão da marca e da representatividade negra no setor.
Há alguns anos o canéfora representava cerca de 15% do mercado nacional. Hoje já está perto de 30%. É um grão em ascensão, assim como a nossa população também está ocupando espaço.
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Apesar do crescimento, Danilo afirma que o foco da empresa ainda está concentrado em São Paulo. A estratégia é fortalecer a marca na capital antes de expandir para outras cidades do País.
A gente quer ocupar mais espaço nas gôndolas. Quer mostrar que pessoas negras podem ocupar qualquer espaço.
Relação com o café vai além da produção
Produtor de café especial e mestre de torra, Ivan Santana começou sua trajetória longe dos troféus e reconhecimentos que hoje coleciona no mercado de cafés especiais. Natural de Cabo Verde, em Minas Gerais, ele cresceu ouvindo que dificilmente teria sucesso nos estudos ou na carreira.
A família do produtor conseguiu arrendar a propriedade onde os pais trabalhavam anteriormente como funcionários rurais. Hoje, Ivan produz cafés especiais reconhecidos nacionalmente e atua também como instrutor de outros produtores da agricultura familiar.
As barreiras já começam na infância, quando professores e pessoas próximas falam que você não vai virar nada, que é melhor parar de estudar e trabalhar”, relembra.
Mesmo diante das dificuldades, Ivan afirma que o apoio da família foi decisivo para mudar sua trajetória. Hoje, ele se tornou referência nacional na torrefação de cafés especiais. Ivan foi campeão brasileiro de Torrefação do Ano em 2023, conquistou o quarto lugar no Campeonato Brasileiro de Torra e também foi finalista do Campeonato Blend da ABIC.
A relação de Ivan com o café vai além da produção e ele defende que cada etapa do processo precisa ser valorizada, do plantio até a xícara. Para ele, o café especial também pode funcionar como ferramenta de transformação social e autoestima para jovens negros que desejam entrar no setor.
“O Brasil ainda é um País que tem dificuldade racial. Muitas vezes nós mesmos achamos que somos inferiores e que não vai dar certo. Precisamos mudar isso dentro de nós.
Ivan destaca que ainda existe desigualdade racial dentro da indústria cafeeira brasileira, principalmente no acesso a oportunidades, investimento e visibilidade.
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Segundo ele, produtores negros ainda enfrentam mais barreiras para crescer no mercado. “Temos menos acesso e maior dificuldade de acreditar que somos capazes. Isso também acontece porque muitas vezes abaixamos a cabeça e deixamos de buscar melhorias", disse.
Para Ivan, as redes sociais têm desempenhado papel importante na valorização de produtores negros e na construção de novas referências dentro da cafeicultura. “Hoje é uma ferramenta fantástica quando sabemos usar.”
O produtor mineiro acredita que ocupar espaços de destaque em campeonatos e premiações ajuda a abrir portas para outros profissionais negros dentro do mercado de cafés especiais. “Nos leva a outros patamares, nos dá visibilidade e mais confiança para seguir em frente.”
Ao falar sobre o futuro, Ivan deixa um conselho para quem deseja entrar no universo dos cafés especiais:
Estude muito, tenha bons exemplos para seguir e se dedique ao café desde o plantio até a xícara. Em algum momento você vai encontrar um espaço que pode mudar sua vida", disse.
Iniciativas de valorização
Para destacar iniciativas ligadas à ancestralidade e à valorização da cultura negra no setor cafeeiro, a consultora Giuliana Bastos citou nomes para ficar de olho. Entre eles está Rapha Brandão, criador do projeto Café Di Preto, no Rio de Janeiro. A torrefação trabalha exclusivamente com cafés produzidos por cafeicultores negros.
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Outro destaque é Gisele Coutinho, que atua na formação de consumidores e profissionais do setor cafeeiro, promovendo debates sobre cultura, inclusão e democratização do café.
Segundo Giuliana, ainda existe resistência para tratar da questão racial no setor, mas o cenário começa a mudar com maior mobilização de produtores, consumidores e profissionais negros.
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Nos últimos anos, cafeterias, torrefações e consumidores passaram a discutir com mais frequência temas ligados à diversidade racial dentro da cadeia produtiva do café.
Precisamos superar essa dor provocada pelos séculos de escravidão e escrever um novo capítulo para os negros e negras no café, com igualdade, respeito e oportunidades reais”, conclui.
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