CONFIRA

Mostra de Cinema de SP faz 50 anos e diretora conta suas memórias em livro

A diretora da Mostra fala do legado de Leon Cakoff, seu marido e criador do evento, e das celebrações desta 50ª edição, que começa nesta quinta, 15

Adriana Del Ré

Por Adriana Del Ré

15/10/2026 | 12h22

Divulgação/Mario Miranda Filho/Agência Foto

A diretora da Mostra de SP Renata de Almeida lança livro de memórias durante esta 50ª edição - Divulgação/Mario Miranda Filho/Agência Foto
A diretora da Mostra de SP Renata de Almeida lança livro de memórias durante esta 50ª edição
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A 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que começa em 15 de outubro, celebra o legado de Leon Cakoff, seu criador, e a continuidade do evento sob a direção de Renata de Almeida, sua esposa, que assumiu a liderança após sua morte em 2011.

Com 392 títulos de 93 países, a Mostra se destaca por sua programação diversificada e por eventos especiais, incluindo exposições e lançamentos de livros que relembram sua história e impacto cultural ao longo de cinco décadas.

Renata de Almeida enfatiza a importância da Mostra na construção de memórias afetivas para o público e planeja um futuro que permita a inclusão de novas vozes, enquanto mantém a essência e a resistência que caracterizam o evento desde sua fundação.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Quando o crítico Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, morreu em 2011 por complicações decorrentes de um melanoma (tipo agressivo de câncer de pele), os cinéfilos ficaram órfãos de um dos maiores entusiastas do cinema no Brasil. A cineasta Renata de Almeida perdeu seu parceiro de vida, pai de seus dois filhos e companheiro de trincheiras no esforço de erguer a Mostra todos os anos. 

Leon trabalhou com Renata até seus últimos dias de vida para realizar a 35ª edição do evento. O crítico partiu no dia 14 de outubro; a Mostra daquele ano começou dia 21. Pelo marido, pela própria Mostra e por si mesma, Renata deu continuidade ao legado, assumindo o posto de diretora do evento – no qual já trabalhava desde 1989. Quinze anos depois da morte de Leon, a Mostra de SP chega à sua 50ª edição, a partir desta quinta-feira, 15, celebrando sua própria história. 

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A Mostra tem o DNA que é do Leon: essa teimosia que faz existir a resiliência, e uma coragem de seguir. Isso vem desde a sua criação"
Renata de Almeida, diretora da Mostra de SP

Entre longas, curtas e séries, serão 392 títulos de 93 países exibidos até 29 de outubro em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs, além de diversos eventos e comemorações pela data.

Nesta quinta, 15, às 19h, o filme "Tigre de Papel", de James Gray (autor do pôster da Mostra deste ano), terá sua primeira sessão para o público na Sala Petrobras na Mostra, no Solar Fábio Prado – com a direito à conversa com ele e o cineasta brasileiro Walter Salles após a exibição.

A lista traz muitos outros destaques, como "Amor Possível", de Lee Chang-dong, "Fjord", de Cristian Mungiu, "Mulher Desconhecida", de May el-Toukhy, "Look Back", de Hirokazu Kore-eda, "Retorno a Buenos Aires", de Marco Bechis, "Homem ao Mar", de Gael García Bernal, entre tantos outros. A programação completa pode ser consultada no site oficial da Mostra e tambem no aplicativo do festival. 

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Leon Cakoff usa camisa preta e gravata vermelha e Renata está com vestido amarelo e colocar vermelho
Leon Cakoff, criador da Mostra, e Renata de Almeida, sua mulher, conduziram juntos o festival - Divulgação/Mário Miranda Filho/Agência Foto

As celebrações pelo meio século da Mostra incluem as exposições "Tempo e Movimento: Os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo", no Solar Fábio Prado, e "Steps – Fotografias Inéditas de Abbas Kiarostami", no MIS.

Haverá, ainda, o lançamento dos livros "Antes que eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo", com de Renata de Almeida, e "50 Anos, 50 Cartazes: A História dos Cartazes da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo". 

Esta 50ª edição marca também o lançamento de uma nova plataforma, Acervo, que reúne 50 anos de história da Mostra e informações sobre mais de 12 mil filmes.

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Aos 60 anos, a paulistana Renata de Almeida fala ao VIVA sobre as memórias afetivas e um dos mais importantes festivais dedicados ao cinema autoral e independente no Brasil e no mundo:

VIVA Entrevista

Quais são as dores e as delícias de estar à frente de uma mostra que está completando meio século?

Acho que é um retrospecto. Essas datas redondas também fazem a gente pensar na vida, fazer um balanço, revisitar a história da Mostra e a minha história. Estou à frente da Mostra há 37 anos. E gente passou por tantas coisas. Ela já começou em um tempo conturbado. O Leon a criou em 1977, durante a ditadura, onde a informação chegava muito pouco. A gente teve que se adaptar a várias coisas. Então, tem a delícia que é você chegar hoje aos 50 anos de um evento e ver que tem um público novo também. Ter gente que a ache relevante, porque isso é o essencial.

Essa celebração inclui seu livro de memórias?

Demorei muito tempo para pensar como fazer esse livro. O Leon escreveu um livro quando a Mostra fez 30 anos (cujo PDF será publicado no site), em que ele fala do começo do evento, que é interessantíssimo. Meu livro começa na 13ª Mostra, que foi quando entrei, e vai até a 50ª. Demorei quase um ano pensando e escrevi o livro em sete meses. Pensei na fórmula e cheguei à conclusão que só teria sentido escrever um livro que só eu pudesse escrever, que fosse pessoal, que fosse de bastidor, de coisas que deram errado, que geralmente são engraçadas e que a gente tem que consertar. Quando chegou o livro em casa, fiquei muito feliz. É uma sensação de balanço da Mostra, mas é um balanço de vida também.

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Conte uma história que deu errado, mas que depois você consertou e deu certo?

Renata de Almeida está usando um vestido preto e sorrindo, ao lado de Francis Ford Coppola segurando um prêmio
Renata de Almeida com o diretor Francis Ford Coppola, no encerramento da 48ª Mostra, em outubro de 2024 - Divulgação/Mario Miranda Filho/Agência Foto

No livro, tem várias. Lembro muito da 19ª Mostra (em 1995), quando ela deu um salto enorme. A gente abriu a Mostra no Vão Livre do MASP. Ninguém usava aquele espaço para nada, era só feirinha de antiguidade. A gente falou: "Vamos fazer uma sala de cinema aqui".

Veio o (diretor Pedro) Almodóvar. O filme era dele ("A Flor do Meu Segredo"). E vieram também (as atrizes) Marisa Paredes, Rossy de Palma, mais o produtor. O Leon encasquetou de passar um curta antes do filme do Almodóvar e era 35 milímetros. Para a gente conseguir exibir, o projecionista colocou o curta e o longa em um carretel enorme. Era a primeira abertura que a gente fazia assim, ali lotado. Começou o curta e ele estava de ponta-cabeça. A gente saiu desesperado, falando: “Para o curta, começa o longa”. Não dava, porque o curta estava grudado com longa. Aí teve que ir assim, passando o curta de ponta-cabeça até chegar no longa. Ainda bem que o longa não estava de ponta-cabeça. Mas a gente falou: o Almodóvar vai odiar a gente. Mas quando eles viram a reação do público, ficaram felizes. No dia seguinte, ele foi super bacana, fez um encontro com o público, viu todo o calor das pessoas que levavam presentes para ele. Depois, ele fez ainda um pôster da 38ª Mostra (em 2014). Então, o livro tem um pouco essa toada das coisas que dão errado na vida, e a gente se adapta, conserta, se desculpa e fala: "Vou fazer melhor".  

Como é saber que a Mostra também cria memória afetiva no público?

Isso é uma das delícias sobre as quais você perguntou no começo. Ela faz parte da cidade, da vida das pessoas. Por isso que a gente fez tanta questão de ter o livro dos pôsteres, porque acho que essas imagens funcionam meio como “a madalena de Proust”: você olha e lembra o que aconteceu na sua vida naquele ano. Essa conexão com o público existe desde o começo. Quando o Leon criou a Mostra, o público era o júri, em um ano em que a gente não podia votar. Saíram até matérias de que o único lugar onde se podia votar no Brasil era na Mostra. Tenho altas brigas, às vezes, com diretores e produtores de filme brasileiro, porque querem fazer pré-estreia com muitos convidados. Eu falo: "Não, o principal da Mostra é o público, porque ninguém faz só filmes para os amigos, é para o público”.

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Pensando no público 50+, 60+, qual é a porcentagem dessa faixa etária hoje dentro da Mostra?

É muito significativo. Quando a gente é estudante, a gente tem muito tempo. Se você não está trabalhando, pode até dar um jeitinho e faltar em uma aula às vezes. E tem uma fase da vida que falam que é a curva: os filhos são pequenos e a gente tem uma demanda muito grande, se importa muito com tudo.

E, na fase 50+, a gente trabalha, faz muita coisa ainda, mas é um pouco mais dona do nosso tempo. Acho que esse público volta a frequentar a Mostra com mais força, em mais sessões, porque domina o próprio tempo."

Então, ele é muito grande. Há 15 anos, fizemos uma pesquisa e 10% das pessoas estavam indo à Mostra pela primeira vez. A gente tem esse público fiel. 

Em 2011, Leon morreu um pouco antes de a Mostra daquele ano acontecer. Como foi conduzir aquela edição sem ele?

O Leon teve melanoma, oito anos antes da morte dele. A gente já tinha dois filhos, muito pequenos, o Jonas, com quase 4 anos, e o Tiago, com quase 1. Depois de seis anos, voltou com muita força, com metástase para o cérebro. Foi muito difícil esse período. Ao mesmo tempo, fazer a Mostra me ajudava.

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Quando a gente vive essas situações, os problemas materiais ou que são resolvíveis te ajudam, já que não pode resolver algo maior.
O ator Patrick Bauchau, Renata, Abbas Kiarostami e Leon Cakoff estão sentados lado a lado em uma mureta na avenida Paulista
O ator Patrick Bauchau, Renata, o diretor Abbas Kiarostami e Leon Cakoff, na Av. Paulista, durante a 17ª Mostra - Divulgação/Acervo da Mostra de SP

No final da vida, a gente tem uma coisa de voltar às raízes. Ele foi para a Armênia, fechou  a exposição "Paradjanov, o Magnífico" no MASP. Não me lembro que confusão deu, mas me ligaram avisando que não era mais possível a exposição acontecer lá. Eu estava no hospital com ele e falei: "Não posso deixar não acontecer". É como se fosse a última vontade do Leon. Fui correndo no MIS. O único lugar que tinha disponível ali era no restaurante do museu. O diretor era o André Sturm e ele topou.

O velório do Leon foi do lado, ele morreu poucos dias antes (da abertura). Hoje penso que isso me ajudou a enfrentar o velório. 

Acho que o momento mais difícil da minha vida foi esse, porque todo mundo que tem filho sabe: a dor do filho é muito pior para a gente do que a nossa própria dor."

Depois, renomeamos o Prêmio Humanidade com o nome do Leon. Todo ano tem o Prêmio Leon Cakoff. Então, ele resiste, todo ano ele é lembrado com o nome do prêmio.

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Serviço

Ingressos da Mostra de SP

  • Permanente Integral (todos os dias, qualquer horário e sessões especiais): R$ 640
  • Permanente Especial (para sessões de 2a a 6a feira até às 17h55, inclusive - não
    contempla finais de semana nem sessões noturnas): R$ 160
  • Pacote de 40 ingressos: R$ 440
  • Pacote de 20 ingressos: R$ 270

Avulsos:

  • A compra de ingresso ocorre pelo site, 4 dias antes de cada sessão.
  • É possível comprar ingresso no dia da sessão pelo aplicativo, desde que disponível.
  • No dia da sessão, uma pequena cota fica disponível para compra diretamente na
    bilheteria do cinema.
  • O cancelamento do ingresso pode ser feito até 4 horas antes do horário da sessão.
  • Segundas, terças, quartas e quintas: R$ 26 (inteira) | R$ 13 (meia); sextas, sábados e domingos: R$ 32 (inteira) | R$ 16 (meia)

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