Aos 97 nos palcos, Nathália Timberg reflete: 'Bom senso é companhia de vida'
Atriz veterana volta ao teatro, seu lugar preferido no mundo, na peça 'Fôlego', em cartaz no Sesc Santo Amaro, em São Paulo
Por Adriana Del Ré
07/11/2026 | 10h25Divulgação/Fernando Ocazione
Nathália Timberg, aos 97 anos, brilha na peça 'Fôlego', em cartaz no Sesc Santo Amaro, escrita especialmente para ela.
A peça, escrita por Andréa Bassitt, incorpora elementos da vida de Nathália, apresentando a história de Rosa, uma atriz que enfrenta a especulação imobiliária que ameaça seu teatro.
Com uma carreira marcada por papéis memoráveis na TV e no teatro, Nathália continua a receber carinho do público, enquanto reflete sobre a longevidade e a sabedoria que adquiriu ao longo dos anos.
São Paulo – O universo particular de Nathália Timberg cabe no teatro. É seu espaço sagrado e pagão. É onde ela fez sua história – e fez história. Foram pelas coxias e pelos palcos que Nathália cresceu e amadureceu como mulher e atriz, e construiu seus laços afetivos. Ali repousam suas memórias mais vívidas do passado e também pulsam as de seu presente.
Sim, Nathalia vive sua plenitude aos 97 anos em cena aberta, na peça inédita “Fôlego”, em cartaz no Sesc Santo Amaro, em São Paulo.
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Procuro não pensar nesses 97 anos, para não me achar abusiva. Enquanto eu tiver condições e me aceitarem... Esse negócio de computar idade é mais para uso externo, porque a gente vai vivendo conforme a vida, a nossa experiência nos levam.
Nathália Timberg, atriz
Aliás, foi no teatro do Sesc que Nathália recebeu a reportagem do VIVA para falar sobre seu novo trabalho, e outros temas que atravessam sua vida e sua longevidade. Melhor lugar não havia para esse encontro.
O texto de "Fôlego" foi escrito por Andréa Bassitt especialmente para a atriz veterana, a partir de suas pesquisas sobre a trajetória de sua homenageada. Isso não faz da peça necessariamente biográfica, mas algumas passagens de vida e carreira de Nathália influenciaram na construção dessa narrativa ficcional.
E nada melhor do que a própria atriz revelar o que tem dela – e não – na peça.
Procuro não saber. Não pensei que tivesse, de alguma forma, servido de modelo para alguma coisa. Porque vem misturado, não adianta dizer que não. Se houve alguma coisa de Nathália que possa ter inspirado na observação, o que vem mesmo é o desenvolvimento na cabeça do autor, que traz a sua própria história.
Existe uma modéstia sincera na fala da artista. Nathália quer tirar o foco de si – metodologia que defende com unhas e dentes – e depositar as atenções em sua personagem Rosa, uma atriz que literalmente mora dentro de um teatro, que ela ajudou a fundar e que está sendo ameaçado pela especulação imobiliária.
Repleta de dívidas, Rosa é obrigada a tomar uma decisão: ou continua resistindo para manter seu antigo teatro ou cede à oferta milionária. Nesse dilema, sua sobrinha de sangue, Juliana (Carla Marins), e sua sobrinha por afeto, Laura (Rita Elmôr), estão em lados opostos. Juliana insiste na venda; Laura, que também tem uma ligação com o teatro, refuta o acordo.
Quem conhece a biografia de Nathália identifica singelas referências no texto. Entre elas, a menção de uma plateia que gritou “não” durante um espetáculo – em uma alusão à sua personagem em “Antígona”, de 1964, que bradava contra a tirania do rei Creonte, e era acompanhada em coro pela plateia, em pleno início da ditadura.
Já quem não conhece a fundo sua trajetória identifica a alma da atriz incorporada em Rosa. Há pequenas adaptações em cena para que a grande dama do teatro se sinta mais segura e acolhida, como a poltrona cuidadosamente confortável e o prompter posicionado à sua frente para auxiliá-la no texto. Detalhes importantes para a artista, mas que, para o público, se tornam quase imperceptíveis diante da sua grande atuação.
Um filme nunca visto
Poucas horas antes de entrar em cena, sentada na mesma poltrona cênica posicionada em cima do palco, Nathália Timberg rememora o começo da carreira. Mesmo após décadas, algumas lembranças parecem ainda ter cheiros, cores e até peso. Nascida em 5 de agosto de 1929, no Rio de Janeiro, a artista foi descoberta ainda menina pelo diretor Olavo de Barros, amigo de seus pais, que a dirigiu no teatro infantil.
Há uma passagem curiosa de sua infância. Aos 5 ou 6 anos de idade, ela participou do filme "O Grito da Mocidade", de Raul Roulien, o que poderia ter sido sua estreia no cinema se a película não tivesse sido perdida em um incêndio.
"Ele queimou quando estávamos no caminho para ver a família na Europa. Ele foi refeito, mas não comigo. Eu era menina, mas foi ali que eu fui inoculada."
Nathália sonhava em fazer Medicina, chegou a se formar em artes plásticas na Escola de Belas Artes, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas foi arrebatada pela atuação. Filha de europeus, a atriz estava no Teatro Universitário quando decidiu estudar em Paris, na França, com bolsa de estudos.
Mesmo jovem, a artista já tinha uma densidade dramática, que ela chama de "tessitura" (inclusive vocal), que a forçava a um amadurecimento que ela não tinha.
"Fiz 'O Pai', de Strindberg, no Teatro Universitário. Essa necessidade que eu tive de sair do País era para fugir de um amadurecimento prematuro, essa condição que eu tinha já de fazer coisas além da minha idade."
Nathália foi para o exterior para ganhar tempo, aprendizado e experiência.
Mas agora que estou em uma idade beirando o centenário, eu digo: é engraçado ter essa consciência nessa época. Percebi que eu não tinha idade para fazer certos personagens naquele momento. Foi uma boa ideia.
Na França, estudou no Education Par Les Jeux Dramatiques, com Jean-Louis Barrault, entre 1951 e 1954. De volta ao Brasil, logo de cara, fez sua estreia no teatro profissional, com a peça "Senhora dos Afogados", de Nelson Rodrigues, um marco em sua carreira.
Em 56, se mudou para São Paulo, cidade com a qual mantém forte ligação até hoje, onde ingressou no histórico Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) – cuja história, inclusive da atriz na companhia teatral, é relembrada no novo livro "Teatro Brasileiro de Comédia: Oito Décadas de História" (Edições Sesc São Paulo).
Fã pediu bênção na rua
Nathália também colecionou grandes papéis na TV, que geralmente estão ligados às memórias afetivas do público: a Constância Eugênia, de "O Dono do Mundo"; a Celina, de "Vale Tudo", a Mariana, da primeira versão de "Pantanal"; a Idalina de "Força de um Desejo", entre tantos outros.
Mas foi o folhetim "O Direito de Nascer", de 1964, que a projetou nacionalmente. A atriz interpretou uma freira que carregava o drama de ter tido o filho tirado de seus braços no nascimento. O sucesso da novela foi tamanho que Nathália brinca que quase foi canonizada no Brasil.
Teve uma vez, na rua, que uma senhora estava com uma adolescente do lado e veio pedir para eu benzer a filha. Passei um pito naquela pessoa: 'A senhora tem consciência do que é isso? Você não pode pedir a uma pessoa na rua para abençoar um filho'. Fiquei indignada com aquilo.
Os pensamentos da atriz viajam para o passado, mas também aportam no presente, com o sucesso de "Fôlego", sob direção de Ricardo Grasson, e o carinho que tem recebido das plateias. Nathália tem consciência dos efeitos da passagem do tempo para uma vida longa como a dela, mas espera que ele não venha a limitá-la.
Ainda não desvendei o segredo para chegar aos 97 anos. Não existe segredo, existe o bom senso. Acho que, para qualquer pessoa, seja homem e mulher, o bom senso é o melhor companheiro de vida.
Serviço
- "Fôlego"
- Temporada: Até 13 de dezembro; quintas, sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h; dia 13/11, sexta, às 15h; dia 4/12, sexta, às 15h (acessibilidade em Libras: dias 13/11, 28/11 e 6/12)
- Local: Sesc Santo Amaro
- Endereço: Rua Amador Bueno, 505 - Santo Amaro - São Paulo
- Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia) e R$ 21(credencial plena).
- Vendas online: pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site do Sesc
- Vendas nas bilheterias das unidades
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