Falta de clareza sobre cargo é maior gatilho para estresse, segundo estudo
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03/01/2026 | 14h00
São Paulo, 03/01/2026 - A falta de clareza sobre as funções inerentes a um cargo é o principal fator de estresse entre trabalhadores. A taxa de insatisfação chega a 79%, dependendo do setor, de acordo com um levantamento inédito que faz um retrato dos riscos psicossociais enfrentados por empregados de diferentes áreas da economia.
O estudo, realizado com 245 empresas da Região Metropolitana de Campinas (RMC), foi conduzido com a metodologia HSE-IT, referência internacional traduzida e adaptada pelo professor e pesquisador Sérgio Roberto de Lucca, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O sistema foi aplicado pela Aventus Ocupacional.
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O HSE-IT é uma ferramenta desenvolvida pelo Health and Safety Executive (Reino Unido) para medir fatores de risco psicossociais relacionados à gestão, organização e clima de trabalho. Traduzida e validada pela Unicamp em 2013, foi adaptada ao contexto brasileiro e hoje é ferramenta fundamental para o cumprimento das diretrizes da NR-01 e da ISO 45003.
Mapeamento dos setores
O levantamento mapeou empresas dos setores de serviços (50%), comércio (19%), transportes (17%) e indústria (14%). Segundo os pesquisadores, os resultados podem ser extrapolados para o resto do País, apesar de ter sido feito apenas na Região Metropolitana de Campinas. A área concentra um parque empresarial bastante diverso, com companhias de diferentes portes e setores.
De acordo com De Lucca, o questionário (HSE) que avalia sete dimensões fundamentais que determinam se um ambiente de trabalho é saudável ou patogênico:
Demandas de trabalho: Exigências e carga de tarefas.
Autonomia: O quanto o trabalhador tem controle sobre seu processo.
Relacionamentos: Clima interpessoal na equipe.
Apoio da chefia: Suporte direto dos gestores.
Apoio dos colegas: Colaboração entre pares.
Comunicação: Clareza no fluxo de informações.
Clareza do Cargo: Compreensão das funções e responsabilidades.
No estudo, os piores resultados foram observados em “Cargo”, “Comunicação e Mudanças” e “Relacionamentos” — as três dimensões que mais impactam o equilíbrio emocional e a motivação dos trabalhadores. O domínio Claeza do Cargo foi o mais mal avaliado em todos os setores, com taxas de insatisfação entre 65% e 79%.
Transportes
Motoristas de transporte escolar e fretado relataram altos níveis de pressão em Clareza do cargo (79%), Relacionamentos (69%) e Demanda (68%). Mais de 70% dos trabalhadores avaliados são motoristas de fretados e transporte escolar, submetidos a horários fragmentados e longas jornadas, além do isolamento característico da função.
O comércio também se destacou negativamente, com índices críticos em Clareza do cargo (73%), Relacionamentos (62%) e Apoio da chefia (57%). Na indústria, apenas a falta de clareza das funções superou a média geral de risco, enquanto o setor de serviços se mostrou o mais equilibrado, com indicadores abaixo da média em todos os domínios.
Um outro fator, segundo o estudo, é considerado gatilho para o estresse: o excesso de demandas. No transporte, motoristas relatam longas jornadas que começam antes e terminam depois do expediente dos passageiros. No comércio, a rotina de trabalho em shoppings, geralmente no modelo 6x1, com folgas limitadas, tem ampliado a pressão sobre os funcionários.
“As pessoas precisam estar capacitadas para a função que vão exercer. O que se avalia é isso, se as pessoas foram treinadas e se elas se sentem capacitadas para o cargo”, diz De Lucca, que também é coordenador do Laboratório de Estudos de Saúde e Trabalho (ESTER) e do Observatório Nacional de Saúde Mental e Trabalho (OBNSMT) Para ele, os dados apontam para a falta de treinamento..
“Melhorar a definição de papéis e treinar lideranças gera resultados rápidos e exige baixo investimento”, afirma o fundador da Aventus Ocupacional e autor do livro Fatores de Risco Psicossociais Relacionados ao Trabalho, Marco Aurélio Bussacarini. “Um cargo bem definido e coerente é fator protetivo; já um cargo confuso, mal estruturado ou distorcido é um fator de risco psicossocial direto — pois impacta na motivação, no senso de propósito e na estabilidade emocional do trabalhador”, declara.
Segundo De Lucca, a pesquisa e seus resultados podem contribuir para que as empresas implantem programas de saúde mental. E, muitas vezes, algumas ações de caráter simbólico ajudam a elevar o moral. "Gratificações simbólicas podem ser essenciais, como o reconhecimento profissional. A existência de plano de carreira também ajuda”, diz.
“Por outro lado, há questões estruturais mais complexas, como a escala de trabalho seis por um. É difícil esperar que um colaborador esteja satisfeito quando trabalha seis dias para descansar apenas um, especialmente quando a folga coincide com o domingo apenas uma vez por mês”, declara.
Papel da chefia
De Lucca também chama a atenção para o papel dos chefes. Bem treinados e orientados, inclusive em relação à postura e ao comportamento, contribuem para o bem-estar e a produtividade, já que o adoecimento ocorre quando a organização falha no respeito à subjetividade do indivíduo e na capacitação dos gestores.
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Um dado apurado pela pesquisa é a alta proporção de profissionais da área de saúde com carga horária semanal inferior a 40 horas, reflexo das escalas de 12x36 horas comuns nesse segmento. O estudo, no entanto, aponta que a flexibilidade tem um efeito colateral estressante: muitos profissionais acumulam múltiplos vínculos, aumentando os riscos de sobrecarga e esgotamento mental
Outro dado relevante: o estudo capta a forte presença de mulheres no mercado de trabalho: elas representam 54% da força de trabalho, contra 46% de homens. O setor industrial continua sendo o que menos emprega mulheres (28%), enquanto os serviços lideram com 69% de participação feminina.
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