Professores têm entrada grátis no MASP para exposição sobre América Latina
"Histórias Latino-Americanas" aborda temas como colonização e resistência; em homenagem ao Dia dos Professores, entrada será grátis de 15 a 18/10
Por Adriana Del Ré
12/10/2026 | 11h51VIVA/Adriana Del Ré
O Edifício Dumont-Adams, rebatizado como Edifício Pietro Maria Bardi, foi restaurado e agora funciona como anexo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), abrigando a exposição 'Histórias Latino-Americanas', que explora narrativas sobre a América Latina.
A mostra apresenta 187 obras de 148 artistas de 20 países, organizadas em cinco núcleos temáticos que abordam questões como colonização e resistência, destacando a diversidade cultural e histórica da região.
Em comemoração ao Dia dos Professores, o MASP oferecerá entrada gratuita para todos os visitantes no dia 15 de outubro e para professores entre os dias 16 e 18 de outubro, incentivando a visitação e o acesso à arte.
São Paulo - Construído nos anos 1950 para ser um edifício de luxo, o suntuoso Edifício Dumont-Adams, localizado bem ao lado do Museu de Arte de São Paulo (MASP), permaneceu por décadas abandonado. O imóvel foi doado ao museu em 2006 e, após um longo processo para seu restauro, abriu suas portas para o público só no ano passado, já rebatizado como Edifício Pietro Maria Bardi.
Como uma extensão da sede principal do MASP – fundada em 1947 pelo jornalista, empresário e mecenas Assis Chateaubriand –, o anexo do museu abriga atualmente a exposição coletiva "Histórias Latino-Americanas".
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São 187 trabalhos de 148 artistas, originários de 20 países, incluindo o Brasil, organizados estrategicamente em cinco núcleos: "O mundo ao revés", "Retórica do progresso", "Sociedades americanas", "Estamos em salsa" e "A queda do céu", distribuídos por cinco andares do edifício.
Com curadoria de Amanda Carneiro e Julieta González, "Histórias Latino-Americanas" revela como a colonização, a migração, os movimentos de resistência e os projetos de nação contribuíram para a criação de diferentes narrativas sobre a América Latina.
A exposição não pretende encerrar a discussão nem oferecer uma narrativa total sobre o continente. Ao contrário, seu gesto é abrir a percepção sobre regimes visuais, temporalidades e questões.”
Amanda Carneiro, curadora
É um tipo de passeio para ser feito sem pressa, no qual o visitante é convidado a deixar a vida corrida do lado de fora e mergulhar, com atenção, em obras com diferentes técnicas, suportes, estilos e conceitos, carregadas de críticas – algumas vezes sutis; outras, escancaradas, contundentes. É a visão da América Latina sem filtro.
Por iniciativa da Vitru Educação – empresa de educação a distância (EAD) e ensino superior do Brasil, dona de marcas como a UNIASSELVI e a UniCesumar –, patrocinadora master do MASP, haverá um período de gratuidade em comemoração ao Dia dos Professores.
No dia 15 de outubro, todos os visitantes terão direito à entrada grátis para a exposição. Entre os dias 16 e 18 de outubro, a gratuidade é válida apenas para os professores, mediante apresentação de comprovante: holerite ou contracheque; carteira de trabalho digital; Acesso ao Portal do Professor; ou carteirinha de identificação profissional.
Em meio a tantas obras importantes, o VIVA indica oito destaques para não perder de vista:
"O Velho Griô", de Daniel Lind-Ramos
Une a figura do griô, o guardião e transmissor da memória oral nas culturas africanas, com a imagem do barco, elemento marcado pela travessia forçada da escravidão. A instalação traz também sacos numerados com datas marcantes da história de Porto Rico, desde o início da colonização em 1493 até a devastação provocada pelo Furacão Maria em 2017.
Com essa linha do tempo material, o artista porto-riquenho evoca a ancestralidade e a resistência cultural como forças de reconstrução e guarda das populações caribenhas diante de tragédias históricas e naturais.
"O Mundo ao Reverso", de Sandra Gamarra Heshiki
A obra aborda os impactos do colonialismo a partir do conceito andino "pachacuti": a ideia de um mundo virado de cabeça para baixo. Ressalta como a Europa inventou e categorizou a América, transformando a imposição colonial na ruptura violenta dos modos de vida das populações originárias.
Como resposta, a artista realiza uma inversão de papéis ao cobrir documentos e mapas coloniais com tinta vermelha de óxido de ferro, um pigmento ancestral ligado à arte rupestre e às tradições indígenas. Ao somar esse pigmento a grãos de feijão sobre os rostos representados, evidencia um apagamento histórico.
"Nuremberg Map of Tenochtitlan", de Mariana Castillo Deball
É um mapa instalado no chão – sobre o qual o público pode caminhar –, retratando a antiga capital asteca como ela era antes da destruição colonial. Dessa forma, a instalação mostra a cartografia não apenas como um mero registro do passado, mas como um elemento de dominação e, simultaneamente, de resistência ao resgatar a memória do território original.
Ao reproduzir o grande lago e as dinâmicas urbanas da época, o trabalho evidencia o cotidiano e o modo de vida das populações indígenas antes de serem impactadas pelo domínio europeu.
Pepón Osorio, figurino de Coco Fusco
Na performance La Chavela Realty Company, a artista usou a vestimenta como instrumento de crítica histórica e política, recriando o figurino da Rainha Isabel de Castela, financiadora das expedições do explorador Cristóvão Colombo.
Com elementos simbólicos como um chapéu em formato de nau e uma bússola, personificou a figura do colonizador europeu que articulou a invasão das Américas. Faz também um alerta para o presente, provocando o público sobre o risco de potências externas imporem suas regras.
"Quadro Ferido", de Adriana Varejão
Analisa as marcas do colonialismo e a construção de estereótipos a partir de um paralelo entre as histórias do Brasil e da China. Inspirada por uma viagem ao país asiático nos anos 1990, a artista mescla uma paisagem tipicamente chinesa a representações de indígenas retiradas de documentos coloniais americanos, questionando como o Ocidente inventa e simplifica a imagem do "outro".
Para enfatizar essa crítica, Varejão utiliza sua marca registrada: elementos que simulam carne e sangue cortando a imagem. A presença dessas "feridas" denuncia que a estereotipação e a imposição de narrativas coloniais são formas sutis de violência histórica, cujos impactos permanecem vivos e invisibilizados no cotidiano atual.
"Invenção do Paraíso"
Composta por duas tapeçarias da manufatura francesa Gobelins, ilustra a visão romantizada do Novo Mundo sob o olhar colonial europeu do século 17 e 18. O trabalho retrata uma natureza exuberante e superabundante – repleta de animais, peixes e frutos –, apresentando o território americano como um verdadeiro Éden intocado, pronto para a exploração.
As figuras indígenas surgem integradas à paisagem sem oferecer qualquer resistência ou ameaça ao colonizador – como a figura com arco e flecha voltada apenas para a caça –, sugerindo uma presença passiva durante o processo de colonização.
"Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca-Cola", de Cildo Meireles
Representa a resistência artística e a estratégia contra a censura durante a ditadura militar no Brasil. Aproveitando o sistema de embalagens retornáveis e a lógica de circulação em massa do capital, o artista gravou mensagens de contestação política, receitas de coquetel molotov e provocações nas garrafas de vidro antes de devolvê-las ao mercado, tornando a distribuição do trabalho incontrolável pelo regime.
Essa tática consolidou a obra como um marco da arte conceitual brasileira. Ao transformar bens de consumo do cotidiano em suportes de denúncia e panfletagem política, Meireles usou a própria dinâmica do consumo para burlar a repressão e fazer a informação circular livremente.
"La Cama", de Pepón Osorio
Investe na memória afetiva e na identidade cultural latino-americana ao reconstituir uma cama de avó – homenagem do artista à sua sogra. A instalação reúne vários elementos cotidianos, como imagens de santos, rendas, pérolas e fotos de infância, criando um ambiente doméstico repleto de detalhes visuais.
Assim, o artista não apenas celebra a memória familiar, mas constrói um imaginário visual com o qual o público se identifica. Os elementos escolhidos ressoam com a memória afetiva e os costumes populares de muitos lares.
Serviço:
- "Histórias Latino-Americanas"
- Até 31 de janeiro de 2027; terça, das 10h às 20h; quarta e quinta, das 10h às 18h; sexta, das 10h às 21h; sábado e domingo, das 10h às 18h; fechado às segundas
- Onde: Edifício Pietro Maria Bardi - MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
- Endereço: Avenida Paulista, 1578, 2º ao 6º andar, Bela Vista, São Paulo, SP
- Ingressos: R$ 85 (entrada); R$ 42 (meia-entrada); grátis às terças e às sextas (das 18h às 20h30);
- Agendamento on-line obrigatório: site do MASP
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