CONFIRA

Dia de Nossa Senhora Aparecida: Peregrinos revelam desafios no Caminho da Fé

Em 2025, 34 mil peregrinos percorreram o Caminho da Fé, rota que conecta cidades da Serra da Mantiqueira ao Santuário de Aparecida

Alessandra Taraborelli

Por Alessandra Taraborelli

12/10/2026 | 09h30

Arquivo pessoal

Valéria Gonçalves em um trecho do Caminho da Fé - Arquivo pessoal
Valéria Gonçalves em um trecho do Caminho da Fé
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O Caminho da Fé, que conecta 72 cidades e atrai milhares de peregrinos, tem se consolidado como uma rota importante para a economia local, beneficiando diversas famílias ao longo do percurso. Em 2025, o caminho registrou a passagem de 34 mil peregrinos, refletindo um crescimento significativo desde sua criação em 2003.

Motivações pessoais, como a busca por fé e superação de desafios, têm levado pessoas de diferentes perfis a percorrer a rota, que exige esforço físico e proporciona experiências espirituais profundas. A jornada é marcada por dificuldades, mas também por um forte espírito comunitário entre os peregrinos e os moradores locais.

Para apoiar os viajantes, iniciativas como a criação do Espaço Bom Caminho em Campos do Jordão foram implementadas, oferecendo acolhimento a todos os caminhantes. Apesar das dificuldades enfrentadas, como condições climáticas adversas e desafios físicos, os peregrinos relatam um sentimento de superação e transformação pessoal ao alcançar a Basílica de Nossa Senhora Aparecida.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Seja por devoção, promessa, espiritualidade ou curiosidade — a pé ou de bicicleta —, o Caminho da Fé atrai um número cada vez maior de viajantes. Segundo a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, em 2025 o percurso registrou a passagem de 34 mil peregrinos, movimentando a economia local e beneficiando centenas de famílias ao longo do trajeto. O crescimento consolida o fortalecimento da rota, que passou a contar com 72 cidades integrantes a partir de maio do mesmo ano, ante 69 no ano anterior.

Criado em 2003 para dar apoio e segurança a peregrinos e ciclistas em direção ao Santuário Nacional de Aparecida (SP), o caminho cruza a Serra da Mantiqueira por estradas de terra, trilhas e asfalto. Marcada por setas amarelas, a jornada exige esforço físico, mas retribui com paisagens exuberantes e profundas experiências espirituais.

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Razões para caminhar

O medo de ver seu negócio falir durante a pandemia de Covid-19 e o desejo de se aproximar de Nossa Senhora levaram a comunicóloga Roberta Santo, de 49 anos, a encarar a travessia.

Comunicóloga Roberta Santo, de 49 anos, no Caminho da Fé
 Roberta Santo, comunicóloga - Arquivo pessoal

“Em janeiro de 2020, mudei para a casa dos meus sonhos. Em março, veio a pandemia e tudo virou um pesadelo. Me agarrei à fé e prometi que, se superasse aquele ano, faria o Caminho da Fé em 2021”, relembra Roberta.

Já para o empresário André Francisco, de 52 anos, empreendedor, morador de Campos do Jordão, a motivação veio do espírito esportivo aliado à fé. Católico praticante e ciclista desde jovem, ele acompanhou o nascimento da rota em 2003 e decidiu fazer o percurso pela primeira vez em 2017. Desde então, já enfrentou o desafio várias vezes.

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O sonho de percorrer o famoso Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha parecia distante, mas acabou servindo de faísca para uma vivência ainda mais profunda no coração do Brasil para Valéria Gonçalves, chef de cozinha, 52 anos. Inspirada pelo criador da rota paulista, Almiro Grings, ela decidiu testar seus limites no Caminho da Fé, completando os mais de 300 km entre Águas da Prata e Aparecida em 2016 — e repetindo o feito em 2018, mas no sentido inverso.

O que começou como um "teste" superou suas expectativas ao se aproximar muito da experiência espanhola. A jornada, no entanto, esteve longe de ser fácil. Enfrentando trechos de mais de 32 km, Valéria chegou a cogitar a desistência na primeira tentativa, decidida a voltar para casa, mas renovou as forças ao amanhecer e seguiu em frente.

Valéria Gonçalves e o cão Peregrino no Caminho da Fé
Valéria Gonçalves e o cão Peregrino - Arquivo pessoal

Anos depois, ao fazer a rota inversa acompanhada por seu "cão peregrino" — um parceiro de quatro patas adotado no próprio Caminho —, enfrentou subidas perigosas e momentos de fragilidade emocional, encontrando no apoio da mãe o impulso para se reerguer. Essas superações mostraram a ela que o percurso tem o poder de transformar o aparentemente impossível em realização.

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Do chamado ao apoio ao peregrino

Após anos percorrendo a rota sozinho ou acompanhado de amigos, André sentiu a necessidade de transformar sua relação com a caminhada. Durante uma das peregrinações em 2021, percebeu que seu propósito era servir a quem estava na estrada. “Quando cheguei à Basílica, conversei com Deus e decidi que faria algo voltado para os peregrinos em Campos do Jordão”, conta.

André Francisco, de 52 anos, empreendedor,
André Francisco, empreendedor - Arquivo pessoal

Inicialmente, ele planejava abrir uma pousada. Em 2023, comprou um terreno na entrada da cidade e, no ano seguinte, viajou com a esposa para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. A experiência no exterior mudou seus planos: entendeu que o espaço deveria acolher todos os caminhantes, e não apenas os que buscavam pernoite. Em outubro de 2024, montou uma barraca de apoio no local e, em abril de 2025, inaugurou o quiosque oficial do Espaço Bom Caminho.

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Desafios e solidariedade

A jornada, no entanto, impõe provações físicas severas. Roberta recorda que o terceiro dia de caminhada foi o mais difícil: enfrentou bolhas nos pés, calor intenso e queda de pressão, precisando recorrer ao carro de apoio para recompor as forças.

“Foi um dia em que não consegui fazer o percurso inteiro e tive que pedir ajuda. Mas entendi que precisava passar por aquilo e em nenhum momento pensei em desistir”, revela.

Para ela, a jornada exige preparação mental e espiritual, além da física. Em contrapartida, o cansaço é amenizado pelo espírito comunitário. “Existe uma empatia e um respeito que não vemos no dia a dia. Acontece uma verdadeira irmandade entre peregrinos, donos de pontos de apoio, hotéis e restaurantes ao longo de todo o trajeto.”

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Emoção da chegada

A recompensa chega ao avistar a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Para Roberta, alcançar o destino final trouxe um sentimento inesquecível de superação pessoal.

“Senti uma explosão de felicidade e uma força enorme. É um sentimento de ‘eu posso, eu venço os meus desafios’. Ao chegar, percebi que minha fé não apenas aumentou, mas ganhei a maturidade necessária para entregar as dificuldades nas mãos de Deus e seguir em frente”, conclui.

Valéria preferiu encarar a caminhada sem carros de apoio ou guias, entregando-se por inteiro à solitude e ao imprevisto. Mais do que uma travessia física, o Caminho da Fé revelou-se um portal de cura, amizade e autoconhecimento que, segundo ela, só pode ser compreendido por quem se dispõe a colocar os pés na estrada.

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