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Roseana Murray: “Envelhecer significa que eu não morri jovem”

No Dia do Poeta, escritora fala sobre a importância da leitura no envelhecimento e como a poesia ajudou em sua recuperação após ataque de cães em 2024

Alexandre Barreto

Por Alexandre Barreto

20/10/2026 | 16h07 ● Atualizado | 16h08

Divulgação/Bia Hetzel

Para Roseana Murray, a poesia pode transformar vidas e mudar o mundo - Divulgação/Bia Hetzel
Para Roseana Murray, a poesia pode transformar vidas e mudar o mundo
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A escritora e poeta Roseana Murray, de 75 anos, reflete sobre o envelhecimento e a importância da literatura na educação, defendendo que os livros devem ser acessíveis a todas as idades, especialmente em um contexto social desigual.

Murray, autora de mais de 100 obras, sofreu um grave acidente em 2024 que resultou na perda de seu braço direito, experiência que a inspirou a escrever 'O Braço Mágico', um livro infantil que aborda sua adaptação às mudanças físicas e emocionais.

Ela enfatiza a necessidade de bibliotecas acessíveis e a isenção de impostos sobre livros, considerando a leitura essencial para o bem-estar e a saúde mental, especialmente entre os idosos, e propõe um mutirão de visitas a pessoas mais velhas para promover a inclusão literária.

Resumo gerado por IA

São Paulo - “Envelhecer significa que eu não morri jovem.” É com essa frase que a escritora e poeta Roseana Murray, de 75 anos, resume sua visão sobre envelhecimento. Para ela, a literatura ajuda a compreender as transformações da sociedade, desenvolver o senso de justiça e ampliar o acesso ao conhecimento, além de encontrar sentido nas próprias experiências.

No Dia do Poeta, celebrado nesta terça-feira, 20 de outubro, a escritora defende que os livros ocupem um lugar central na educação e estejam acessíveis a pessoas de todas as idades.

A escritora Roseana Murray
Roseana Murray, de 75 anos, é escritora, poeta e autora de mais de 100 obras publicadas - Divulgação/Bia Hetzel

Autora de mais de 100 livros, com uma trajetória dedicada principalmente à literatura infantojuvenil, Murray teve a vida transformada em 5 de abril de 2024, quando foi atacada por três cães da raça pitbull em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Ela perdeu o braço direito.

Durante a recuperação, começou a escrever "O Braço Mágico", livro infantil finalista do Prêmio Jabuti 2025 e inspirado na experiência e no processo de adaptação às mudanças no próprio corpo.

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“Eu achei que eu estava bem ferrada, mas comecei a ter essa ideia que veio assim: não consigo fazer as coisas com o braço esquerdo, com a mão esquerda, eu vou escrever essa história pras crianças”, conta.

No começo, ela ditava o texto para o filho, que o registrava e lia os trechos em voz alta. A escritora avaliava o resultado e fazia ajustes até encontrar o tom que procurava.

A participação dos netos ajudou a definir o caminho da narrativa. Ao incluí-los na história, Murray encontrou a linguagem que buscava para o livro, escrito a partir de uma situação que havia alterado profundamente sua rotina.

"Foi um processo psíquico de cura mesmo, de conseguir sair daquele momento tão terrível. A escrita cura", relata.

Capa do livro "O Braço Mágico"
Capa do livro "O Braço Mágico" - Divulgação/Roseana Murray

Murray diz que não existe um momento específico em que alguém se olha no espelho e percebe que envelheceu. Segundo ela, a experiência é individual e não pode ser resumida à aparência física ou ao número de anos vividos.

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Por dentro, a gente não tem idade. É um acúmulo. Você vai acumulando tudo que você viveu.
Roseana Murray, poeta

"Eu quase morri muitas vezes ainda jovem. Eu celebro a vida, celebro a vida apesar de todas as injustiças”, diz a escritora, que encontrou na arte, nas relações humanas e nas "utopias" referências para continuar olhando para o futuro.

Murray começou sua trajetória no início dos anos 1980. Formada em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, na França, ela estreou com "Fardo de Carinho".

Ao longo de mais de quatro décadas, sua escrita passou por mudanças. Hoje, ela diz buscar uma linguagem capaz de transmitir ideias e emoções com menos palavras.

Talvez tenha ficado mais essencial ainda. Falo muito com muito pouco. E eu acho que, à medida que você vai ficando maduro, vai entendendo isso. Menos é mais.

Hoje, sua poesia combina musicalidade, ludicidade e brincadeira, mas também abre espaço para temas sociais e históricos. A proposta é aproximar os leitores de assuntos complexos por meio da linguagem literária, sem deixar de considerar as particularidades de cada fase da vida. "Às vezes, um poema pode mudar o mundo", ressalta.

A autora recebeu prêmios como o da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Troféu APCA e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras. Também integrou a Lista de Honra do International Board on Books for Young People (IBBY).

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Ao VIVA, ela falou sobre a importância da poesia, a influência de sua história familiar, a relação entre literatura e longevidade e a experiência de reconstruir a própria autonomia. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

VIVA Entrevista

Em um mundo marcado pelas redes sociais e por transformações políticas e sociais, qual é o papel da poesia?

A poesia proporciona silêncio interior e um certo alentamento, um ritmo mais devagar. É como uma câmera lenta. Mesmo que você esteja no meio de uma confusão, em algo muito acelerado, se começar a ler um poema, seu cérebro vai andar mais devagar, no ritmo do poema.

Acho que, como a poesia mexe com sentimentos e conteúdos muito profundos, ela é imprescindível na nossa época. Podemos ler um poema na tela, e o efeito será ótimo, igual.

Qual é a importância de garantir que crianças e adolescentes tenham acesso à poesia desde os primeiros anos da escolarização?

É primordial, porque o Brasil é um País de tamanho absurdo, continental, e existe uma diferença muito grande entre as classes sociais. Não faz tanto tempo que os pobres não iam à escola, que as pessoas menos privilegiadas não mandavam seus filhos para estudar. Faz pouco tempo que as crianças deixaram de trabalhar, e isso ainda existe.

Acho que só a educação pública pode fazer uma revolução pela palavra neste País. O poeta espanhol Fernando Savater dizia que o que separa um pobre de um rico não é exatamente a riqueza material, mas o número de palavras que cada um possui. Porque, sem palavras, você não pode se defender, se explicar diante de alguma situação injusta nem reivindicar seus direitos.

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A literatura na escola é fundamental. Acho que ainda falta muito para que ela tenha o papel que deveria ter. Ela deveria ser a primeira matéria da fila. Clubes de leitura, discussões e fóruns de pensamento: tudo isso ainda falta na escola pública.

Acho que nosso País sofre de uma doença crônica e endêmica terrível, que é a falta de memória. Caso contrário, não chegaríamos onde estamos. Precisamos muito da literatura para entender tudo: a Revolução Francesa, as tiranias no nosso continente, as colonizações e a geopolítica. Hoje, você não pode respirar sem saber um pouco sobre geopolítica.

Escrevo para crianças e jovens. Minha poesia é muito amada, muito lúdica, às vezes brincalhona e musical, mas também aborda determinados temas inerentes ao ser humano e aos seus questionamentos desde a infância.

Seus pais eram imigrantes poloneses. Como essa história familiar influencia sua identidade, sua visão de mundo e sua literatura?

Tive muita sorte de meus pais terem saído da Polônia. Provavelmente, eu não teria nascido. Eles teriam sido mortos. A história da humanidade nos afeta. Existe um conceito maravilhoso africano, o Ubuntu: eu sou porque você existe. De alguma maneira, somos afetados uns pelos outros. Ninguém consegue viver totalmente isolado.

Minha casa era uma casa de imigrantes. Nasci em 1950, apenas cinco anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Meus pais tinham amigos que sobreviveram à guerra e aos campos de concentração.

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Também fiz o ginásio em uma escola judaica. Muito precocemente, tive acesso àqueles filmes terríveis que os nazistas gravavam. Claro que eu não tinha a dimensão do que aquilo significava. Tinha 12 ou 13 anos quando nos levavam a uma sala e mostravam aquelas montanhas de sapatos e de óculos. Os nazistas gostavam de gravar tudo aquilo.

Cresci com essa realidade e com um senso de justiça muito grande, que também vinha do meu pai. Ele era um homem muito justo, e a maior riqueza que poderia ter me deixado foi esse senso de justiça.

Realmente, tenho um olhar social. Minha poesia para crianças sempre traz isso. Sou atravessada por todo esse contexto dos meus antepassados, que foram perseguidos e expulsos.

Como foi aprender a conviver com as mudanças no corpo depois dos 70 anos e reconstruir sua autonomia?

Quando somos jovens, não sabemos muito bem disso, mas, por dentro, não temos idade. Somos um acúmulo de tudo o que vivemos. Você vai acumulando experiências e, na verdade, a idade cronológica não existe da mesma maneira por dentro. O que existe são os órgãos, que vão se desgastando, e as marcas que aparecem no rosto e na pele.

A escritora Roseana Murray
Roseana Murray destaca que o envelhecimento não se resume à idade cronológica - Divulgação/Bia Hetzel

A juventude eterna é buscada o tempo inteiro, mas não faço nada para parecer mais jovem. Há dias em que acordo velha e dias em que acordo adolescente. Existem momentos em que me sinto profundamente curada, mas não caibo direito em nenhuma caixinha.

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Para mim, envelhecer significa que não morri jovem. Que ótimo! Quase morri muitas vezes, ainda jovem. Celebro a vida, apesar de todas as injustiças.

Temos utopias, que são o que nos sustenta. Temos a arte, a ciência, outros seres humanos maravilhosos e outros terríveis. A vida é essa mistura.

É preciso buscar a alegria. Aprendi muito com isso: a alegria ajuda em todas as horas, mesmo nas piores. No hospital, eu estabeleci uma conexão profunda com as enfermeiras, com as mulheres que limpavam o quarto e com todo mundo. Elas contavam um pouco de suas vidas, e essa troca humana vai nos enriquecendo.

Não existe um momento exato em que você se olha no espelho e diz: "Estou velha". Esse momento não existe. Você pode ser uma pessoa sem garra para viver mesmo com 18 anos.

Qual é o papel da literatura e da leitura na vida das pessoas idosas, especialmente diante da solidão e das mudanças na saúde?

Precisamos deixar os livros à disposição das pessoas. Temos bibliotecas públicas, claro, mas nem sempre alguém com dificuldades de locomoção consegue chegar até uma delas.

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No Brasil, não temos muito esse tipo de assistência. Na Europa, existe a possibilidade de alguém ir à casa da pessoa. Como muita gente mais velha mora sozinha, alguém vai até lá para saber se está tudo bem.

Seria lindo se houvesse, na sociedade, um mutirão de visitas para essas pessoas. Também seria maravilhoso se os postos de saúde tivessem uma biblioteca.

Às vezes, uma pessoa que vive de aposentadoria, por exemplo, não tem dinheiro para comprar um livro. O livro é caríssimo no Brasil. Deveria ser isento de todos os impostos, porque um livro é comida, é alimento. Não pode ser tratado de outra maneira.

Eu tenho uma biblioteca dentro de mim. Sou leitora desde muito cedo. A leitura ajuda nos processos de envelhecimento do cérebro, claro, mas também dá suporte à vida.

É preciso acompanhar o próprio tempo. Isso é muito importante para quem envelhece. Muitas vezes, me sinto analógica e tenho raiva das coisas que não consigo fazer, mas acompanho meu tempo na medida do possível.

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Posso estar em uma roda de jovens, conversar e dar tudo certo. Adoro adolescentes. Não sou professora, mas gosto deles. Vejo a mim mesma neles. Eu era muito rebelde na adolescência. O adolescente tem que ser rebelde, ter utopia e querer mudar o mundo, não pela violência, mas pelas palavras.

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