Cine Inclusão: professora 60+ renasce como diretora e celebra nova carreira
Thais Helena Leite fez nova faculdade, se aposentou e passou a dedicar ao cinema; seu curta "Suá" integrou o Festival Cine Inclusão 60+ em Foco
Por Adriana Del Ré
26/09/2026 | 16h14 ● Atualizado | 16h15Divulgação/Luana Correa
Thais Helena Leite, professora aposentada de 64 anos, transformou sua paixão pelo cinema em profissão após se formar em Cinema, dirigindo curtas-metragens que abordam questões sociais e de memória, como 'Suá, A Praia Que Sumiu', selecionado para o Festival Cine Inclusão 60+ em Foco.
O curta-metragem retrata a perda da praia Suá em Vitória (ES) e suas consequências para a comunidade local, destacando a importância da memória e da cultura na vida dos moradores mais velhos.
Embora não tenha podido comparecer ao festival devido ao seu casamento, Thais planeja levar 'Suá' para plataformas de streaming, continuando sua trajetória no cinema e provando que nunca é tarde para novos começos na vida profissional.
São Paulo – A professora aposentada Thais Helena Leite, de 64 anos, mantém ainda vivas em suas lembranças as cenas de suas idas a sessões de cinema, ainda criança, na companhia de sua mãe. Na época, elas moravam na Cidade Leonor, bairro na periferia da zona sul de São Paulo. “Minha mãe era uma pessoa analfabeta, mas uma cinéfila”, descreve Thais.
Décadas depois, a antiga paixão pelo cinema acabou virando, por acaso, profissão após a aposentadoria. Formada em Cinema pela Universidade Federal do Espírito Santo em 2019, Thais já dirigiu três curtas-metragens documentais, todos circulando por festivais e recebendo reconhecimento.
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O mais recente, “Suá, A Praia Que Sumiu” (2025), foi selecionado para integrar a programação da Mostra 60+ em Ação, da 6ª edição do Festival Cine Inclusão 60+ em Foco. O evento chega ao fim neste domingo, 27.
A Mostra 60+ em Ação reuniu filmes realizados por cineastas profissionais ou amadores com 60 anos ou mais, com curadoria da diretora e roteirista Jacqueline Durans.
Apesar de o cinema ser um lugar mais arejado nessas questões (como o etarismo), você sempre enfrenta alguma coisa em que tem que se posicionar. E o Cine Inclusão é esse espaço em que eu poderia estar entre pessoas da minha idade.
Thais Helena Leite, cineasta
Morando no Espírito Santos desde 1989, ela lamenta não ter conseguido vir a São Paulo, porque a data do festival coincidiu justamente com a cerimônia de seu casamento. Ela e o marido viviam juntos desde 1988, mas nunca haviam oficializado a união. Dessa relação, vieram dois filhos e cinco netos.
Mesmo não estando presente pessoalmente, Thais está orgulhosa com essa nova etapa que “Suá, A Praia Que Sumiu” alcançou. Assim como seus outros curtas, essa produção lança um olhar para questões sociais, regionais e também de memória.
Suá é uma praia localizada em um bairro de pescadores, em Vitória (ES), com várias manifestações culturais ancestrais. Ela foi aterrada em nome do progresso nos anos 1970.
"O curta trata das memórias de pessoas da terceira idade, que nasceram e cresceram naquele bairro, e viram a praia ser aterrada. O efeito de você perder uma praia é uma coisa impressionante, porque se perde o lazer, o prazer, o sustento das famílias que viviam da pesca naquela região", observa a cineasta.
Depois de “Suá, A Praia Que Sumiu” percorrer festivais, Thais planeja levar a produção para o streaming.
Da docência ao cinema
A primeira formação de Thais Helena Leite foi em Ciências Sociais. Quando se mudou para o Espírito Santo, começou a dar aulas em escolas. Durante um período, lecionou no ensino médio e também em cursinho. Como professora de cursinho, Thais costumava participar de vestibulares na área de humanas todos os anos, para aprimorar as técnicas de ensino para os alunos.
No primeiro ano que a Universidade Federal do Espírito Santo incluiu o curso de Cinema e Audiovisual, ela, animada, decidiu disputar uma vaga. Ficou em segundo lugar e, aos 49 anos, decidiu frequentar curso.
No início, ela conta que não planejava seguir profissionalmente nessa área. Queria frequentar as aulas apenas por prazer, no seu tempo.
A coisa da maturidade ajuda nisso. Eu não tinha mais pressa, não dependia daquilo para estar no mercado de trabalho. Então, fazia duas disciplinas por semestre, lia todos os textos, fazia todas as atividades práticas. Foi delicioso.
Thais Helena Leite
Mas, com o passar do tempo, um novo universo se descortinou diante dela. Após enfrentar um câncer, Thais se aposentou aos 54 anos. O primeiro trabalho com cinema foi "Marés", documentário que fez para último período do curso, junto com colegas.
Por questões familiares, esse curta-metragem ficou cinco anos engavetado, mas conseguiu finalizá-lo em 2022. A produção estreou no Festival de Cinema de Vitória e percorreu outros festivais, inclusive na Inglaterra.
Realizadora audiovisual, escritora e pesquisadora, Thais criou também o podcast "Capixabinha FM1", a websérie "Raros" e o webdoc "Gabriela Leite", além de ter escrito roteiro de um longa e de uma série. Agora, ela se sente pronta para dirigir um longa ou um telefilme. A diretora é a prova de que não existe idade para novos começos na vida e na carreira.
Pra quem acha que está tarde, que tem 50 anos, 60 anos, não está! Viver é uma coisa muito maravilhosa, a gente tem que viver enquanto está vivo. Não tem outro caminho. Fazer do presente um presente.
Serviço
Festival Cine Inclusão 60+ Em Foco
- Data: até 27 de setembro - São Paulo
- Local: Espaço Petrobras de Cinema (R. Augusta, 1475, Consolação, São Paulo - SP)
- Entrada: gratuita
- Acessibilidade: os filmes contam com medidas de acessibilidade
- Legendas: em português
Programação deste domingo, 27
- Recepção: 10h
- Evento: Premiação e cerimônia de encerramento
- 10h30: Entrega de Certificados Oficina de Cinema 60+
- 11h: Premiação: Melhor Filme
- 11h: Exibição do filme "Nossos Sonhos no Cinema"
- Realização: alunos(as) da Oficina de Cinema 60+
- Local: Espaço Petrobras de Cinema (R. Augusta, 1475, Consolação, São Paulo - SP)
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