Carreira e Educação

Etarismo e falta de vagas são desafio na busca de carreira após os 50

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Para especialistas, principal barreira é a ideia de que essas pessoas não se adaptam às mudanças tecnológicas e ao mercado de trabalho - Adobe Stock
Para especialistas, principal barreira é a ideia de que essas pessoas não se adaptam às mudanças tecnológicas e ao mercado de trabalho

Por Bianca Bibiano

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Publicado em 27/03/2025, às 09h46

O aumento da população com mais de 50 anos no Brasil tem levado a uma nova reflexão sobre o conceito de aposentadoria. Se, até pouco tempo atrás, ela era vista como um momento de descanso profissional, cada vez mais pessoas dessa faixa etária buscam novas formas de se manter ativas. A questão financeira é, em muitos casos, a principal motivação. Em 2024, a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que 29,3% das pessoas com 60 anos ou mais não recebiam rendimentos de aposentadoria ou pensão. Para os que recebiam, a média girava em torno de dois salários-mínimos.

"Hoje, a faixa etária para se aposentar ganhando plenamente é muito alta. São poucas as pessoas que conseguem continuar trabalhando até o momento da melhor aposentadoria possível, e, mesmo assim, ela é insuficiente. Ou seja, as pessoas querem e, sobretudo, precisam continuar trabalhando", afirma Martin Henkel, professor de marketing 60+ da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em longevidade.

A permanência ou a reinserção no mercado, contudo, depende de uma série de fatores nem sempre favoráveis. O preconceito por idade, ou etarismo, por exemplo, continua sendo um obstáculo para profissionais 50+. Um estudo realizado pelas empresas Robert Half e Labora revelou que 66% dos desempregados acima dessa faixa etária atribuem a esse fator as dificuldades para encontrar novas oportunidades. O levantamento mostrou também que 80% das empresas não possuíam métricas claras para medir o sucesso das iniciativas de inclusão geracional. 

Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half para a América do Sul, destaca que a falta de políticas de inclusão é um fator crucial para essa baixa representatividade. 

"Muitas empresas assumem que profissionais mais velhos demandam salários e pacotes de benefícios mais robustos. Isso cria um viés de custo. O foco, muitas vezes, está em planos de sucessão voltados para talentos mais jovens, dificultando a progressão de carreira para os profissionais experientes."

Outro fator que pode ser um impedimento para a permanência de profissionais 50+ em empregos formais é a falta de flexibilidade nos modelos de trabalho, especialmente quando não há adaptações para jornadas diferenciadas. Para Mantovani, reverter esse cenário exige ações concretas, como a implementação de treinamentos sobre diversidade etária, a divulgação de vagas afirmativas e programas específicos para pessoas 50+. 

Sensibilizar líderes e recrutadores sobre vieses inconscientes e sobre o impacto positivo de equipes multi geracionais também pode ampliar as oportunidades para essa faixa etária. "A inclusão não se limita apenas à contratação. As empresas precisam criar um ambiente de convivência e troca de experiências entre diferentes gerações", afirma.

Para Martin Henkel, essas dificuldades de inserção no mercado formal levam muitas pessoas a buscarem a informalidade. "Vemos profissionais altamente qualificados realizando serviços que não exigem tanta qualificação, parte para gerar renda, já que a aposentadoria, mesmo no nível mais alto do INSS, é insuficiente para manter o padrão de vida." Segundo o IBGE, a taxa de formalização entre pessoas com mais de 50 anos é de 60,4%. Após os 60 anos de idade, a taxa diminuiu para 43,3%


Mudança de perfil e adaptação às tecnologias


A adoção de novas tecnologias também é vista como um desafio. No entanto, Henkel enfatiza que, ao longo da carreira, muitos desses profissionais maduros contribuíram para o desenvolvimento de grande parte do conhecimento que hoje é aplicado no mercado e também nas ferramentas mais avançadas de tecnologia, inclusive a inteligência artificial. O que falta, segundo ele, é confiança para utilizar essas ferramentas a seu favor.

"Não podemos continuar perpetuando a ideia de que profissionais mais maduros são caros ou incapazes de se adaptar. Na realidade, pesquisas mostram que eles faltam menos ao trabalho e são mais comprometidos, o que pode representar uma economia significativa para as empresas.”


Oportunidades de formação para pessoas 50+


O aumento da longevidade e a necessidade de inclusão dos profissionais 50+ no mercado de trabalho também têm levado à criação de programas educacionais voltados para essa faixa etária. A Universidade da Maturidade - UMA, da Universidade Federal do Tocantins, por exemplo, é pioneira no Brasil ao oferecer um programa de extensão para pessoas acima de 50 anos com foco em práticas e teorias da gerontologia educacional. O objetivo central é integrar pessoas na maturidade ao ensino superior e atualmente atende pessoas em 16 pólos no Brasil e 1 em Portugal.

Segundo Luiz Sinésio Neto, coordenador da UMA, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho é uma das principais ponderações das pessoas que procuram a instituição.


“A inclusão das pessoas 50+ está se tornando um imperativo não apenas para as empresas, mas também para a sociedade como um todo.”


Ele reforça que o envelhecimento deve ser visto como uma oportunidade e não como um problema: "O mercado de trabalho no Brasil ainda enfrenta o desafio de adaptar suas políticas para pessoas idosas. O envelhecimento é uma realidade crescente, mas muitas vezes não se discute o impacto que isso tem na economia das famílias ".

Segundo dados de pesquisa realizada pela CNDL, SPC Brasil e Offerwise Pesquisas, 52% dos idosos no Brasil são provedores financeiros de suas famílias. "A realidade é que a maioria dos profissionais 50+ busca trabalhar mesmo após a aposentadoria por necessidade econômica. A outra parte volta pelo desejo de dar sentido à vida profissional, sentir-se útil e ativo ", conclui.

Universidade da Maturidade (UMA), da Universidade Federal do Tocantins oferece programa de extensão para promover a inserção de pessoas com mais de 50 anos no ambiente acadêmico
Universidade da Maturidade (UMA), da Universidade Federal do Tocantins oferece programa de extensão para promover a inserção de pessoas com mais de 50 anos no ambiente acadêmico - Divulgação

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Um retrato do mercado de trabalho 50+ no Brasil

  • 66% das pessoas que buscam emprego veem o preconceito etário como o principal obstáculo para retornar ao mercado de trabalho.
  • 77% das empresas não possuem iniciativas intencionais para aumentar a diversidade geracional em seus processos seletivos.
  • 70% delas não possuem métricas claras para avaliar o sucesso das iniciativas de inclusão geracional.
  • Mais de 60% não tem medidas para reter profissionais acima de 50 anos em seu quadro de funcionários
  • 63% afirmam nunca ter presenciado casos de etarismo
  • Renda média das pessoas com mais de 60 anos no Brasil: 1,5 salário-mínimo.
  • 91% contribuem financeiramente para o sustento da casa, sendo que 52% são o principal responsável.
  • Entre os motivos de continuarem trabalhando, 71% mencionaram a complementação da renda, 56% querem se sentir produtivos e 50% buscam manter a mente ocupada.
  • 42% estão procurando trabalho, mas 88% ainda não haviam sido chamados para entrevista no período da pesquisa.

Fonte: Pesquisa Etarismo e inclusão da diversidade geracional nas organizações, da Robert Half, outubro de 2024; Pesquisa Perfil e Vida Profissional na terceira idade, da CNDL, SPC Brasil e Offerwise Pesquisas, março de 2021

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