Mercado brasileiro não está preparado nem para os 60+ nem para os jovens
Orlando Kissner/ANPR
São Paulo - Apesar dos esforços globais em encarar o envelhecimento populacional com otimismo, o mercado de trabalho brasileiro exclui hoje as duas pontas da pirâmide etária: os jovens e os mais velhos. A afirmação é do sociólogo e demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, referência nacional em análise da transição demográfica.
Quando olhamos para os adultos, o cenário também é ruim: dos cerca de 100 milhões de trabalhadores no Brasil, quase a metade está no setor informal, sem direitos trabalhistas, com baixa produtividade e baixa renda. Quando chegamos aos idosos, a realidade se repete, boa parte dos que continuam trabalhando está na informalidade, recebendo ofertas que não condizem com sua experiência", diz Alves.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022 o Brasil atingiu um alto índice de jovens de 15 a 29 anos fora da escola e do mercado de trabalho (nem-nem), entre 9 e 10 milhões, ficando atrás apenas da África do Sul nesse indicador negativo. A maioria desses jovens é formada por mulheres, negras e pardas, de baixa renda, que abandonaram o ensino básico sem concluí-lo.
Do outro lado, o País vive uma drástica queda na taxa de atividade da população entre 50 e 59 anos, uma redução muito mais acentuada do que a observada em países como Japão e Alemanha, que passam também pela transição demográfica, de acordo com Alves.
Rápido envelhecimento é obstáculo, mas não impeditivo
O envelhecimento populacional não é exclusividade brasileira, mas a velocidade com que ocorre aqui exige medidas urgentes, segundo os especialistas. Enquanto países como a França levaram cerca de 200 anos para que a proporção de pessoas idosas passasse de 7% para 28%, o Brasil e outras nações latino-americanas farão essa mesma transição em apenas 50 anos.
Em apenas 12 anos, a população com 60 anos ou mais saltou de 22,7 milhões para 35,2 milhões, um aumento de 55,4%. Para a economista e pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a preocupação surge justamente nos países emergentes, como o Brasil, com suas dificuldades macroeconômicas e sociais.
O envelhecimento preocupa porque afetará não apenas a previdência, mas também o eixo da assistência social, já que muitos indivíduos não tiveram condições de contribuir para o INSS e passam a receber aposentadoria pelo BPC", afirma a pesquisadora.
Feijó é autora do artigo "Geração prateada: onde estão os 60+ no mercado de trabalho", em que traz uma análise socioeconômica sobre a permanência de profissionais com mais de 60 anos no mercado de trabalho.
Ao VIVA, a economista defende investimentos na primeira infância, que devem colher frutos a longo prazo. "Para a economia crescer, precisamos combater o etarismo e avançar em educação e saúde, garantindo que as pessoas cheguem a essa fase da vida conseguindo contribuir positivamente".
Direitos humanos para um envelhecimento otimista
Para dar vazão à tese de economistas internacionais, como Andrew Scott, da London Business School, que enxergam o envelhecimento populacional como uma oportunidade, o segredo pode estar nos direitos humanos, segundo o demógrafo.
Precisamos quebrar aquela estrutura fixa do passado em que os jovens só estudavam, os adultos trabalhavam e os idosos apenas descansavam porque estavam doentes. Hoje, a educação deve ser continuada, porque a tecnologia muda o tempo todo."
Um exemplo citado por Alves é a Coreia do Sul, que em 1953, após a Guerra da Coreia, era um país empobrecido. "O que a Coreia do Sul fez? Investiu massivamente em educação de qualidade, colocou os jovens nas universidades, construiu hospitais e estradas, e aplicou muito dinheiro em tecnologia."
O demógrafo relembra que, em menos de 70 anos, a Coreia construiu marcas globais tecnológicas, que produzem semicondutores e se tornou um país rico, com uma renda per capita três vezes maior que a brasileira e uma expectativa de vida de 84 anos — superando o Brasil, que tem 76, e os EUA, com 79.
Outros países que se desenvolveram e envelhecem rapidamente, como a China, que terá mais de 500 milhões de pessoas idosas até a metade do século, já se preparam investindo em automação, robótica e inteligência artificial para lidar com a falta de mão de obra jovem e criar postos de trabalho adaptados aos mais velhos, cita o demógrafo.
O especialista sugere encarar o envelhecimento como oportunidade a partir da execução coletiva em quatro níveis:
- Individual: esforço de cada um para manter a saúde física e mental em dia, com prática de exercícios físicos recorrentes e alimentação saudável.
- Local: ter um projeto de vida e manter a interação social com a família e a comunidade.
- Iniciativa privada: as empresas não podem manter estruturas idadistas; precisam, no lugar, criar programas que promovam a integração entre jovens, adultos e pessoas idosas.
- Governamental: os governos devem criar políticas públicas e cidades amigas das pessoas idosas, garantindo mobilidade urbana, parques para contato com a natureza e acesso à educação e à cidadania.
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