Tom Zé completa 90 anos com homenagens e legado histórico na MPB
Inventivo e tropicalista, o cantor e compositor celebra seu aniversário com shows e uma biografia, destacando sua influência na música brasileira
Por Adriana Del Ré
11/10/2026 | 09h46Reprodução/Redes Sociais/Tom Zé
Tom Zé, ícone da música popular brasileira, celebra 90 anos com uma série de eventos, incluindo shows e o lançamento de sua biografia, destacando sua influência na Tropicália e sua conexão com São Paulo.
Reconhecido por sua originalidade, Tom Zé atribui sua formação artística às experiências de sua infância na Bahia e à convivência com diferentes linguagens, que moldaram sua estética musical única.
Com uma carreira revitalizada após a redescoberta por David Byrne, Tom Zé continua ativo, realizando apresentações e projetos inovadores, reafirmando sua relevância cultural e artística na cena contemporânea.
São Paulo - Garoto de Irará, no interior da Bahia, mas de coração paulistano, Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé, completa 90 anos neste domingo, 11, cercado de celebrações. Depois de fazer um show histórico e com ingressos esgotados no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no último dia 9, o cantor, compositor e músico voltará àquele palco no dia 13 de novembro, para uma apresentação extra.
A programação comemorativa segue intensa: ainda neste domingo, 11, às 11h, ele concede entrevista ao programa "Letra & Música", comandado pelo professor Pasquale Cipro Neto, na Rádio Cultura Brasil. Em São Paulo, na quarta-feira, 14, participa do lançamento da biografia "Tom Zé: Um Vira-lata na Via Láctea" (Alameda), escrita pelo pesquisador norte-americano Christopher Dunn, e, na sexta, 16, sobe ao palco do Sesc Pompeia para um show especial.
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A trajetória do artista também ganha dimensão visual e imersiva na mostra "Tom Zé – 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons", em cartaz na Caixa Cultural São Paulo com entrada gratuita. A exposição percorre diferentes fases de sua vida e obra, reunindo acervo de memórias, criações sonoras e instalações que ajudam a decifrar a estética inventiva e a irreverência que marcam sua produção.
Reconhecido como um dos nomes mais originais da música popular brasileira e peça fundamental da Tropicália, Tom Zé costuma creditar a gênese de sua linguagem artística às vivências da infância no sertão baiano, um período que costuma classificar como sua primeira universidade linguística.
Trabalhando no comércio do pai em Irará, o jovem músico dedicou-se a aprender os trejeitos e a oralidade do povo da roça que frequentava o local. Anos depois, ao passar temporadas na casa do avô e conviver com os tios universitários, assimilou o vocabulário acadêmico. A mudança para Salvador para estudar música formalmente trouxe o domínio da linguagem erudita, consolidando o repertório de quem já dominava diferentes registros de fala.
A ligação com sua terra natal é tão profunda que inspirou a criação do tradicional bloco carnavalesco Abacaxi de Irará, fundado em São Paulo como uma homenagem afetuosa às suas origens e ao seu espírito tropicalista. O nome do bloco foi inspirado na canção que é faixa de seu disco "Tom Zé", de 1972.
A vinda para São Paulo
O quarto "idioma" dessa formação plural foi aprendido a partir de 1968, quando Tom Zé se mudou para São Paulo a convite de Caetano Veloso. Na capital paulista, os dois integraram o núcleo central do movimento tropicalista — um divisor de águas na cultura brasileira, ao lado de nomes como Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Rogério Duprat, Torquato Neto e Hélio Oiticica.
Foi também nesse cenário que conheceu Rita Lee, com quem assinou a parceria na clássica canção "2001", defendida pelos Mutantes com a participação de Gilberto Gil no 4º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1968.
Apesar de ter sido aprovado em primeiro lugar no vestibular da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e de ter sido um dos alunos mais brilhantes do maestro Hans-Joachim Koellreutter, foi em São Paulo que o artista construiu e consolidou sua estética definitiva. Foi também onde conheceu sua parceira de vida, Neusa Martins, com quem está junto desde o início dos anos 1970.
Aliás, sua forte ligação com a cidade, onde vive até hoje, inspirou o livro “São, São Paulo Meu Amor – Tom Zé, Cidadão Paulistano”, lançado em maio deste ano e que compila textos de artistas e intelectuais que discursaram na cerimônia de entrega do título de Cidadão Paulistano a ele.
A redescoberta de sua obra
Atuando como cronista urbano, ele traduziu a "dura poesia concreta" das ruas paulistanas em clássicos como "São, São Paulo, Meu Amor" (vencedora do Festival da Record em 1968), "A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel" e "Augusta, Angélica e Consolação".
Após quase desistir da carreira nos 1980, quando lhe faltava público, propostas de gravadoras e também dinheiro, sua obra foi "redescoberta" graças a David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads.
Byrne encontrou o LP "Estudando o Samba" (1976) em uma loja de discos no Rio de Janeiro. Impressionado com a sofisticação rítmica e inventividade do álbum, o músico lançou o trabalho nos Estados Unidos pelo seu selo, Luaka Bop, na coletânea "Brazil Classics, Vol. 4: The Best of Tom Zé" (1990).
O lançamento teve grande repercussão na imprensa internacional, rendendo elogios de veículos como "The New York Times", o que ecoou também no Brasil.
Essa projeção inaugurou uma das fases mais férteis de sua carreira. Nas décadas seguintes, Tom Zé lançou obras conceituais aclamadas, como "Com Defeito de Fabricação" (1998), "Jogos de Armar" (2000) e "Estudando a Bossa" (2008), reafirmando sua vocação para a pesquisa sonora e o uso experimental de instrumentos não convencionais, como encanamentos de PVC e furadeiras.
Ao longo das últimas décadas, o artista manteve uma rotina intensa de shows e projetos, aproximando-se das novas gerações e conquistando também reconhecimento como um patrimônio vivo. Ao chegar aos 90 anos, em plena atividade nos palcos, o "Inquieto Jardineiro de Sons" prova que sua busca pela reinvenção musical permanece tão viva quanto na época em que era apenas um garoto em Irará.
Serviço
- Exposição "Tom Zé – 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons"
- Temporada: Até 13 de dezembro; de terça-feira a domingo, das 9h às 18h; sábados, às 15h (com visita com intérprete de Libras)
- Local: Caixa Cultural São Paulo
- Endereço: Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo, tel. (11) 3321-4400
- Entrada: gratuita
- Lançamento do livro "Tom Zé: Um Vira-lata na Via Láctea"
- Data: Quarta-feira, 14, a partir das 18h30
- Local: Livraria das Perdizes
- Endereço: Rua Bartira, 317, Perdizes, São Paulo
- Show "Tom Zé, 90 anos"
- Data: Sexta-feira, 16, às 20h
- Local: Sesc Pompeia
- Endereço: Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo
- Ingressos: R$ 21 a R$ 70
- Vendas: site do Sesc
- Show "Tom Zé, 90 anos no Circo Voador"
- Data: 13 de novembro, às 20h
- Local: Circo Voador
- Endereço: Rua dos Arcos, s/nº, Lapa, Rio de Janeiro
- Ingressos: Venda geral - R$ 90 (meia-entrada ou ingresso solidário) e R$ 180 (inteira)
- Vendas: site da Eventim
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