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Mulheres conquistam liderança e empreendem, mas ainda enfrentam preconceito

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Mesmo em cargos de comando, mulheres ainda precisam provar o quanto são competentes
Por Alessandra Taraborelli

07/03/2026 | 07h58

São Paulo, 07/03/2026 - O Brasil tem mais mulheres em cargos de liderança do que a média global, segundo o estudo Women in Business 2025: Impacting the Missed Generation, que mostra que a média mundial é de 34% e, no Brasil, esse porcentual sobe para 36,7% de mulheres no comando.

A remuneração, no entanto, segue menor do que a dos seus pares homens. Segundo um boletim do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de 2025, diretoras e gerentes recebem, em média, R$ 6.798 por mês, abaixo dos R$ 10.126 que os homens ganham. No ano, essa diferença significa cerca de R$ 40 mil a menos para as mulheres.

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Embora haja conquistas a serem comemoradas, também há muito ainda a ser conquistado. O fato é que mesmo chegando em cargos de comando as mulheres ainda precisam enfrentar preconceitos e provar, mais do que os homens, o quanto são competentes. 

O que elas contam

De acordo com Vania Akabane, 51, diretora de Recursos Humanos e Comunicação da Ardagh Metal Packaging (AMP), estar na liderança é exercitar a empatia e tentar se colocar no lugar do outro, entendendo diferentes perspectivas.

Além disse, ela pondera que, como mulher, o principal desafio sempre foi a necessidade de provar, repetidas vezes, sua competência e capacidade — algo que, infelizmente, ainda faz parte da realidade de muitas líderes.

Ela lembra que sofreu preconceito em diferentes momentos, por ser mulher, seja por aparentar ser mais jovem do que realmente era ou por não ter o inglês como língua materna quando esteve expatriada na Austrália.

Sempre acreditei que, muitas vezes, o preconceito nasce da falta de conhecimento. Quando as pessoas passam a te conhecer de verdade, entendem seu valor, reconhecem sua contribuição e deixam os preconceitos de lado.”

A CRO (Chief Revenue Officer) Brasil da Factorial, Antonia Tourinho, 34 anos, também enfrentou episódios de preconceito dentro de empresas onde trabalhou.

“Sim, já aconteceu, principalmente em ambientes muito masculinos. Preconceitos e estereótipos muitas vezes aparecem antes mesmo de você ter a oportunidade de mostrar quem é. Com o tempo aprendi que tentar negar imediatamente esses estereótipos nem sempre é a estratégia mais eficaz", relata.

É preciso entender o ambiente, posicionar sua voz com clareza e, a partir daí, ir desmontando essas percepções na prática.”

Antonia conta ainda que, nos 11 anos na liderança de pessoas, também enfrentou o desafio de gênero. Um deles, segundo ela, foi em um ambiente de trabalho extremamente masculino: cerca de 60 pessoas trabalhando com informações sensíveis, e ela era uma das duas únicas mulheres no grupo.

No início, confesso que me senti um pouco deslocada. Mas rapidamente percebi que, em vez de tentar resistir ao ambiente, eu precisava entendê-lo. Observei os centros de influência, adaptei minha forma de comunicação e encontrei meu espaço.”

Ela revela ainda, que depois, trabalhando em projetos em regiões mais remotas do Brasil, estereótipos apareciam antes mesmo dela chegar ao local, por ser mulher, jovem ou até pelo seu sotaque carioca.

Empreender também é desafio

O avanço do empreendedorismo feminino tem se consolidado como um dos motores importante na transformação econômica no Brasil. Segundo o Sebrae, em 2025 mais de 10 milhões de empreendedores eram mulheres, uma expansão de 33% nos últimos 10 anos.

Em setores intensivos em serviço e relacionamento, como beleza, bem-estar e cuidados pessoais, as mulheres lideram milhares de negócios que movimentam economias locais, geram empregos e sustentam um crescimento mais distribuído e consistente.

Em recente artigo sobre empreendedorismo, assinado pela coordenadora de marketing da Gendo, Nathalia Haubert, e pela biomédica e referência em Melasma Integrativo no Brasil, Luana Rodrigues, elas ressaltam que, apesar do impacto positivo, existem desafios estruturais que limitam o avanço das empreendedoras.

Muitas mulheres lideram negócios sólidos, com agenda cheia e base fiel de clientes, mas enfrentam dificuldades para acessar crédito, investir em tecnologia e profissionalizar a gestão no ritmo desejado.

A sobrecarga também é um fator relevante. Além da liderança do negócio, grande parte das mulheres acumula responsabilidades pessoais e familiares, o que reduz o tempo disponível para planejamento e decisões estratégicas. É claro que isso não compromete a capacidade empreendedora, mas pode desacelerar o crescimento.

Elas ressaltam, ainda, que outro desafio recorrente está na construção de credibilidade e no acesso a oportunidades. Em muitos contextos, mulheres ainda precisam comprovar resultados de forma constante para conquistar reconhecimento e espaço no mercado.

Esse processo exige consistência, posicionamento claro e capacidade de sustentar entregas de qualidade ao longo do tempo, especialmente em ambientes competitivos e historicamente desiguais.

O fortalecimento do empreendedorismo feminino passa pela criação de condições mais equilibradas de desenvolvimento, capazes de transformar bons negócios em operações mais estruturadas e sustentáveis.

A tecnologia e a inteligência artificial, por exemplo, ajudam a organizar a rotina, ganhar eficiência e tomar decisões com mais segurança. O crédito viabiliza investimentos em estrutura, equipe e inovação. Já a capacitação amplia a autonomia e a visão estratégica, permitindo escolhas mais informadas.

Quando esses recursos estão acessíveis e conectados à realidade dos negócios, deixam de ser barreiras e passam a funcionar como alavancas de crescimento. 

Equilíbrio

A empreendedora Morana Moon Cho, que dá nome a marca de acessórios Morana, relata que enfrentou desafios comuns a muitas mulheres que empreendem. Ela destaca a necessidade constante de provar competência, a sobrecarga de funções, o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e a pressão silenciosa para dar conta de tudo.

O mercado ainda cobra mais das mulheres... Mais preparo, mais entrega, mais resistência. E, mesmo assim, seguimos.”

De acordo com Morana, empreender sendo mulher é ocupar espaços que nem sempre foram pensados para nós. Além disso, ela ressalta que empreender não exige começar com grandes investimentos ou estruturas complexas. Exige visão, trabalho constante e coragem para sustentar o processo.

Ela ressalta, ainda, que precisou aprender a desacelerar, porque empreender não é apenas expandir negócios, mas saber reconhecer ciclos. Esse aprendizado veio com a maternidade, que ensinou uma nova forma de empreender, baseada em presença, vínculo e escolhas conscientes. "Aprendi que sucesso não é apenas crescimento acelerado, mas coerência com o momento de vida."

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