A herdeira de castelo que foi a campos de guerra: conheça Blanche de Bonneval
Divulgação/Blanche de Bonneval
São Paulo - A geógrafa Blanche de Bonneval dedicou 25 anos de sua vida a trabalhar em projetos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em países conflagrados ou com graves problemas sociais. Mas o que leva uma pessoa de família nobre a seguir esse difícil caminho?
Nobreza aqui não é exagero. Franco-brasileira nascida em São Paulo, ela conta que seu pai, francês, vem de uma linhagem de nobres que, desde os anos 900 é dona do Castelo de Bonneval. A família chegou a perder a posse, mas a retomou pouco tempo depois.
O Chateau de Bonneval está localizado na comuna de Coussac-Bonneval, no departamento de Haute-Vienne, na região da Nova Aquitânia, na França. Como consta na Wikipedia, a Casa de Bonneval é reconhecida historicamente como uma das famílias aristocráticas mais prestigiosas e virtuosas da região de Limousin.
Havia até um antigo provérbio francês que dizia: "Des Cars richesse, Bonneval noblesse", algo como “Os Des Cars têm a riqueza; os Bonneval, a nobreza".
Blanche conta que a construção histórica é do tamanho de um quarteirão, e que já recebeu reis da França e sobreviveu a cercos. Hoje, o local é administrado e rentabilizado por um irmão - ela é a segunda de cinco filhos.
Blanche decidiu cedo que não seguiria o roteiro traçado por sua família tradicional. A expectativa de se tornar uma boa esposa e uma boa mãe foi substituída pelo desejo de viajar pelo mundo.
Eu queria viajar pelo mundo, eu queria ser solteira, ter liberdade em vez de filhos."
Essa busca por independência a levou novamente à França, que visitava muitas vezes durante as férias escolares. Lá concluiu seu mestrado e doutorado em Geografia Urbana e Planejamento pela prestigiada Sorbonne, completando a graduação em Geografia na Universidade de São Paulo (USP).
Após a conclusão dos estudos, o plano era ter um emprego. O momento de repensar a vida envolvia procurar um emprego que lhe permitisse conhecer outros países. Sem apadrinhamentos ou incentivos governamentais, conseguiu uma vaga como estagiária de projetos porque reunia exatamente o que a organização buscava para um posto crítico: fluência em inglês, o português como língua materna e, principalmente, não ter medo.
Blanche trabalhou no PNUD até 2005, quando se aposentou. Então, depois de anos de uma vida agitada de trabalho em lugares repletos de necessidades das mais diversas, sentiu-se mal.
Eu sou uma pessoa muito ativa e eu gosto de fazer uma porção de coisas. E quando eu me aposentei, de repente, eu me vi sedentária, uma coisa que eu não conhecia, e eu perdi um pouco o propósito", conta.
A solução foi transformar suas memórias em livros:
- “Dezoito etnias à deriva” (2023) – memórias de sua experiência em Madagascar.
- “Fachos de luz sobre covas rasas” (2024) – relato de sua atuação no Chade.
- “Atravessando abismos na pinguela do medo” (2025) – sobre sua vivência no Tadjiquistão.
- “Despertar no Batuque”, seu quarto livro, que é focado em seus anos em Angola, tem lançamento previsto para este mês de agosto.
Em Angola, guerra civil e autodescoberta
Seu primeiro destino foi Angola, um país então devastado pela guerra civil, marcado pela fome e por campos minados. A experiência serviu, segundo ela, como um rito de autodescoberta. Blanche percebeu que, quanto mais difícil a situação, ou país, melhor ela conseguia trabalhar.
Foi em Luanda, ainda como estagiária, que vivenciou um dos episódios que mais a marcaram: ao resgatar uma menina atropelada em uma favela e levá-la a um hospital cubano, Blanche conquistou a confiança e a gratidão da comunidade local, quebrando a barreira da desconfiança.
Ao longo de 25 anos de carreira diplomática e humanitária, Blanche atuou em países diferentes, aposentando-se em maio de 2005 como representante residente adjunta da instituição na Rússia.
Sua trajetória foi marcada por uma crítica à postura de muitos expatriados, de formarem grupos fechados de estrangeiros de uma mesma nacionalidade que apenas convivem entre si. Para ela, o verdadeiro trabalho envolvia estar aberto, conviver diariamente com as populações locais, frequentar suas casas e participar de suas festas.
Essa postura de imersão rendeu frutos em missões complexas. Em Madagascar, para onde foi após Angola e onde foi oficializada como funcionária do PNUD, Blanche teve que lidar com um complexo sistema administrativo que operava com múltiplas moedas e com as tensões de uma sociedade ainda marcada mentalmente por divisões de castas e conflitos entre gangues.
No Chade, país dividido entre animistas e islâmicos e também imerso em conflitos civis, ela permaneceu por cinco anos, construindo amizades sólidas tanto no governo quanto na população, o que garantiu o sucesso de seus projetos.
No Tajiquistão, os momentos mais difíceis
Porém, o posto mais extremo foi o Tajiquistão, em 1996. Em meio à guerra, lidou com temperaturas de -35°C sem aquecimento ou eletricidade. Devido à forte presença da máfia, o sistema bancário era inoperante. A solução encontrada pela ONU era que Blanche cruzasse o deserto de carro mensalmente até o vizinho Uzbequistão para buscar, em dinheiro vivo, os fundos necessários para os projetos, uma operação de altíssimo risco.
Blanche conta que sua capacidade de lidar com a tensão sempre foi equilibrada pela meditação. Ela ocupou diferentes posições e exerceu diversas funções ao longo de seus 25 anos na organização, tendo sido chefe de administração interinamente, inclusive. Também foi representante presidente adjunta - o cargo que ocupou no final de sua carreira, quando trabalhava na Rússia.
Em termos de funções operacionais (o dia a dia do trabalho), ela detalha que sua atuação envolvia a redação de projetos, o monitoramento, a avaliação, a administração geral e a articulação com doadores para arrumar financiamentos adicionais para os projetos.
Ao olhar para trás, a geógrafa e escritora é categórica sobre as escolhas que fez, abrindo mão de casamentos e de uma vida convencional para se dedicar ao trabalho em algumas das zonas mais perigosas do planeta, dos isolamentos e extremas dificuldades, ela afirma:
Se fosse para fazer de novo, eu faria tudo igual. Eu não tenho arrependimentos".
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