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Sem deixar substitutos, Gilberto Gil emociona SP em último show histórico

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Gilberto Gil no último show da turnê em SP - Divulgação
Gilberto Gil no último show da turnê em SP
Por Adriana Del Ré

29/03/2026 | 11h11 ● Atualizado | 12h32

Sãon Paulo - A despedida definitiva de Gilberto Gil dos palcos — ou, ao menos, das grandes turnês — não marca necessariamente o fim de uma era, porque outros músicos contemporâneos tão importantes assim como ele seguem suas jornadas nas estradas. Mas faz refletir sobre a finitude de uma era de ouro da MPB, que, claro, deixou discípulos, só que não substitutos à altura e com a mesma magnitude.

A obra musical de Gil reflete a complexidade de pensamento de seu autor. Suas canções podem ser poéticas, reflexivas, tocantes, amorosas, dolorosas, sociais, engajadas, festivas. Há Gil para todos os momentos. Por isso, há seis décadas, ele se perpetua na trilha sonora das memórias afetivas. Inspirar-se nele é fácil; difícil é atingir esse nível de profundidade. 

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Na noite deste sábado (28), Gil apresentou no Allianz Parque, em São Paulo, o derradeiro —  e emocionante —  show de sua turnê Tempo Rei, a que ele anunciou, em 2024, como seu canto dos cisnes dos palcos.

O músico prefere não usar a palavra aposentadoria, porque ele segue fazendo música e, quem sabe, volte a fazer aparição novamente em um palco em algum momento especial, talvez em um show mais intimista ou em uma participação especial. Mas sem a mesma obrigação de antes: de quem lançava um disco e necessariamente precisava ir para a estrada para divulgar o trabalho, ou de quem precisava estar na estrada sem necessariamente ter algo novo para mostrar. 

Só que, mesmo todo mundo na plateia do Allianz sabendo que talvez nunca mais veja Gil no palco, não foi uma noite melancólica. Muito pelo contrário. Havia uma plenitude no rosto, nos gestos e nos sorrisos de Gil. Não houve espaço para lamentações. Mas ele estava mais falastrão do que das outras vezes. Desta vez, dividiu com o público mais histórias sobre como algumas canções surgiram, como se fortalecesse aquele momento de comunhão com seus fãs. Foi bonito ouvir o autor relembrar sobre seus momentos particulares de criação.

Às 19h30 em ponto, Gil, vestindo camisa branca e calça vermelha, já abria o show com o sucesso Palco. Emendou com outros hits, como Banda Um, Tempo Rei, Eu Só Quero Um Xodó e Eu Vim da Bahia

O músico falou, cantou, tocou, dançou. Aos 83 anos, como das outras vezes, ele permaneceu se apresentando interruptamente durante as 2h30 de show. Um vigor que impressiona, porque estar no palco é como cumprir uma maratona. Além de talento, é preciso ter certo preparo físico.  

Família

O show dispensou participações especiais estreladas, como em outras apresentações que contaram com nomes como Djavan, Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque. Desta vez, ele preferiu se cercar dos seus: netos, filhos e nora — entre eles, Flor Gil, os Gilsons, Bento Gil, Bem Gil e Mãeana. A família, que já ocupa a cozinha musical da apresentação, ganhou mais destaque no palco, em duetos com ele.

Drão é a canção que Gil fez ao se separar de Sandra Gadelha, e que acabou ficando muito ligada à imagem de Preta Gil, filha dos dois. Morta em julho do ano passado, Preta protagonizou um momento tocante ao lado do pai, ao cantar essa música com ele, quando a turnê passou pelo Allianz em abril do ano passado. Preta, Gil e público se emocionaram. Era a última apresentação deles juntos no palco. E, de certa forma, todos ali, no fundo, sabiam disso. Por isso, aquela catarse. 

Mesmo após a partida de Preta, Gil manteve a canção no repertório, talvez como uma maneira de se reconectar à filha também naquele lugar sagrado de afetos, memórias e história que é o palco. No sábado, o músico, sereno, entoou a primeira estrofe da música, e imediatamente Preta se fez presente ali, como uma saudosa lembrança. Doce e alegre, como ela era.

Mais adiante no show, outro filho do músico, Bem Gil, com voz embargada, lembrou da irmã e de que o pai havia dedicado aquela turnê a ela. Gil se emocionou. Quem conhece o músico sabe que ele não se furta de falar sobre o tema da morte, mesma quando isso envolve relações tão pessoais, como a de pai e filhos. Além de Preta, Gil e Sandra já haviam perdido um outro filho, Pedro, em 1990.

Depois da fala de Bem, Gil aceitou os aplausos do público, como se sentisse abraçado. E, novamente, fez uma reflexão sobre o assunto. "Há uma questão polêmica sobre se (ela) foi para algum lugar ou se simplesmente deixou de ser. É uma polêmica irresoluta, não se resolve. O que é objetivo é que nós que ficamos com muita saudade", disse ele, com poesia, amor e resiliência.

O repertório seguiu passeando por outros sucessos, como Expresso 2222, Andar com Fé, Aquele Abraço, Toda Menina Baiana. Em Sítio do Pica-Pau Amarelo, que é a deixa de que o show se encerrou, diferentemente das outras vezes, Gil apareceu e agradeceu ao público, acompanhado dos músicos da banda e da família. E saiu dali feliz, não como se dissesse 'adeus', mas um 'até breve'.  

Rock in Rio

Apesar dessa despedida no Allianz, Gil ainda tem outro compromisso a cumprir, como uma das atrações do Rock in Rio (RiR), em setembro. Roberto Medina, criador do histórico festival, não só convenceu Elton John a reverter sua aposentadoria, ao menos por uma noite, como conseguiu que Gil adiasse, mais uma vez, seu último adeus, ao incluí-lo no lineup do Palco Mundo do dia 7 de setembro.

Gil se apresentou no primeiro Rock in Rio, em 1985, quando tudo ainda era mato quando o assunto era grandes festivais no Brasil. Então, essa participação de Gil no RiR deste ano pode ser bem simbólica não só para ele próprio quanto para o festival.  

A princípio, Tempo Rei seria realizada somente ao longo de 2025, entre março e novembro. No entanto, com a morte de Preta, o show que ele faria em Belém, em agosto, foi transferido para 2026, e outras apresentações acabaram sendo adicionadas em sua agenda, estendendo a turnê. Teve também Navio Tempo Rei, em dezembro. A demanda pelos shows de Gil foi grande. Era garantia de plateias lotadas.

Gilberto Gil se despediu da turnê em São Paulo, fará um breve came back no Rock in Rio e, depois, a vida na estrada para fazer shows deve se encerrar definitivamente. Mas, mesmo com seus contemporâneos ainda na ativa e sem previsão de aposentadoria, permanece a realidade incômoda: Gil e seus pares não deixam substitutos na música brasileira. 

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