CONFIRA

Mamografia sobe para 83% entre idosas, mas 29% desconhecem prevenção

Especialista elenca a terceirização do cuidado, desinformação e a falta de conhecimento do próprio corpo como fatores que influenciam esse contexto

Emanuele Almeida

Por Emanuele Almeida

13/10/2026 | 11h22

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Se a mulher vier a notar alterações na mama é preciso ter um diagnóstico médico de imediato - Adobe Stock
Se a mulher vier a notar alterações na mama é preciso ter um diagnóstico médico de imediato
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Apesar de 83% das mulheres com 60 anos ou mais realizarem mamografias, 29% desse grupo desconhecem formas de prevenção do câncer de mama, refletindo uma lacuna significativa entre a realização de exames e o conhecimento sobre a doença.

O levantamento revela que o desconhecimento sobre prevenção é mais alto entre mulheres jovens, com 41% na faixa de 16 a 24 anos, e que a prática de autocuidado diminui com a idade.

Para enfrentar essa desinformação, especialista sugere a promoção de um autocuidado efetivo e a importância de conhecer o próprio corpo, além de destacar que a legislação brasileira garante prazos para exames e tratamentos, visando melhorar o acesso e a resposta ao câncer de mama.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Hoje, o fato de uma mulher fazer uma mamografia não reflete diretamente no seu conhecimento sobre os cuidados para prevenir ou tratar o câncer de mama. Isso porque as mulheres com 60 anos ou mais, que são o grupo focal para a prevenção, lideram a realização de mamografias no País, com 83% de adesão. No entanto, nessa mesma faixa etária, 29% afirmam desconhecer as formas de prevenção do câncer de mama. 

Um levantamento nacional realizado pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados revela que esse índice é mais alto do que entre as pessoas de 41 a 59 anos, cuja taxa de desconhecimento é de 23%. 

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A oncologista e líder do Núcleo de Mastologia do A.C.Camargo Cancer Center, Fabiana Makdissi, destaca que o aumento do desconhecimento ocorre justamente no período em que a incidência da doença atinge seus patamares mais altos.

O desafio atual não é apenas ofertar exames, mas garantir que a informação correta chegue e se transforme em ação diária na vida das pacientes.
Fabiana Makdissi, oncologista

Cuidado em diferentes fases da vida

O estudo mapeou o comportamento feminino em diferentes momentos da vida:

  • 16 a 24 anos: apresentam o maior nível de desconhecimento, com 41% declarando ignorar formas de prevenção. Além disso, 62% nunca realizaram exames de detecção precoce, e a prática do autoconhecimento ou autoexame atinge apenas 30%;
  • 25 a 40 anos: o hábito do autoconhecimento sobe para 55%, e a parcela que nunca fez exames de detecção cai para 41%;
  • 41 a 59 anos: faixa que registra a consolidação dos cuidados, com 78% de adesão à mamografia, 81% de prática de autoexame e o menor nível de desconhecimento sobre prevenção (23%); 
  • 60 anos ou mais: apresentam a maior taxa de mamografia (83%), mas registram queda na atenção ao próprio corpo (63% de autoexame) e subida no desconhecimento (29%), além de 11% totalmente sem métodos de detecção.

Terceirização do cuidado

Os dados expõem uma importante mudança de comportamento com o avanço da idade. Enquanto a prática que depende da iniciativa pessoal da mulher cai de 81% para 63% entre as idosas, a mamografia — que depende de encaminhamento profissional — sobe de 78% para 83%.

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Essa dinâmica aponta para a "terceirização do cuidado", em que a ida ao médico substitui a busca ativa pela própria prevenção. Segundo Fabiana Makdissi, muitas pessoas acreditam que só estão sendo cuidadas quando pisam no consultório médico.

"Depender exclusivamente do acompanhamento profissional deixa a mulher vulnerável caso ocorra qualquer interrupção na rotina de consultas ou no vínculo com o serviço de saúde", alerta a oncologista. 

Desinformação e a rotina da mulher brasileira

mulher apalpando os seios como autoexame para o câncer de mama
1 em cada 8 mulheres pode desenvolver câncer de mama ao longo da vida, com maior incidência a partir dos 50 anos - Adobe Stock

Um dos fatores que alimentam o desconhecimento é a sobreposição entre excesso de notícias e proliferação de fake news em aplicativos como o WhatsApp. Makdissi aponta que, embora a medicina comprove que a mamografia é o método mais eficaz para diagnóstico precoce e redução de mortalidade, conteúdos falsos sobre dor ou supostos riscos do exame geram dúvidas.

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Além disso, a oncologista destaca que grande parte das mulheres brasileiras atua como arrimo de família, acumulando jornadas de trabalho, afazeres domésticos e o cuidado com familiares.

"Na rede pública do SUS, enfrentar filas, deslocamentos e conciliar agendamentos com o emprego transforma a realização de um exame de rotina em mais um fardo na rotina diária", analisa Makdissi.

Rastreamento de rotina versus sinais de alerta

Mesmo diante de tantos desafios, a especialista reforça que é preciso fazer uma distinção fundamental entre o exame preventivo de rotina e a investigação diante de sintomas:

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  • Rastreamento (mulheres assintomáticas): Indicado para mulheres a partir dos 40 anos que não sentem qualquer alteração na mama. O exame anual pode ser realizado com tranquilidade ao longo de todo o ano.
  • Investigação Diagnóstica (presença de sintomas): Exige ação imediata quando surgem sinais de alerta.

Os principais sinais de alerta são:

  • Presença de nódulo ou caroço;
  • Percepção de afundamento;
  • Abaulamento na pele da mama;
  • Mamilo invertido;
  • Secreção papilar de um único lado (como gotinhas identificadas no sutiã ou pijama).

Nesses casos, a oncologista alerta que a necessidade de um diagnóstico é primodial. "Se essa mulher já sentiu um nódulo na mama ou outros sintomas, não é mais para pensar só em fazer uma mamografia de rotina, ela já precisa de diagnóstico", reforça. 

Direitos garantidos por lei no SUS

Diante da suspeita de alterações ou sintomas, a legislação brasileira estabelece prazos rígidos para garantir o atendimento adequado pelo Sistema Único de Saúde:

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  • Lei dos 30 Dias (Lei 13.896/2019): determina que a paciente com suspeita de câncer tem o direito de realizar exames diagnósticos dentro do prazo máximo de 30 dias;
  • Lei dos 60 Dias (Lei 12.732/2012): assegura que o tratamento (seja por cirurgia, quimioterapia ou radioterapia) deva ser iniciado em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico em laudo.

Autoexame é conhecer o próprio corpo

A pesquisa aponta que, ao envelhecer, as mulheres passam a perceber menos as mudanças no seu corpo e nas mamas: 63% das mulheres 60+ realizam autoexame, porcentual menor que no grupo com 40 anos, que responde por 80%. 

Makdissi atribui essa queda a comportamentos perpetuados na sociedade: "Acho que isso é muito de uma questão cultural. Que nós mulheres, conforme a gente vai envelhecendo, a gente deixa de valer para a sociedade, sabe? Eu acho que a gente, às vezes, até incorpora isso na nossa saúde", elenca. 

Para evitar que as mulheres se afastem do autocuidado por receio, a médica oncologista prefere substituir a expressão "autoexame" pela orientação de "conhecer o próprio corpo". "Exigir que a mulher se examine periodicamente transfere uma obrigação técnica e gera insegurança ao palpar a textura natural da mama", explica. O objetivo do autoconhecimento é fazer com que a mulher observe suas mamas diante do espelho na rotina simples do dia a dia, identificando mudanças visuais ou estruturais, mas frisa que não é um diagnóstico clínico.

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Autocuidado diário

Diante desse contexto, Makdissi reforça o autocuidado efetivo das mulheres. "Ele apoia-se em escolhas diárias: alimentação com produtos menos industrializados, prática regular de atividades físicas, moderação no consumo de álcool e abandono do tabagismo.

Aqui, o combate ao excesso de peso é decisivo, uma vez que a gordura periférica atua produzindo hormônios que elevam o risco de tumores", pontua.

"No avião, eles sempre lembram de colocar a máscara de oxigênio primeiro em você para depois ajudar quem está ao lado. Nesse caso (prevenção ao câncer de mama), é preciso que a mulher priorize a própria saúde para continuar a viver e cuidar de quem ama."

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