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Sair do endividamento vai além do Desenrola e pede mudança de hábitos

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Combate ao endividamento passa por políticas públicas mais efetivas e ações de educação financeira - Adobe Stock
Combate ao endividamento passa por políticas públicas mais efetivas e ações de educação financeira
Por Fabiana Holtz

24/06/2026 | 11h14

São Paulo - A nova versão do Desenrola, programa lançado pelo governo para renegociar dívidas de pessoas inadimplentes, tem possibilitado um novo começo para muitos. Mas será que a efetividade do programa é duradoura? Especialistas em finanças apoiam a iniciativa, mas alertam que sair do endividamento exige também uma mudança de hábitos de consumo dos brasileiros para que haja uma redução real dos níveis de endividamento do País. 

Deixar o consumo de impulso para trás, detectar onde estão os possíveis desperdícios e definir prioridades no seu orçamento fazem parte da 'virada de chave' necessária para isso, afirmam os educadores financeiros.

Ter o controle de quanto entra e o quanto sai da sua conta mensalmente é essencial para que o fantasma do endividamento não volte a te assombrar. A mudança começa, defendem os especialistas em finanças pessoais, com consciência sobre os seus gastos e planejamento.

Renegociação

Com foco no público com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105,00), o programa permite a renegociação de dívidas com desconto de até 90%, taxa máxima de juros de 1,99% ao mês e possibilita o uso de parte do saldo do FGTS para quitar os débitos. Mas o alívio proporcionado é temporário, na visão de economistas ouvidos pelo VIVA

Para o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM, o programa pode representar um respiro para os endividados, mas a base estrutural do problema não está sendo atacada.

O Desenrola atende a necessidade imediata de incluir uma parte da população novamente no consumo. Porém, é claro que são necessárias políticas públicas de maior escopo e maior amplitude para resolver essa questão.

O economista ressalta que hoje temos mais de 80 milhões de pessoas com nome negativado e essa dívida está concentrada no curtíssimo prazo, com maior impacto nas famílias de baixa renda. Segundo ele, a solução para esse cenário passa por ações mais amplas não só do governo, mas das próprias instituições financeiras e das escolas de negócios no sentido de educar a população.

O índice de educação financeira no Brasil ainda é muito baixo. Mesmo nas classes A,B e C, o tema vem sendo tratado apenas mais recentemente nas escolas, observa.

Quebrando o ciclo

Embora a primeira rodada do Desenrola tenha resolvido a situação de muitas famílias, a inadimplência continua alta, aponta Santos Filho. Ao mesmo tempo, acrescenta ele, já vemos algumas reincidências por parte de uma camada da população em que o endividamento foi retirado na primeira versão do programa, em 2023. Ou seja, o programa não evitou novos endividamentos.

Para quebrar esse ciclo sem fim de dívidas, ao renegociar os especialistas recomendam atenção máxima nas condições de pagamento. Isso porque em um acordo com desconto nem sempre as condições são boas para o seu momento de vida. É preciso se certificar que as parcelas acordadas não irão comprometer demais a sua renda futura - se transformando em um novo endividamento. 

Resultados 

O esperado recuo nos níveis de inadimplência, na visão de Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), deve começar aparecer de fato a partir do quarto trimestre. "Ainda é um evento muito recente e até mesmo o corte gradual dos juros (a Selic) promovido pelo Banco Central (BC) leva um certo tempo para chegar na ponta final", explica. 

Segundo dados do BC, ressalta Bentes, a taxa média de juros das operações de crédito voltadas para as pessoas físicas está na casa de 60% - maior patamar para essa época do ano desde 2017. "Tudo isso dificulta bastante o reaquecimento da economia", afirma.

Lista de negativados

O professor Alexandre Bertoncello, PHD em economia e consultor financeiro, concorda que mudança de hábitos de consumo é a chave para a mudança, porém ele chama a atenção para um ciclo que rege o funcionamento do sistema da própria Serasa que calcula o número de inadimplentes.

"Estamos em 2026. O maior aumento da inadimplência, com exceção do último ano, foi entre 2020 e 2021. Como a negativação caduca assim que completa cinco anos, isso significa que o número de inadimplentes, segundo os dados da Serasa Experience, cairão, porque aquelas pessoas que se endividaram no período da pandemia terão seus nomes retirados da lista de negativados do Serasa Experience. Mas atenção, a dívida segue ativa, cai somente a negativação", explica o professor.

Conclusão: os brasileiros devem continuar endividados, mas não vão aparecer mais como negativados. O banco não vai gerar crédito para eles novamente, mas o número de pessoas negativadas irá diminuir de qualquer forma, comparados principalmente a 2020, 2021. 

E esse é o primeiro fato que irá contribuir para a diminuição da inadimplência. É uma questão estrutural, explica o professor. Entre 2020 e 2021, o número de pessoas negativadas saltou de 5, 6 milhões para 12 milhões e essas pessoas passarão a não ser mais negativadas a partir do final desse ano.

Desenrola para adimplentes

Com a meta de reduzir os níveis de endividamento da população, a esperada versão do Desenrola para adimplentes, consumidores que, embora possam ter financiamentos, empréstimos ou dívidas no cartão de crédito, mantêm os pagamentos em dia, deve ser anunciado até o final de junho, de acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan.

Durigan revelou que essa nova edição voltada para adimplentes vai atender a trabalhadores informais que estão com as dívidas em dia, mas pagando juros muito elevados.

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