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Aos 57 anos, nefrologista realiza sonho e adere ao Médicos sem Fronteiras

Reprodução / Médicos Sem Fronteiras

Denise Viuniski da Nova Cruz em Moçambique; para ela, o olhar das crianças africanas é especial - Reprodução / Médicos Sem Fronteiras
Denise Viuniski da Nova Cruz em Moçambique; para ela, o olhar das crianças africanas é especial
Por Claudio Marques

11/07/2026 | 18h34

São Paulo - Aos 57 anos, a médica nefrologista com atuação em clínica médica Denise Viuniski da Nova Cruz decidiu concretizar um desejo antigo que, por muito tempo, pareceu um sonho distante: fazer parte da organização humanitária internacional Médicos sem Fronteiras (MSF).

A entidade oferece assistência a pessoas afetadas por crises – guerras, catástrofes socioambientais, desnutrição grave e epidemias –, que enfretam uma realidade de extrema vulnerabilidade e, não raro, desesperadora. 

Hoje, aos 62 anos, Viuniski já esteve em quatro projetos do MSF: Líbano, Moçambique, Congo e Quênia. No Líbano, trabalhou nas montanhas do norte do país atendendo refugiados sírios com doenças crônicas.  Em Moçambique, o trabalho foi direcionado ao tratamento de doenças tropicais negligenciadas, como esquistossomose, malária, filariose e escabiose (sarna). 

Na República Democrática do Congo, conta que foi o projeto mais tenso em termos de segurança. No Quênia, seu projeto mais recente e tranquilo, deu suporte a uma enfermaria de clínica médica.

Motivação e desafios enfrentados

Amante fervorosa da profissão, ela conta nesta entrevista, o que a levou a fazer parte de projetos da instituição, que é uma ONG independente, financiada por doações. Os médicos são contratados  por projeto, não há trabalho voluntário.

Ela também destaca desafios enfrentados, a segurança precária, e o aprendizado com as experiências. Ela gosta de dizer que: "Dentro do peito de um bom médico, bate um coração de Médico Sem Fronteiras".

VIVA - Você começou a faculdade de medicina aos 16 anos?

Denise Viuniski - Sim, eu entrei na faculdade de medicina com 16 anos, mesmo ano da minha formatura no ensino médio, e me formei médica com 22 anos. Aí emendei, fiz residência, uma especialização, enfim, a vida correu rápido, sempre envolvida com a medicina: eu amo profundamente essa profissão. 

Qual é a sua especialidade?

Sou nefrologista de formação, mas trabalhei a vida inteira com clínica médica, e sempre no SUS. Fui professora durante boa parte desses 40 anos de formada, mas considero 46 anos de medicina, porque os seis de faculdade contam. E por mais de 20 anos eu fui professora de medicina, que é a outra das minhas paixões. 

Em qual disciplina?

Fui professora até o ano passado, sempre de clínica médica, de nefrologia, de habilidades médicas, que chamamos aqui no Brasil semeologia médica, que é a habilidade de conversar com os pacientes, colher a história deles para examiná-los. Nos últimos anos, eu comecei a estudar humanidades médicas.

Deixou algo para trás nesse tempo todo? 

Depois de muitos anos trabalhando como médica e como professora, em 2017, eu estava cansada de trabalhar assim e pensei: "Bom, eu preciso fazer o que eu não fiz quando adolescente, mochilão, viajar". Larguei a docência, tirei um ano sabático e fui viajar pelo mundo. Em 2019, voltei, comecei a lecionar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas pensei que estava na hora de me aposentar.

E o que aconteceu?

Eu já estava me encostando, quando veio a pandemia. Esse é o outro marco da minha vida. Na pandemia, de 2019 para 2020, eu me senti muito afetada. Logo que o Ministério da Saúde propôs que médicos se inscrevessem para trabalhar em áreas de necessidade, eu me inscrevi e fui para Roraima, no auge da pandemia. E lá estavam os meninos, como eu digo, os meninos do Médicos Sem Fronteiras (MSF). Trabalhamos no Hospital de Campanha e eu fiquei encantada com o trabalho deles. Há uma frase que eu gosto de dizer: ‘Dentro do peito de um bom médico, de uma boa médica, bate um coração de Médico Sem Fronteiras’.

Você entrou para o MSF aos 57 anos de idade?

Eu tenho 62 anos agora e comecei com 57 anos. Já fiz quatro projetos. Primeiro, eu fui para o Líbano. Foi uma coisa que veio bem a calhar com as minhas habilidades. Era para serem 6 meses, mas eu fiquei por 11 meses. Foi ótimo. Depois eu fui a Moçambique. Foi uma experiência incrível porque estar na África e falar português, é muito confortável. Era um projeto com doenças tropicais negligenciadas. Posteriormente, Congo e Quênia.

O que motivou sua entrada para o MSF foi esse contato com os meninos?

Sim, mas eu sempre tive esse desejo. Ao longo do tempo, fiz várias ações comunitárias, mas de curta duração. Fui para Honduras depois de um desastre natural que houve no país. Fui bolsista da Fundação Rotária mais de uma vez, também com esse viés, de ajuda humanitária. E aqui, enfim, eu sempre trabalhei no SUS, sempre trabalhei junto com as comunidades carentes, com os alunos. Mas o MSF sempre ficava naquela categoria de um sonho distante.

Você não se importou com a idade?

Então, é interessante falar sobre o que temos para oferecer nessa idade. É uma potência de vida e de trabalho diferente em relação a quando se é jovem. E por que? Porque nada mais nos surpreende. Depois de 40 e tantos anos trabalhando, nada me surpreende. E há ainda há minha capacidade de suportar frustrações. Acho que isso é algo importante.

Por quê?

Quando se trabalha num cenário em que os recursos são precários e as necessidades são grandes, é necessário certa capacidade de suportar frustrações, porque continuamos tendo expectativas. Acho que também tenho capacidade de adaptação, de flexibilidade, pois ao chegar ao local do projeto percebemos que é preciso adaptar o que se conhece a novas realidades. Então flexibilidade, capacidade de adaptação e de suportar frustrações, acho que tenho, bem como a capacidade de aprender. Também acho que temos um poder de escuta maior, de compaixão de se comover com o outro.

Denise Viuniski parada em frente de um avião da MSF com a porta aberta

Qual é o impacto de chegar e encontrar uma situação bem difícil, precária?

Eu acho que requer força psicológica, emocional. Os jovens têm energia e, sem dúvida, é ótimo trabalhar com eles. Mas também há necessidade de aguentar os perrengues. Para uma médica recém-formada, uma menina jovem, aguentar o alojamento, o calor extremo, as condições de trabalho acho que talvez seja mais difícil. Eu sempre tive essa capacidade de me adaptar rapidamente ao lugar, mas agora conforto não é a minha prioridade, em todos os sentidos. Eu acho que é um privilégio e uma oportunidade para nós, neste momento da vida, ainda acrescentarmos alguma coisa na nossa vida e na vida de quem precisa. 

Você mudou depois dessas experiências?

Muito. Quando voltamos, os valores são diferentes. Quando estamos, especialmente, na África, reconsideramos vários valores, como gente e como médica. Lembro que, em Moçambique, a expectativa de vida é de 54 anos. Enfim, ficamos mais perto do que é ser humano, ficamos mais sensíveis.

Sentiu dificuldade em deixar a vida aqui?

As pessoas sempre me perguntam, se é difícil e se eu não tenho medo. E eu respondo: eu tenho medo de não fazer isso. Sim, tenho medo de, enfim, ter a oportunidade e não ir… Mas sim, requer desprendimento e coragem. A vida requer coragem. 

Quanto tempo duram os projetos?

Os projetos envolvem de três a nove meses ou um ano. Três meses para os projetos de emergência, quando a situação é muito crítica, de guerra ou de desastre natural grave.  Eu fiz seis meses no Quênia, que eu acho que é bem razoável.A cada três meses de trabalho, temos uma semana de férias. 

Há um tempo específico entre as missões?

Estamos em um pool internacional de profissionais. Quando voltamos de um projeto, informamos, para o profissional que cuida da nossa carreira, a nossa disponibilidade. E esse profissional vai procurar na organização que é enorme, gigante, posições que calhem com as nossas habilidades e disponibilidade de tempo.

O contrato de trabalho é específico para a missão?

Exato. Temos um contrato com o MSF Internacional, são seis centros operacionais que contratam os profissionais para cumprir as necessidades nos diversos projetos. Desta última vez, fui para o Quênia, onde justamente estavam precisando de uma médica que tivesse no currículo cuidados de clínica médica.

Você continua trabalhando aqui?

Sim. trabalho no SUS. Até o ano passado, eu ainda lecionei na universidade. Desde que iniciei no MSF, quando eu volto, trabalho no hospital estadual Rudge Cardoso, em Balneário Camboriú. Eu moro em Itajaí, mas sou gaúcha de Passo Fundo.

Na volta, dá para se desligar emocionalmente?

Costumamos conversar. O MSF dá todo o suporte. Temos uma conversa com a psicóloga antes de ir e na volta. E, se for necessário, podemos recorrer a cuidados psicológicos durante as missões. Costumamos dizer entre nós que é uma montanha russa de emoções.

Por quê?

Há expectativa antes de ir e a despedida aqui. E chega lá, tudo é novo. Temos tempo de aprender o que o outro profissional que está saindo passa. E quando estamos trabalhando bem, já começamos a nos preparar para voltar. E aí sempre dá aquela aquela dorzinha, porque queremos voltar para casa, mas sabemos que aquela população tão carente, que estávamos ajudando e convivendo, vai ficar lá. E também há despedida dos colegas, dos amigos.

Você já passou por alguma experiência de perigo?

No Líbano, havia os  famosos checkpoints (barreiras), para chegar às clínicas onde trabalhávamos. Eram vários checkpoints do exército e era sempre tenso parar numa barreira com militares fortemente armados e a população também armada. Eles atiram para o ar muitas vezes, há os happy shootings, para comemorar casamentos, aniversários. O tempo todo havia alarmes para nos recolhermos para voltar mais cedo para o alojamento. 

Mas a situação de maior perigo foi no Congo, minha penúltima missão,  justamente em uma região onde está agora o surto de Ebola, na província de Ture, na fronteira com Ruanda, onde há um conflito entre entre tribos diferentes. O trabalho era em um campo de refugiados e deslocados pelo conflito e o projeto teve que ser fechado, porque houve uma invasão (armada) ao hospital. Ali a restrição de segurança era grande. Tinha que sempre andar nos carros do MSF, não era possível caminhar sem um rádio ou celular. Essas coisas que se vê nos filmes, nós vivíamos. 

Mãe com bebê no colo conversa com médica do MSF e outra médica
Atendimento clínico em Homa Bay County, no Quênia - Zainab MOhammed / MSF

Esse trabalho é um tipo de missão?

Eu acho que o médico tem vocação para trabalhar onde é necessário. Por isso, eu também digo que, no peito de um bom médico, bate um coração vocacionado. Eu acho que sim, que há um propósito. E eu gosto muito dessa ideia de amor como ferramenta política. Há certas situações, que só enfrentamos por amor, porque as pessoas estão submetidas a tantas necessidades, seja por conflitos, guerra ou problemas ambientais.  Acredito no amor como instrumento de mudança.

Como é a rotina nos projetos? 

Não é igual, mas existe um padrão MSF. Os projetos de emergência são diferentes dos projetos de rotina. Eu não estou no pool de emergência, o  meu perfil é de projetos estabelecidos, rotineiros. Então, vivemos – todo o pessoal estrangeiro – em um alojamento comum. Sempre que possível em um quarto individual. São raras às vezes, em ambientes muito inóspitos, que temos que compartilhar um quarto.

Há um padrão, a cama é boa, tem mosquiteiro e, quando possível, há um ventilador. Pode haver ar-condicionado, mas nem sempre. A refeição principal é comum. Saímos muito cedo para começar em um horário razoável para a população chegar e voltamos antes de anoitecer. Essa é uma regra de MSF, exceto em um perfil de emergência.

As turmas são grandes?

Por exemplo, nesse último projeto éramos 12 profissionais internacionais para 160, 180 profissionais quenianos. De 12, três, éramos 50+, ou seja, 25%. Eu acho que depois dos 50, temos um outro tempo. Já construímos família, trajetória profissional e temos tempo para viver e para contribuir, justamente onde as pessoas mais precisam. Isso é uma riqueza sem tamanho.

Como foi a experiência na África?

A África é muito comovente. O que eu mais gosto na África é o olhar das crianças.  Lá na tribo, longe de tudo e de todos, é um um olhar muito comovente de uma ingenuidade que as nossas crianças já não tem mais.  Também gosto do céu da África. É um céu que sentimos que  está sobre a gente. Em um local em que todos são negros, e eu, branca como sou, eles me chamavam muzungo, e aprendemos rapidamente o que é ser minoria,  o que é ser diferente. 

Também fazemos um esforço de não ter um pensamento de colonizador, no sentido de que estamos lá para para ampliar as capacidades da equipe local de cuidados e saber que, em algum momento, o MSF se retira e devemos deixar algo que seja sustentável para eles. Mas eu posso garantir, que recebi e aprendi muito mais do que eu fui capaz de ensinar ou deixar. Realmente, eu aprendi muito.

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