CEO deixa vida corporativa e faz shows cantando sucessos de Roberto Carlos
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São Paulo - Aílton Santos é uma pessoa que pode agregar vários qualificativos ao seu nome: matemático, administrador, ex-CEO de uma grande empresa multinacional (Nokia), conselheiro, palestrante, estudante, cantor e empreendedor. Seu lado mais reconhecido ainda é o de um profissional com uma carreira marcada por tecnologia, gestão e posições de liderança em grandes empresas.
Mas agora, aos 57 anos, depois de se aposentar precocemente aos 55, ele dedica-se ao doutorado em administração, projetos ligados à economia criativa e à vida artística, apresentando o show “Tributo ao Rei”, em homenagem a Roberto Carlos. Para ele, o perfil de de um executivo de alta liderança corporativa, voltado à métodos, metas, números e inteligência artificial, e a entrega sentimental nos palcos como Tingo Santi, o nome com o qual se apresenta, são faces da mesma moeda.
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Segundo diz, seu caso não se classifica como o de um executivo que descobriu a música e o canto. “Eu não vejo como reinvenção, eu vejo como reencontro.” Para ele, não foi o CEO quem se tornou artista. O músico já estava presente desde a infância e permaneceu ao longo da trajetória profissional.
Eu acho que é o artista quem resistiu ao CEO durante esse tempo todo, está em mim e nunca morreu.”
Ou seja, a música não surgiu depois da aposentadoria. Ela o acompanha desde a infância. Ele conta que seus pais promoviam rodas de seresta em casa, e ele cresceu ouvindo, por exemplo, Jamelão e Altamiro Carrilho.
Apaixonou-se por Roberto Carlos, por conta de uma tia que era fã do Rei, e começou a cantar ainda criança. Na adolescência, montou bandas de rock e, já no mercado de trabalho, criou grupos musicais formados por funcionários nas empresas em que trabalhou.
A saída do mercado formal de trabalho, pode-se dizer, apenas transformou essa relação antiga com a música em um projeto profissional. No fim de 2024 e início de 2025, criou o show. A escolha do repertório foi acompanhada pela decisão de evitar a caracterização típica dos tributos baseados na imitação física do artista. “Eu vou cantar primeiro sendo eu mesmo no palco”, afirma.
Tingo Santi interpreta Roberto Carlos com semelhança vocal natural, respeito profundo ao repertório e produção de palco de alto nível. O que o público sente no show é sobre a própria vida dele, ativada pelas canções do Rei, entregues com fidelidade e sofisticação”, diz o texto de apresentação no site de Santi.
Maioria dos fãs é de mulheres 50+
O musical, que é apresentado com orquestra. levou Tingo Santi a criar um perfil no Instagram, plataforma que ele afirma nunca ter utilizado antes. Em cerca de um ano e meio, diz, já ultrapassa 70 mil seguidores, dos quais 92% são mulheres. A maior parte do público tem mais de 50 anos.
Aplicando à nova carreira os conhecimentos acumulados como gestor, Santos administra o próprio projeto por meio de empresa criada por ele: cuida pessoalmente da venda dos shows, contratação dos músicos e logística. Recentemente, diz, passou a contar com um empresário para ampliar comercialmente o projeto.
A convivência entre razão e emoção é, para Santos, natural. Ele é formado em matemática e estudou matemática pura, área que associa ao rigor, à abstração e à lógica. Na música, porém, diz não recorrer conscientemente a esse lado racional. “Quando eu vou compor ou quando eu vou cantar eu não me vejo com meu lado da matemática que é o lado mais do rigor”, afirma.
“As coisas que eu escrevi que eu mais gosto vieram do coração, não vieram do cérebro, acrescenta.” Por isso, afirma: “Em termos de cognição ou emoção, eu me vejo como ambidestro”, diz.

Ele descobriu o gosto pela matemática e por ciências exatas na adolescência, quando fazia um curso preparatório para ingressar na Academia da Força Aérea. Como gastava muito tempo se deslocando de Niteroi para o Rio de Janeiro, pediu autorização para estudar em casa. Foi aí que aprendeu, sozinho, matemática e física, segundo conta.
No processo seletivo, descobriu perda de audição em um dos ouvidos, provocando sua desclassificação. O fato chama a atenção para alguém que se apresenta cantando. Ele admite não ouvir alguns sons agudos e microfonia, mas isso, segundo conta, não prejudica o canto nem suas apresentações.
Entrada na universidade aos 17 anos
Na década de 1980, quando ingressou na UFF aos 17 anos, ainda não havia cursos de informática como os atuais. A universidade criou uma modalidade de matemática com informática, começando ali sua formação na área de tecnologia. Em 1988, iniciou um estágio na Xerox e, em 1990, foi efetivado como analista de sistemas.
Após deixar a empresa em 1994, criou o próprio negócio, um franquia de informática para crianças. Dois anos depois a empresa quebrou e 1997 voltou ao mercado. Trabalhou na EDS e posteriormente, em 2009, tornou-se diretor global em uma empresa mundial de óleo e gás, em Houston (EUA).
Em 2012, retornou ao Brasil a convite da HP. Alguns anos depois, chegou à Nokia por indicação de um antigo colega. Começou como vice-presidente para a América Latina e, posteriormente, assumiu a posição de CEO da operação brasileira, função que exerceu por cerca de três anos, até sua aposentadoria, em 2024.
Aposentadoria foi planejada desde o começo da vida profissional
A aposentadoria foi planejada desde cedo. Quando ainda na Xerox, um gerente o fez refletir sobre o tempo, quanto do dia era efetivamente dedicado às próprias escolhas. A partir dessa conversa, começou a poupar,para que futuramente pudesse comprar seu próprio tempo, e não uma empresa. Passou então a poupar. “Aposentadoria, se você tem um planejamento financeiro, não é aposentadoria, é vulnerabilidade”, avalia.
Dessa maneira, a aposentadoria não é o encerramento da atividade, mas a liberdade para escolher onde colocar o tempo, o conhecimento e as capacidades acumuladas. A disposição para começar novamente é outro aspecto que considera fundamental. No doutorado, voltou à condição de aluno; na música, reconhece que ainda precisa aprender sobre a indústria.
Essa disposição, na sua interpretação, está relacionada também à longevidade. Santos defende que pessoas com mais de 50 anos continuem fazendo planos de médio e longo prazo. Para ele, o aumento da expectativa de vida amplia a possibilidade de iniciar novos projetos mesmo depois de uma longa carreira profissional.
Além do doutorado e da música, ele eventualmente também faz palestras sobre inteligência social, gestão e sua experiência como executivo. E ainda atua como conselheiro em empresas com as quais tenha afinidade e possui certificação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Não é a toa que, ao falar sobre o futuro, Aílton Santos recorre a uma frase atribuída por ele a um filósofo indiano: “Que a morte me encontre vivo”.
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