Alterações na microbiota elevam risco de queda em mulheres idosas, diz estudo
Estudo revela que alterações na microbiota estão associadas a quedas e mortalidade em mulheres acima de 75 anos
Por Emanuele Almeida
15/10/2026 | 12h00Adobe Stock
Um estudo revela que a composição da microbiota intestinal pode estar ligada à fragilidade física em mulheres idosas, afetando a saúde e a longevidade. Estudo aponta que alterações na diversidade microbiana podem aumentar o risco de quedas e expectativa de vida.
Os resultados mostraram que mulheres com fragilidade severa têm cinco vezes mais risco de morte e maior probabilidade de fraturas e quedas. Os pesquisadores identificaram 404 espécies bacterianas relacionadas à fragilidade, com destaque para bactérias benéficas que promovem a saúde e patógenos que agravam a condição.
São Paulo - Sabia que o ecossistema de microrganismos no trato digestivo tem um papel determinante na autonomia e vigor físico de mulheres mais velhas? Um estudo revelou que alterações profundas na composição e diversidade da microbiota intestinal estão diretamente associadas à fragilidade física, à ocorrência de lesões graves por quedas e ao tempo de vida em mulheres idosas.
A pesquisa de larga escala publicada na revista Nature Communications analisou dados de 2.081 mulheres suecas de 75 a 80 anos, acompanhadas por quase 8 anos. Os resultados demonstraram que o perfil bacteriano do intestino não reflete apenas a idade cronológica, mas funciona como um verdadeiro espelho da degradação das reservas biológicas do corpo.
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Conheça o Índice de Mortalidade por Fragilidade
O estudo aponta que, na geriatria, a fragilidade não significa apenas "envelhecer", mas sim uma síndrome multifatorial marcada pela perda das reservas fisiológicas e pela vulnerabilidade acentuada a internações, incapacidades e morte.
Para mensurar esse estado de forma abrangente, os pesquisadores desenvolveram o Índice de Mortalidade por Fragilidade (FMI, em inglês). Diferente de tabelas que apenas somam doenças preexistentes, o FMI combina os seguintes fatores funcionais, fisiológicos e psicossociais:
- Capacidade física: mensurada pela velocidade habitual de caminhada e pelo teste de sentar e levantar da cadeira;
- Saúde clínica e histórico médico: índice de comorbidades (CCI), tempo total de internação hospitalar anterior e tabagismo;
- Aspectos antropométricos e mentais: idade, peso corporal e escore de qualidade de vida mental avaliado pelo questionário.
Risco de fratura
Uma das principais descobertas foi a relação direta entre o avanço da fragilidade e o empobrecimento do ecossistema intestinal. À medida que a pontuação no índice FMI aumentava, observou-se uma redução contínua da diversidade microbiana e da riqueza gênica bacteriana total.
Essa redução significa que o intestino perde sua variedade funcional e sua capacidade de autorregulação. Participantes com maior diversidade e maior número de genes bacterianos únicos registraram proteção significativa contra o risco de morte e contra acidentes com lesão decorrentes de quedas.
Como resultado desses fatores, as voluntárias classificadas no grupo de fragilidade severa apresentaram um risco de morte cinco vezes superior em relação às não frágeis. Esse grupo com maior fragilidade teve também mais que o dobro de risco de sofrer fraturas de quadril e 63% mais risco de quedas que resultaram em lesões.
O índice criado pela pesquisa explicou 0,6% da variação geral na composição da microbiota, um poder preditivo três vezes maior do que o conferido pelo índice clássico de comorbidades isolado e superior ao impacto de medicamentos ou do nível de atividade física.
O que é microbiota
O médico gastroenterologista Michel Fernandes, especialista em doenças digestivas, explica que a microbiota intestinal é formada pelos microrganismos que vivem no nosso intestino e que se modifica ao longo da vida. Mas, segundo ele, a redução da diversidade não acontece da mesma forma em todas as pessoas e não é uma consequência inevitável do envelhecimento.
Mas o que pode acontecer com o avanço da idade e interferir na saúde da microbiota é a menor variação alimentar, seja por falta de apetite, dificuldades para mastigar ou limitações para comprar e preparar refeições.
Isso pode reduzir o consumo de fibras, que servem de alimento para várias bactérias intestinais. Doenças crônicas, alterações no funcionamento do intestino e o uso de medicamentos, especialmente antibióticos, também podem influenciar.
Michel Fernandes, gastroenterologista
Quais bactérias interferem nesse processo?
De acordo com os autores do estudo, a perda de riqueza biológica reflete uma falência na resiliência ecológica do microbioma, deixando o organismo mais suscetível a estresses e inflamações.
Os cientistas catalogaram 404 espécies associadas ao nível de fragilidade, das quais 63 mantiveram relevância estatística mesmo após o controle de fatores demográficos, comorbidades, uso de medicamentos e a própria perda global de diversidade genética.
O estudo desenhou um contraste nítido entre duas forças biológicas:
- As bactérias protetoras (aliadas da longevidade): indivíduos com menor fragilidade e melhor função física apresentaram abundância de bactérias comensais benéficas, em especial espécies produtoras de ácidos graxos de cadeia curta como Faecalibacterium prausnitzii (linhagens I e H), Faecalibacterium sp900539945, Dysosmobacter sp900544615 e Agathobaculum sp003481705. Essas espécies correlacionaram-se com melhor mobilidade, maior sobrevida e pontuações superiores nos testes motores.
- As bactérias oportunistas e inflamatórias: em contraste, o agravamento da fragilidade foi acompanhado pela proliferação de patógenos oportunistas, como espécies do gênero Enterocloster (E. bolteae, E. aldenensis, E. clostridioformis e E. lavalensis), Clostridium Q symbiosum, Eggerthella lenta e Erysipelatoclostridium ramosum. Muitas dessas espécies já foram associadas em outros estudos a infecções quando a barreira intestinal está comprometida e a perfis de envelhecimento desfavorável.
Um achado marcante foi a presença de microrganismos orais no trato digestivo dos idosos mais frágeis, como Streptococcus mutans e Actinomyces oris. Essa colonização de bactérias da boca nas fezes indica uma quebra na permeabilidade e nas barreiras defensivas do intestino.
Além disso, essas espécies oportunistas estiveram fortemente ligadas ao aumento do Índice de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRI), confirmando um estado de inflamação contínua.
Contudo, Michel Fernandes acrescenta que a identificação da microbiota dos estudos foi feita de uma maneira específica, que não dá para ser replicada nos consultórios. "Não existe um padrão universal de microbiota saudável nem um resultado isolado que determine qual tratamento a pessoa precisa fazer. Por isso, esses testes não são indicados como exame de rotina para todos os idosos", pontua.
Ele explica que, na prática, a investigação começa com uma avaliação da alimentação, os medicamentos, o funcionamento intestinal e as condições gerais de saúde. "Também observamos se houve perda de peso sem intenção, redução da força, dificuldade para caminhar ou maior dependência nas atividades do dia a dia", conclui.
Homens também são afetados
Para assegurar que as conclusões não refletissem apenas a dieta ou os hábitos do norte da Europa, os dados foram submetidos a validação em uma corte independente com 1.448 idosos chineses (homens e mulheres de 62 a 96 anos) da pesquisa.
Mesmo com diferenças geográficas, genéticas e culturais expressivas, mais da metade (55%) das principais espécies associadas ao índice de fragilidade na Suécia mostrou exatamente o mesmo padrão de associação com pior desempenho físico ou mortalidade na população asiática. Espécies do grupo Enterocloster (E. aldenensis e E. lavalensis) e Clostridium Q symbiosum, por exemplo, confirmaram sua associação com maior risco de óbito em ambos os países.
O que se pode fazer?
Apesar da consistência dos achados, os próprios pesquisadores ponderam que o estudo possui natureza observacional, o que impede estabelecer uma relação direta de causa e efeito — ou seja, ainda não é possível cravar se o desequilíbrio na microbiota acelera a fragilidade física ou se é uma consequência do declínio biológico global. Fatores como o consumo alimentar detalhado também não puderam ser incorporados na análise.
A médica geriatra Marcia Umbelino pondera que ainda não se pode dizer que exista uma intervenção específica sobre a microbiota capaz de prevenir ou tratar a fragilidade. Mas várias medidas que são importantes para um envelhecimento saudável também favorecem uma microbiota mais diversificada. São eles:
- Alimentação variada, rica em vegetais, frutas, legumes, grãos integrais e fibras é importante;
- Ingestão adequada de proteínas, para preservar massa muscular.
A especialista adiciona que, dependendo do caso, o médico pode prescrever probióticos para melhorar a microbiota intestinal. Mas não exsite uma indicação para que todos os idosos façam uso de probióticos por conta própria. O estudo não permite essa conclusão.
A atividade física, principalmente os exercícios de força associados a exercícios aeróbicos e de equilíbrio, tem um papel central. Além disso, é importante controlar doenças crônicas, revisar periodicamente os medicamentos, evitar o uso desnecessário de antibióticos e manter acompanhamento médico.
Marcia Umbelino, geriatra
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