CONFIRA

O que é polimialgia reumática? Conheça doença autoimune que pode afetar 50+

Condição autoimune e inflamatória afeta os movimentos e acomete pessoas especialmente na faixa entre 70 e 75 anos; entenda sintomas e tratamentos

Bianca Bibiano

Por Bianca Bibiano

23/10/2026 | 09h52

AdobeStock

Na polimialgia reumática, dor é tão intensa que pode limitar movimentos e deixar idosos acamados - AdobeStock
Na polimialgia reumática, dor é tão intensa que pode limitar movimentos e deixar idosos acamados
Ouvir texto 2:27 1x

Francisco Stella Chiavini, de 81 anos, enfrentou uma dor intensa no quadril que o levou a buscar tratamento médico, resultando no diagnóstico de polimialgia reumática, uma doença autoimune que causa dor e rigidez, especialmente em pessoas acima de 50 anos.

A condição, que afeta mais mulheres e pessoas de etnia caucasiana, pode ser confundida com problemas ortopédicos comuns, atrasando o diagnóstico; exames de sangue são essenciais para confirmar a inflamação característica da doença.

Recentemente, a Anvisa aprovou o uso do medicamento biológico secuquinumabe para o tratamento da polimialgia reumática, permitindo uma redução significativa na dependência de corticoides, o que pode levar a uma remissão sustentada e à alta médica dos pacientes, como ocorreu com Chiavini.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Aos 81 anos, o músico e engenheiro civil aposentado Francisco Stella Chiavini lembra com clareza do dia em que sua rotina mudou. Há três anos, ele foi surpreendido por uma dor intensa e repentina no quadril. "Foi de uma hora para outra. De tal modo que eu não podia me levantar da cama. O quadril parecia que estava adormecido", relata.

Internado por uma semana em um grande hospital de São Paulo, Francisco passou por avaliação e recebeu analgésicos e injeções, mas obteve alta sem um diagnóstico definitivo e ainda com limitação de movimentos. A dor regrediu parcialmente, mas o problema persistia.

A mudança veio por sugestão da esposa, que o orientou a procurar um reumatologista. Após uma passagem inicial por um profissional cujo tratamento baseado apenas em corticoide não surtiu o efeito esperado, Francisco passou a consultar a médica reumatologista Érika Biegelmeyer, que diagnosticou e direcionou o tratamento da polimialgia reumática.

Polimialgia reumática é confundida com tendinite

A polimialgia reumática é uma doença autoimune e inflamatória imunomediada que acomete exclusivamente pessoas com mais de 50 anos, apresentando pico de incidência entre 70 e 75 anos. 

retrato de Francisco Stella Chiavini, de acervo pessoal
Francisco Chiavini, 81, foi diagnosticado com polimialgia reumática e após tratamento conseguiu receber alta médica -  Acervo pessoal

A condição afeta de duas a três vezes mais mulheres do que homens e é mais prevalente em pessoas brancas (de etnia caucasiana), segundo a médica Érika Biegelmeyer.

Por ser frequentemente confundida com queixas ortopédicas comuns entre pessoas idosas, como tendinites, o diagnóstico pode atrasar.

"Muitos pacientes passam antes por ortopedistas tratando uma tendinite no ombro. O relato típico é: 'agora eu sempre tenho dor e essa rigidez, como se o corpo estivesse enferrujado'", pontua a médica.

"A pessoa acorda de manhã com muita dor e rigidez de movimento, com dificuldade de realizar tarefas simples do dia a dia, como pentear os cabelos ou se levantar da cama", explica a reumatologista.

Quais sintomas?

O quadro é caracterizado por:

  • Dor inflamatória acompanhada de rigidez matinal prolongada (com duração de 45 minutos ou mais)
  • A dor de concentra principalmente nos ombros quadril, além das regiões cervical e lombar.
  • Em alguns casos, surgem manifestações sistêmicas, como febre baixa e perda involuntária de peso.

Para confirmar o diagnóstico, exames de sangue como PCR (Proteína C-Reativa) e VHS (Velocidade de Hemossedimentação) ajudam ao apontar provas inflamatórias bem aumentadas no organismo, detalha a médica.

O desafio do tratamento com corticoides

O tratamento padrão de primeira linha é realizado com corticoides orais (como a prednisona), que trazem alívio rápido da dor em 24 a 48 horas. No entanto, o processo de retirada do medicamento exige cautela.

"O corticoide tira a dor rapidamente, parece que tirou com a mão. Porém, é preciso fazer um desmame gradual e lento. Muitas pessoas têm recidiva nessa redução. No início, os pacientes nos amam porque tiramos a dor, e depois nos odeiam porque não conseguimos tirar o corticoide", afirma Biegelmeyer.

Isso porque o uso prolongado de corticoides em idosos traz riscos e efeitos adversos significativos, como aumento da taxa de diabetes, osteoporose, perda de massa muscular e ganho de gordura corporal.

Até metade dos pacientes pode apresentar retorno dos sintomas durante a redução da dosagem, necessitando manter a corticoterapia por períodos que variam de dois a cinco anos.

Avanços no controle da doença

Para auxiliar no manejo da condição e reduzir a dependência do corticoide, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no último mês a indicação em bula do medicamento biológico secuquinumabe, comercializado pela farmacêutica Novartis, para a polimialgia reumática, tornando o Brasil o primeiro País a registrar esse tipo de indicação.

A medicação, já utilizada há cerca de uma década para outras doenças imunomediadas, atua como agente poupador de corticoide.

No estudo clínico de Fase III (REPLENISH), cujo pacientes que utilizaram o biológico associado ao esquema de regressão do corticoide apresentaram:

  • Redução de quase 50% na dose cumulativa de corticoides.
  • Dobro da taxa de remissão sustentada ao final de um ano, em comparação ao tratamento feito exclusivamente com corticoides.

É possível ter alta médica de polimialgia reumática?

Diferente de outras patologias autoimunes crônicas que exigem medicação contínua por toda a vida, a polimialgia reumática permite a alta do acompanhamento reumatológico caso o paciente consiga retirar o corticoide e manter a remissão sustentada sem o retorno dos sintomas.

"Quando a gente consegue tirar o corticoide, que é a parte mais difícil, é possível e até relativamente comum que a doença não volte mais. Ficando alguns anos em remissão, o paciente pode até ter alta do reumatologista", afirma a médica.

Atulamente, Francisco Chiavini comemora o estado de remissão e a retomada de sua qualidade de vida. Ele segue assintomático, faz o controle de colesterol elevado com estatina e trata uma artrose no ombro (sem relação com a polimialgia).

"Com relação a essa dor, eu estou muito bem. Eu esqueço que ela existe. Depois que os sintomas desapareceram, eu continuei tocando saxofone e flauta", celebra o músico.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.