Japonesa que cobre o Brasil há 20 anos vira símbolo do fascínio da seleção
Reprodução/Instagram @kiyomifujiwara
Morristown (EUA) - Kiyomi Nakamura não nasceu no país do futebol, mas há mais de duas décadas é uma das presenças mais reconhecíveis na rotina da seleção brasileira. Japonesa de Tóquio, jornalista, dona de um sotaque de quem jamais vai aprender o português e de perguntas que já fazem parte do ambiente das coletivas de imprensa, ela acompanha o Brasil desde 2001 e se tornou uma personagem rara: alguém que olha o Brasil de fora, mas que já conhece por dentro seus rituais, personagens e contradições.
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Kiyomi veio para o Brasil seduzida pelo futebol da seleção. Escolheu o Rio de Janeiro por causa da CBF. Queria entender que país é esse que forma tantos jogadores bons de bola. A proposta era ficar um ano, dois no máximo. Mas não voltou mais. Ela vive no Rio e seu trabalho é reportar as coisas da seleção para a Dazn japonesa. Nos Estados Unidos, ela está na sua oitava Copa do Mundo. Seu amor e identificação com o Brasil são tamanhos que ela acredita que vai dar Brasil contra o Japão na segunda-feira. Mas revela que os japoneses estão ansiosos e também esperançosos com a partida em Houston, pela fase de mata-mata.
Zico, a ponte inicial
A relação com o Brasil começou antes de virar rotina profissional. Como muitos japoneses de sua geração, Kiyomi se aproximou do futebol brasileiro pelo fascínio causado por Zico, ídolo no Japão e ponte afetiva entre os dois países. O que era admiração virou cobertura jornalística. E o que era cobertura jornalística virou uma espécie de compromisso permanente com a camisa amarela, atravessando Copas, técnicos, crises, títulos, frustrações e reconstruções.
Desde 2001, Kiyomi viu a seleção brasileira sair do ciclo turbulento pré-Copa de 2002 para o pentacampeonato com Felipão. Viu Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho mudarem o humor de uma nação. Viu Dunga, Mano, Felipão de novo, Tite, Fernando Diniz, Dorival Júnior e agora Carlo Ancelotti. Em um futebol que muda de ciclo a cada tropeço, ela permaneceu.
A presença de Kiyomi nas coberturas também diz muito sobre a força global da seleção. O Brasil pode conviver com pressão, cobrança e desconfiança interna, mas segue sendo objeto de fascínio fora do País. Os jogos do time de Vini Júnior são os mais concorridos pelos repórteres. As coletivas são lotadas. Os idiomas se misturam na zona mista dos estádios. Para uma jornalista japonesa dedicar mais de 20 anos à cobertura da equipe brasileira é mais do que uma curiosidade de bastidor. É a prova de que o Brasil ainda carrega um valor simbólico que ultrapassa fronteiras, desperta o mesmo fascínio que trouxe Ancelotti para o lado de cá do Atlântico. E olha que nessas décadas, a seleção caiu muito em descrédito.
Kiyomi tem interesse no lado mais humano dos jogadores. Não se aproxima nem se aprofunda em tática. Sua forma de se comunicar também é característica. O português é carregado de sotaque, a insistência educada e a familiaridade com atletas e treinadores fizeram dela uma figura querida, a ponto de o técnico italiano brincar com ela nas entrevistas.
Kiyomi está longe de ser uma espiã infiltrada na cobertura do Brasil para ajudar o Japão na Copa, sobretudo nesta, em que os países serão rivais no primeiro jogo eliminatório do torneio da FIFA. Ela está mais para uma informante das coisas do Japão para a seleção brasileira. Mas não se atreveria a tanto. Ela é tímida, engraçada e como diz “toda enrolada”.
Valor global da seleção
Há também um elemento característico do país que vem e de sua trajetória. Kiyomi não cobre a seleção como quem observa um grupo distante. Ela se emociona, se envolve, lembra de personagens, carrega referências e atravessa torneios como quem guarda capítulos de uma vida profissional construída entre Brasil e Japão. Sua história mostra que o futebol brasileiro ainda é capaz de produzir pertencimento até em quem nasceu a milhares de quilômetros daqui.
Na Copa de 2026, Kiyomi chega novamente como personagem familiar no entorno da seleção. Em meio a uma equipe comandada por Ancelotti, pressionada pela busca do hexa e observada pelo mundo inteiro, sua presença ajuda a lembrar que a história do Brasil em Copas não é contada apenas por jogadores e técnicos. Também é contada por quem acompanha, pergunta, registra e insiste em estar lá.
Kiyomi Nakamura é japonesa de nascimento, mas há muito tempo faz parte da paisagem da seleção brasileira. Ela vai estar em Houston, no Texas, para ver de perto uma das duas seleções que mais ama voltar para casa sem nada. O Japão tem o seu respeito e a sua herança. O Brasil tem o seu coração e carinho.
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