Aos 63, Paulo Ricardo foge da nostalgia e inicia nova fase: 'Me reinventar'
Divulgação/Bella Pinheiro
São Paulo - À frente da banda RPM, Paulo Ricardo vivenciou nos anos 1980 algo parecido ao que foi a beatlemania na década de 1960. Guardadas as devidas proporções, a comparação dá a dimensão do sucesso sem precedentes que o grupo alcançou no Brasil. Esse fenômeno chegou ao ápice após o lançamento do disco "Rádio Pirata ao Vivo", em 1986, um dos mais vendidos da história da indústria fonográfica brasileira.
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Exatos 40 anos depois, Paulo Ricardo vai revisitar esse disco clássico, na íntegra, neste sábado (22), a partir 15h45, no festival C6 no Rock, dedicado ao rock nacional dos anos 1980, que será realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, até domingo (23).
Já com a formação clássica – que incluía ainda Fernando Deluqui (guitarra), Luiz Schiavon (teclados) e Paulo Pagni (bateria) –, o álbum "Rádio Pirata ao Vivo" reunia sucessos como "Olhar 43" e "Rádio Pirata", além da versão de "London London" (de Caetano Veloso), que se tornou emblemática na voz de Paulo Ricardo, também compositor e baixista da banda.
É como se eu viajasse no tempo e reencontrasse aquele garoto que eu era aos 22 anos. Muitas vezes, estou no meio da música e falo: como é que eu escrevi isso? É rever um velho amigo, que, por acaso, sou eu", diz o músico, ao VIVA, sobre revisitar esse disco.
Mas, aos 63 anos e com mais de 40 de carreira, Paulo não gosta de viver só do passado – mesmo que esses seus tempos como rockstar ainda ocupem um lugar importante na sua história e nas suas apresentações. E, com sua nova turnê "Reinventar", que estreou em julho, ele consolida essa ideia.
Com um repertório que transita entre os hits do RPM e a carreira solo, incluindo sua versão de "Imagine" (de John Lennon e autorizada por Yoko Ono), e "O Verso", sucesso mais recente, o show inicia um novo ciclo, uma espécie de segunda temporada em sua trajetória.
Ao VIVA, Paulo Ricardo fala por que é um músico inquieto, aberto a novos começos; e também sobre sucesso, envelhecimento e como é ser pai de quatro filhos de diferentes gerações, hoje com 10, 12, 14 e 39 anos. Leia os principais trechos a seguir.
Acha que, para o público, boa parte de seu repertório está ligado à nostalgia?
Acho que há diferença entre a nostalgia e o momento, o sentimento, aquela emoção que a pessoa vive no show. Não é a mesma coisa.
Nostalgia está ligada a uma coisa que desapareceu, não faz mais parte da sua vida e, de repente, você tem aquele encontro. A nossa música, felizmente, graças ao público, permanece.
Ela está aí. Está no rádio, no streaming. Por exemplo, eu estava vendo uma série e, de repente, a personagem fala: "Ah, então esse é o seu olhar 43"? Fiquei lisonjeado e curioso. Fui rever com áudio original: “Yeah, this is my killing look”. É a tradução deles para “olhar 43”.
Não associo a essa sensação de nostalgia, porque há uma continuidade. É uma Polaroid atual de uma história que tem um começo nos anos 1980, mas que continua se desenrolando. Sobretudo, esse novo show tem o conceito de se reinventar. É um privilégio ter uma obra, um conjunto de canções que têm, sim, muito a cara do seu tempo, mas que foram responsáveis por várias revoluções. E, mesmo dentro de mim e do meu trabalho, mudei muito de lá para cá.
Na turnê “Reinventar”, você revisita seus clássicos. Como é para você tocá-los até hoje?
É uma catarse tão imediata, uma espécie de ritual, de oração que todo mundo conhece, todo mundo canta junto. Isso varia de artista para artista, mas não existem duas versões iguais, porque não existem dois shows iguais. Você está sempre em um lugar diferente, com público diferente. Tudo pode acontecer. Cada show é único, é uma experiência única, não importa quantas vezes você viu aquilo.
Quando o grande sucesso acontece, é uma explosão. É difícil descrever o porquê e o que faz de uma canção um grande sucesso, mas é uma força tão grande que vem das pessoas. Mas cada canção tem uma história para as pessoas e, por isso, muitas vezes, elas nem querem saber exatamente a história por trás daquela música. Sou da corrente de artista que respeita o arranjo original. Quero que a pessoa tenha aquele flashback, aquele arrepio de ouvir aquele som. Mantenho o mesmo baixo que gravei, os mesmos timbres, que na época eram super modernos e hoje se tornaram vintage.
É interessante, porque muitas vezes, em show, o próprio autor da canção muda o arranjo...
Eu resisti muito a fazer um acústico, mas fiz finalmente em 2023, "Voz, Violão & Rock'n'roll", de uma forma bem minimalista, dois violões e uma gaita de boca. São versões completamente diferentes, esquecendo toda aquela parafernália techno pop ou oitentista e bebendo no blues, na country music, no rock and roll. Ficou bem bacana, mas existe um show só para isso. No entanto, gosto muito de rearranjar, recriar canções de outros compositores que admiro. E aí a gente passa por “London London”. Muita gente até acha que “London London” é uma música do RPM. Desculpe, Caetano (risos).
Existem canções que ouço e falo “essa aqui eu poderia regravar”. Mas sempre tem tanta coisa nova para fazer que não tenho muita tendência de buscar e regravar coisas que já foram lançadas. Existem muitas coisas (minhas), sim, que não foram lançadas. Inclusive, a gente está tendo até um certo problema, porque alguém teve acesso a fitas demo, fitas cassete dos anos 1980 (do RPM) e está divulgando isso.
Essas fitas estavam com quem?
Basicamente, quem tinha eram os integrantes da banda. Estou falando de 30 anos atrás. Tenho as fitas, passamos depois para CD, está tudo lá comigo, mas aquilo é o que a gente chama de baú. É uma caixinha de ideias não lançadas, pedaços de ideias. Algumas dessas demos, já usei ao longo desses anos. Estou falando de 1993, 94, 95. Pelo menos umas quatro ou cinco já lancei ou peguei um pedaço, mas existem algumas que ficaram praticamente inteiras, representam um álbum que não foi lançado. Essa formação que se chamava Paulo Ricardo e RPM acabou se desfazendo e as canções ficaram dentro desse baú de prata dentro de mim, como dizia o Gil, mas é incontrolável nas mãos de quem pode fazer isso circular.
Você está tentando descobrir quem divulgou?
A gente tem que ter cuidado com isso, porque é coisa de fã. O fã quer aquela versão que não saiu, quer aquele take que nunca ninguém ouviu. Porém, isso não está no nosso controle. Isso surgiu agora há pouco tempo e a gente vai ter que entender, puxar esse fio da meada, mas é uma coisa que tem um lado jurídico e um lado do fã. Se for para lançar, vamos lançar direitinho.
Essa nova turnê marca uma nova fase?
Super. Sou muito inquieto e fico entediado rapidamente. Então, quando faço um show, depois de alguns meses, um ano – que é o tempo médio de uma turnê para percorrer esse Brasilzão –, já estou de olho em outro figurino, em outro cenário, outras ideias. Acho que o show passado, o tour do show de 40 anos, foi uma espécie de fechamento de um grande ciclo que vem desde o comecinho com a RPM, passando pelas fases todas do pop romântico, flerte com a MPB e chega até o ciclo completo, com a música “O Verso” que tem feat com (Rogério) Flausino. Para mim, “Reinventar” é o recomeço.
Agora, tenho que pensar tudo de novo, sonhar tudo de novo, me reinventar como artista. É esse desafio, esse desconhecido que a gente vai encarar no show. Por exemplo, vou tocar “London London” no piano pela primeira vez. Nunca fiz isso, nunca toquei piano, compus algumas coisas. Tenho teclado, mas nunca sonhei em me apresentar. Este ano, surgiu essa ideia de fazer uma homenagem ao que Schiavon (que morreu em 2023).
Você vê, então, a vida dessa forma, com novos começos?
Sim. Não é da minha personalidade olhar para trás. Sempre farei os grandes sucessos, porque acho que isso é obrigatório. Estou sempre procurando dar um passo à frente e é isso que me motiva. Sou muito ligado no que está acontecendo, procuro ouvir de tudo. Sempre acho que tem algo ali que posso aproveitar e, ao mesmo tempo como libriano, tentando equilibrar a tradição e a inovação.
Fazer turnê exige muito fisicamente. Como mantém essa longevidade no palco?
Saúde em primeiro lugar. O que eu faço é atlético. É um trabalho de atleta. O trabalho do músico ficou lá em casa, no estúdio: tive a ideia, compus, gravei, cantei. No show, são 90 minutos de futebol. É cardiovascular, é condicionamento. Então, cada vez mais eu tenho que dedicar mais tempo para estar em forma. Fonoaudiologia, fisioterapia, porque cada vez mais as viagens têm um preço na coluna. Cada vez eu bebo menos, já bebi bem mais. Nunca fui tão disciplinado quanto eu gostaria, mas vou acompanhando a necessidade. Quando não consigo malhar três dias por semana, já me fico incomodado.
Tenho muito prazer na coisa física do que eu faço. Venho de uma tradição rock and roll, de performers como James Brown, Prince, Mick Jagger, Jim Morrison. Acho que o rock pede movimento, energia, um componente sexual. E você também tem que se poupar, descansar. Então, tudo que faço na estrada, ou mesmo fora dela, 80% é dedicado ao show.
E precisa ter pique, porque você também tem filhos pequenos. Como é ser pai em várias fases da sua vida?
É maravilhoso, porque é uma via de mão dupla. A mais velha (Paola) sempre foi muito musical, toca bem, tenho até planos de um dia ela tocar comigo. Ela toca baixo muito bem, toca violão, canta bem, mas é muito tímida e o negócio dela é designer de game. Os três pequenos (Isabela, Luís Eduardo e Diana, de outro relacionamento) me dão muita informação. É através deles que fico sabendo o que está tocando, TikTok, tendências. Da mesma forma que, como pai, faço questão de educar, e eles têm que ouvir Beatles, Caetano, música clássica, música popular brasileira, Tom Jobim.
Como é para você o processo de envelhecer?
Eu estava vendo uma entrevista com o Mick Jagger e ele disse, com aquele bom humor e inteligência, que não tinha nenhum ponto positivo em envelhecer. Acho que ele está com 83.
Eu com 63 ainda estou curtindo. Tem muita coisa que chegou agora, a chamada maturidade, que é muito útil. A maneira de você administrar o tempo. Começa a entender que o tempo é finito, você não tem todo o tempo do mundo para fazer tudo o que imagina, que sonhou."
Tem que selecionar tudo na vida. Isso tem me ajudado. Sempre fui um pouco disperso, sou libriano, ascendente em aquário, aí estou conversando e já mudo de assunto. Então, você começa a priorizar, entender. Isso a idade está me trazendo.
Você teve um edema nas cordas vocais em 1999. Como isso te impactou, inclusive, na forma como começou a se cuidar partir dali?
Isso foi muito mais psicológico do que fisiológico. Eu estava com muitas dúvidas sobre o caminho que a minha carreira tinha tomado com o sucesso das baladas e essa fase que a imprensa chamou de pop romântico ou de brega, quando compus com Michael Sullivan (a canção "Dois"). E ok, eu estava me divertindo muito com essa parte conceitual de romper barreiras entre os dois Brasis: o Brasil da elite, da MPB, do pop rock e o Brasilzão das canções populares, do brega, do bolero. Porém, chegou um momento em que eu queria voltar para o rock.
Paralelamente, eu estava trabalhando muito, ensaiando para um show em que eu até dançava um pouco, estava tendo aula com Cláudio Tovar, estava lançando um disco no Brasil e um na América Latina. E senti essa questão, de certa forma, nada sutil. Perdi 40% da voz no meio dos ensaios, perto da estreia. Eu somatizei. A partir daí, coloquei a fonoaudióloga na minha vida. É o meu técnico da seleção, minha companheira de todas as horas.
A voz também é finita. Se você está em uma semana de muitos shows, você não tem tempo para ficar de 'blá blá blá' no telefone. Você tem que poupar a voz. Então, aprendi mais sobre a manutenção dela, e isso é sagrado."
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