CONFIRA

Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto se unem em disco e turnê: 'Química'

Ao VIVA, os dois cantores e compositores falam sobre 'Vice-Versa', primeiro projeto musical juntos, amizade e influências em comum

Adriana Del Ré

Por Adriana Del Ré

23/10/2026 | 14h13

Divulgação/Leo Aversa

Com disco já nas plataformas de streaming, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto planejam shows da turnê - Divulgação/Leo Aversa
Com disco já nas plataformas de streaming, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto planejam shows da turnê
Ouvir texto 2:27 1x

Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto lançaram juntos o álbum 'Vice-Versa'. Até então, eles só tinham uma parceria juntos, lançada em 2006. O projeto, que inclui um repertório inédito, surge após uma colaboração bem-sucedida no Coala Festival de 2024.

Ambos os artistas expressaram satisfação com a parceria, destacando suas afinidades literárias e musicais, especialmente a influência do poeta Augusto de Campos. A união criativa foi impulsionada pela vontade de explorar novas composições e pela química que compartilham.

A turnê 'Vice-Versa' começará em São Paulo em março de 2027, passando por outras cidades brasileiras, com ingressos já disponíveis. A colaboração também representa um aprendizado mútuo, com ambos se adaptando a estilos de composição diferentes, mas complementares.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Se as quatro décadas de carreira de Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto – e os muitos anos de amizade – não deram oportunidades para que os dois fizessem muitas parcerias juntos, eles propositadamente criaram um projeto para isso.

O belo álbum "Vice-Versa", recém-lançado em dupla, uniu dois grandes artesãos de letra e música. O novo trabalho também consolidou, com um repertório inédito e autoral, um flerte musical que nasceu por acaso com a canção "Para Lá", de 2006 – até então única parceria deles –, mas que nunca havia passado de algumas participações em conjunto nos palcos, como aconteceu no Coala Festival, de 2024, em São Paulo. 

A sensação que eu tenho é que a gente recuperou o tempo perdido".
Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes está na frente de uma luz, em uma foto em preto e branco
Arnaldo Antunes tem referências em comum com Adriana, como o poeta Augusto de Campos - Divulgação/Leo Aversa

Arnaldo e Adriana estão genuinamente felizes com essa parceria musical, enfim, concretizada no novo álbum e também na turnê que vai sair pelo Brasil. Realizado pela 30e em parceria com o Itaú Live, o tour "Vice-Versa" começa por São Paulo, no dia 6 de março de 2027, e depois segue para Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Curitiba. Os ingressos já estão à venda. 

No caso deles, a regra dos "opostos se atraem" não se aplica. Apesar de estarem acostumados a compor de forma diferente – Adriana, de maneira mais solitária, e Arnaldo, mais coletivamente –, os dois cantores e compositores têm muitas afinidades literárias e musicais, tendo como principal pilar a influência e a proximidade com o poeta concretista Augusto de Campos, de 95 anos.

Fora a química, a gente tem um repertório de coisas em comum, de poetas que a gente gosta, de filmes, de soluções artísticas"
Adriana Calcanhotto

VIVA Entrevista 

Em entrevista exclusiva – e em dupla – ao VIVA, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto falam sobre esse momento especial com o novo projeto, amizade, longevidade e referências compartilhadas. 

Até 'Vice-Versa', vocês só tinham feito uma música juntos. O que impediu vocês de terem mais parcerias juntos?

Arnaldo - Eu estranho também a gente não ter mais parcerias. Até então, só teve ‘Para Lá’, mas acho que a gente inventou um motivo para fazer mais e deu muito certo.

Adriana - A gente faz muita coisa em quantidade e em diversidade de linguagens. Acho que não tinha surgido uma oportunidade como foi a do (festival) Coala. A gente viu que dava para fazer um show inteiro junto. A sensação que eu tenho é que a gente recuperou o tempo perdido. Tivemos a oportunidade e aí atualizamos. E agora, sim, somos parceiros. 

Arnaldo - O show deu vontade na gente de fazer mais, foi muito gostoso, aproximou mais ainda a gente. E o desejo de fazer mais shows deu o desejo de fazer mais canções inéditas, para fazer um disco e um show não só mirando o passado, mas também o presente.

Adriana, acha que foi um desafio maior para você trabalhar dessa forma, em dupla, com o Arnaldo? É que ele já está mais acostumado a trabalhar coletivamente.

Adriana Calcanhotto tem cabelos curtos pretos, roupa branca e segura um violão
Adriana Calcanhotto mudou sua forma de composição em "Vice-Versa"- Divulgação/Leca Novo

Adriana - Mais do que desafio, foi uma oportunidade. O Arnaldo tem canções com oito, nove parceiros, uma coisa que não existe na minha vida. E ele tem essa facilidade que é do temperamento dele, do método dele e da experiência com banda, com Tribalistas. É novo para mim. Então, é uma oportunidade também de aprender com ele.

Arnaldo - E eu aprendi muito com ela também. É sempre um aprendizado mútuo. Cada parceiro é de um jeito diferente. Tenho essa naturalidade, venho da escola Titãs, que era todo mundo fazendo música o tempo todo, no quarto de hotel, no ônibus, no camarim, que depois continuou com os Tribalistas, com muitas parcerias pela vida.

Adriana, você fez questão que essa parceria fosse feita presencialmente?

Adriana - Nós fizemos questão. Como a gente tem esse passado, me senti segura. Acho que estar junto é muito interessante para trabalhar. Rendeu coisas como nunca na minha vida, como fazer três canções em um dia e gostar delas - ficar contente com elas e colocar no disco.

Vocês têm quatro décadas de carreira. O que consideram fundamental para manter a longevidade, o frescor artístico?

No meu caso, acho que tem uma coisa de estar inquieto. Não estar confortado e conformado com o que já foi feito.
Arnaldo Antunes

Quero sempre buscar alguma coisa que seja novidade para mim. E aí novas parcerias acabam sendo um ingrediente também que possibilitam essa experiência nova. É uma curiosidade permanente. No caso de parceria, tem uma coisa que parece que vem antes de tudo que é uma química que dá certo, que é uma relação que envolve afeto e intimidade, uma linguagem em comum. Se não tiver a química, não rola.

Adriana - Acho que é um desejo de fazer. Não é fácil fazer as coisas. Para uma mulher, é o dobro mais difícil para tudo. É o desejo de fazer o trabalho e de leva-lo adiante, de fazer ele dentro de um nível de acabamento. Acho que, no nosso caso, fora a química, a gente tem um repertório de coisas em comum, de poetas que a gente gosta, de pessoas, de filmes, de soluções artísticas. Então, isso retroalimenta.

Qual o livro, o filme ou o disco é uma referência fundamental para vocês até hoje?

Arnaldo - Eu não gosto de escolher uma coisa só, são muitas.

Adriana - Eu poderia escolher, mas eu mudaria de ideia amanhã (risos).

Arnaldo - Acho que tem referências comuns. Por exemplo, acho que o Augusto de Campos é um poeta imenso dentro do panorama da poesia brasileira de todos os tempos, e ele é um poeta com quem a gente tem a felicidade de ter uma amizade, um conhecimento pessoal. Tanto Adriana como eu. Mas são muitas referências na obra da Adriana: Parangolé, Caetano, Waly (Salomão), (Antonio) Cícero, cinema, Suzana de Moraes, o Vinicius de Moraes, pai da Suzana. Enfim, tem muita coisa em comum que nos interessou.

Aproveitando esse momento em que vocês estão juntos, queria que um fizesse para o outro uma pergunta que nunca fizeram.

Adriana - Arnaldo, queria que você falasse como estabeleceu a ordem do seu livro novo ("Algo Antigo"), quais critérios?

Arnaldo - Fui mexendo e mudando essa ordem muitas vezes. Eu chegava a imprimir e montava de um jeito, depois arrancava tudo e montava de outro jeito. Tenho umas 70 versões do livro que foram mudando. E, junto com a ordem, acontece o corpo a corpo, que é: quais poemas entram, quais ficam de fora, quais novos eu faço por conta dessa ordem.

Às vezes, o critério é temático. Tem uma primeira parte que tem muitos poemas falando de tempo, depois de morte e depois se abre um pouco. Mas fora isso é uma coisa de um feeling. Também o equilíbrio entre poemas visuais e verbais, porque eu não gostaria de separá-los, acho que eles ficam bem nessa fluência de sair de um e entrar em outro. 

E Arnaldo?

Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto usam roupas pretas e têm suas imagens refletidas em espelhos
Antes de "Vice-Versa", Arnaldo e Adriana fizeram show juntos no festival Coala, em 2024- Divulgação/Leo Aversa

Arnaldo - Eu queria que a Adriana falasse sobre o compositor Lupicínio Rodrigues que ela interpretou tão bem, fez aquelas releituras. Eu fiz também na (canção) "Judiaria". Acho até que a gente deveria trazer alguma coisa dele para esse novo show. Ela é do mesmo estado de origem dele, do Rio Grande do Sul. 

Adriana - Esse trabalho que eu fiz do Lupicínio foi a convite da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na verdade, comemoravam-se os 80 anos da universidade, não era uma coisa específica de Lupicínio. Cada intérprete ganhou um autor e eu ganhei ele. O Lupicínio no Rio Grande do Sul é um tipo de Caymmi na Bahia. 

Aquelas canções sempre existiram na minha vida, desde criança. Eu já tinha investigado o Lupicínio quando fiz "O Micróbio do Samba", meu disco que tem esse nome por causa dele. Mas foi com o disco "Loucura" (com músicas de Lupicínio) que entendi sobre a relação com ele, de ser uma influência. Mas não é uma coisa que você descobre, como descobre o Caetano, descobre o Arnaldo Antunes. Não, Lupicínio sempre existiu.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.