'Novela não sai de moda', diz Aguinaldo Silva, que prepara nova trama das 21h
Em entrevista exclusiva ao VIVA, autor falou sobre peça que estreou em SP, minissérie sobre Nazaré Tedesco e projeto que escreve para o horário nobre
Manoella Mello/Globo
Aguinaldo Silva, renomado dramaturgo brasileiro, está desenvolvendo uma nova novela para a TV Globo, que pode substituir 'Avenida Brasil 2', prevista para estrear em janeiro de 2027. O autor, que continua ativo aos 83 anos, destaca sua rotina de trabalho e a importância de sua experiência na construção de narrativas.
Natural de Pernambuco, Aguinaldo começou sua carreira como jornalista e se destacou na teledramaturgia com obras icônicas, como 'Roque Santeiro' e 'Tieta'. Ele também estreou recentemente a peça 'Almoço com a Estrela', que reflete sobre a resistência durante a ditadura militar nos anos 80.
Silva expressou interesse em revisitar a vilã Nazaré Tedesco em um novo projeto, intitulado 'A Menina Má', e afirmou que a novela nunca sairá de moda, apesar das mudanças na audiência e na forma de consumo. Ele acredita que a teledramaturgia está se adaptando e que novos autores estão surgindo para dominar o horário nobre.
São Paulo - Aos 83 anos, Aguinaldo Silva dispensa apresentações. Dramaturgo, escritor e jornalista, foi autor de novelas como “Senhora do Destino”, “Tieta”, “Império” e, mais recentemente, “Três Graças”. Hoje, ele prepara um novo trabalho para a TV Globo, que pode substituir “Avenida Brasil 2”, continuação que estreia em janeiro de 2027.
Em entrevista exclusiva ao VIVA, o autor destacou que continua escrevendo todos os dias e se considera um “trabalhador compulsivo”, tendo começado a trabalhar aos 14 anos, quando ainda morava em Recife.
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Nordestino, nascido em Carpina, interior de Pernambuco, na adolescência já escrevia. Foi nessa época que nasceu o romance "Redenção para Job". Depois do golpe militar de 1964, Aguinaldo foi morar no Rio de Janeiro. Lá, trabalhou no jornal O Globo como repórter policial. Sua experiência na cobertura o levou a ser um dos autores do seriado "Plantão de Polícia".
De lá, sua carreira deslanchou, com obras como Malu Mulher (1979), Tenda dos Milagres (1985) e Roque Santeiro (1985), que volta ao “Vale a Pena Ver de Novo” na próxima segunda-feira, 5 de outubro.
Acho ótimo que volte, porque hoje em dia você tem meios para pegar o que foi gravado e dar um brilho, transformar aquilo em algo devidamente trabalhado tecnicamente para parecer uma coisa mais atual. Estou muito curioso para ver.
Aguinaldo Silva, autor de novelas
O escritor estreou recentemente a comédia teatral “Almoço com a Estrela”, em São Paulo, dirigida por Maciel Silva. A obra provocadora se passa na Lapa carioca do início dos anos 1980, em plena ditadura militar, relembrando suas vivências.
VIVA Entrevista
Ao VIVA, Aguinaldo Silva, autor consagrado e um ícone da teledramaturgia brasileira, fala sobre maturidade, carreira e novos trabalhos profissionais. Veja os principais trechos:
A peça “Almoço Com a Estrela” estreou recentemente e é ambientada nos anos 80. O que esse período ainda tem a dizer ao público de hoje?
Esse período tem muito a dizer, porque foi um período em que as pessoas começavam a sair de uma [situação de repressão]. Ainda estávamos em luta contra a repressão violenta, não só de costumes, mas política, porque nós vivemos numa ditadura terrível. Eu trabalhava como jornalista e sobrevivi a essa época, convivendo com esse ambiente meio underground, meio subterrâneo da noite carioca. Na Lapa, principalmente.
Eu acho que a gente tem que aprender muito com os anos 80, a resistir aos tempos difíceis e sobreviver como seres humanos, como criaturas. Ou seja, não perder a identidade, por mais que os tempos sejam árduos e difíceis. Eu acho que essa é uma boa lição.
Quando você estava escrevendo esse roteiro, o que você fez para a peça que não poderia ter feito na TV?
Absoluta liberdade de linguagem e absoluto desdém pelas convenções. Quer dizer, é claro que a peça foi sobre uma época em que não havia limitações de fala ou coisas assim. As pessoas entre si falavam exatamente como se fala na peça, e eu pensei que deveria dar essa explicação ao público e deixar bem claro: “Olha, isso aconteceu em outra época.”
Naquela época era assim, né? Hoje em dia não é mais. Eu fui fiel à origem da peça, que era a minha vivência nos anos 80, naquele ambiente da Lapa, com aquelas pessoas, aquelas criaturas todas maravilhosas com as quais eu tive a honra de conviver.
Como é continuar trabalhando e produzindo mesmo depois dos 80 anos?
Eu sou um trabalhador compulsivo. Minha carteira de trabalho, que tenho até hoje, mostra que eu a tirei aos 14 anos. Eu dei muita sorte na vida, porque fui trabalhar numa agência de navegação que ficava na zona do Cais do Recife, onde havia aquela turbulência noturna. Mal entrei ali, não saí mais, não quis mais sair.
Então comecei a ter uma experiência de vida muito forte, muito cedo. Isso não me fez mal nenhum, pelo contrário, me fez bem, me deu sabedoria para saber como proceder, como escapar de algumas armadilhas, tudo isso.
Continuo escrevendo todos os dias. Eu acordo, tomo meu café da manhã, tomo meu banho, faço a barba e vou direto para o computador. Tenho que escrever alguma coisa. Se não estiver escrevendo, fico inquieto e pretendo continuar assim até morrer.
Você revelou à imprensa o desejo de revisitar a vilã Nazaré Tedesco em um novo projeto. Afinal, vai rolar?
É possível que sim. O que eu quero fazer é a Nazaré jovem, mostrar como ela se tornou aquele monstro que é a Nazaré, com falta de decência. Eu queria mostrar como uma menina, uma adolescente, se transformou naquela mulher.
Até hoje ela continua viva. Então, o título da história, que já está registrado, é “A Menina Má”. É a história da Nazaré Tedesco dos 15 aos 19 anos. É uma minissérie, na verdade. Mas isso provavelmente eu só vou escrever depois de uma próxima novela, porque eu já tenho contrato para escrever outra.
Você já disse ser contra a realização de novas versões de tramas clássicas, como “Vale Tudo”, por exemplo. Essa opinião sobre remakes continua de pé?
Sim. Porque, veja bem, a novela é um trabalho de equipe. Ela tem um autor, tem um diretor, mas é uma equipe enorme que se junta numa determinada ocasião e aquilo ou dá certo ou não dá. E, quando dá certo, você tem que respeitar isso e deixar para lá. Acabou a novela? Quer ver a novela de novo? Tudo bem. Bota no “Vale a Pena Ver de Novo”, faz uma reprise. Agora, refazer a novela não será a mesma.
Novela pode não dar certo. Às vezes, dá tudo errado. Já aconteceu isso algumas vezes. A novela é fantástica no momento em que ela é feita e é exibida. A partir dali, devia ficar nos arquivos e, eventualmente, ser reprisado. Ou não.
Refazer a novela ou fazer uma nova versão da novela, eu acho muito perigoso. Acho que nenhuma deu certo até agora. Eu não faria assim. Não aceitaria reescrever nenhuma novela minha e muito menos a novela dos outros.
E agora, com a continuação de “Avenida Brasil”, o que você acha dessa estratégia
Olha, eu acho que [nesse caso] sim, porque, quando a novela acaba, ela não acaba. Ela simplesmente chega a um dia em que tudo se resolve. Mas e daí? E, daqui a dois meses, como é que estão aquelas pessoas?
Por exemplo, a Nazaré não morreu. Quando ela cai da ponte, você não vê depois o corpo da Nazaré. Nada disso. Ninguém sabe se ela morreu ou não. E eu acho que, quando você faz uma continuação da novela, aí é outra coisa. Você pega aqueles personagens dez anos depois. Se não me engano, “Avenida Brasil” vai ser dez anos depois, com a Carminha saindo da cadeia.
Eu acho isso interessante de fazer. Por exemplo, eu faria uma, mas é só uma suposição, porque envolve direitos autorais e tudo isso. Mas eu faria uma continuação de "Tieta". Sem dúvida.
Você foi escolhido pela Globo para escrever a novela que vai substituir “Avenida Brasil 2”. O que o público pode esperar desse trabalho?
Olha, eu estou pensando seriamente em voltar para minha cidadezinha, porque eu sempre me dividi entre fazer novelas urbanas ou novelas chamadas rurais, mas que não são rurais, são sertanejas. E outra coisa: novelas que se passam em pequenas cidades do interior. Porque uma das boas coisas disso é que você resume tudo ali, naquele ambiente menor.
Ninguém pega ônibus para ir trabalhar porque vai a pé mesmo, né? Então, eu gosto disso. O ambiente é pequeno. Ela vai se passar numa cidadezinha, não uma cidadezinha como a de “Tieta”, por exemplo. É uma cidade um pouco maior. Digamos que é uma cidade do interior de São Paulo. Uma cidadezinha, mas com uma certa infraestrutura legal.
O final de “Três Graças” gerou muitas especulações sobre uma possível continuação por conta do desfecho enigmático. Você concorda?
Eu te confesso que não pensei nisso, ainda estou preocupado com a próxima. Acho que a Arminda é uma personagem fantástica, mas porque foi a Grazi [Massafera] que fez. Eu sempre acho que a novela depende não só do texto, mas da direção e dos atores. A Grazi fez uma vilã inesquecível. Então, não pensei em fazer uma continuação.
Você é um autor conhecido pelo horário nobre. Já pensou em produzir novelas para os horários das 18h ou das 19h?
Não. Uma vez me chamaram para escrever uma novela das sete. Aí eu falei assim: “Eu não sei fazer, porque eu gosto de ver as nove, né?”. Quando eu comecei, era às oito. Agora, às 21h20, em que eu gosto de questionar, tem mais liberdade. Você pode brincar à vontade, sem problemas. Nos outros horários, já tem uma certa restrição por causa do público de menor idade.
O que você acha da tendência das novelas verticais? Veio para ficar?
É muito difícil para quem escreve 180 capítulos de 30, 40 minutos fazer isso. Eu sou curioso e resolvi experimentar [fazer uma novela vertical] e confesso que não soube. É uma linguagem muito rápida. É gancho, gancho o tempo inteiro. São três minutos e acabou.
O capítulo é difícil de fazer, eu diria, porque eu sou treinado para estender o mais possível a história. É o contrário. Então, seria difícil para mim. Além disso, tem também o problema dos salários, que não são os mesmos de uma novela de 180 capítulos, então já começa a ficar meio complicado.
Com as redes sociais e os famosos “críticos de internet”, o que mudou na forma de escrever e construir personagens?
Não influencia porque você tem um tempo na novela que não pode apressar. Se você tem 180 capítulos, não pode matar a vilã no capítulo 50, porque aí acabou a novela. As pessoas dizem: “Essa mulher, não aguento mais essa mulher.” Mas não é bem assim. Elas aguentam, sim. Ficam impacientes porque ela sempre se dá bem.
A vilã, eu digo. Mas elas sabem que vai chegar o momento em que ela vai se dar mal. E o momento é o final da novela. E toda essa impaciência tem que ser controlada com a nossa própria paciência, né? Quando chegar a hora, eu mato. Agora não.
Com o sucesso do streaming e das redes sociais, muita gente deixou de assistir às novelas na TV. Há críticos que apontam uma crise de audiência e criatividade. Você acha que a teledramaturgia está em crise?
Eu acho que não. Não está em crise. Havia um grupo de autores muito experientes que, infelizmente, teve que parar de escrever. Acho que sou o último deles que ainda está escrevendo.
Esse grupo de autores que dominava o horário nobre meio que se desfez, por causa da idade e de tudo isso. E eu acho que há alguns autores que estão se formando para dominar esse horário. Daqui a uns anos, isso vai acontecer, porque a novela é folhetim e melodrama, é vida.
A novela nunca vai sair de moda. Pode estar certo disso. Ela pode ser contada de outra maneira, com outros meios."
A gente tem que lembrar que o primeiro folhetim era impresso. As pessoas iam, faziam fila no cais de Nova York para pegar os capítulos dos folhetins seriados e, depois, eles passaram para o rádio. As novelas eram no rádio. Eu ouvi “O Direito de Nascer” quando era criança, no rádio, junto com meu pai e minha mãe.
Depois, elas vieram para a televisão e dominaram a televisão. Se surgir um novo veículo, fatalmente haverá novelas. Haverá melodrama. Porque, repito, melodrama é vida. Melodrama é a grande ficção.
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