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Terremotos na Venezuela expõem tragédia de idosos isolados

Médico Sem Fronteiras (MSF)

Equipes de resgate buscam vítimas sobre os escombros de um prédio destruído pelo terremoto na Venezuela - Médico Sem Fronteiras (MSF)
Equipes de resgate buscam vítimas sobre os escombros de um prédio destruído pelo terremoto na Venezuela
Por Paula Bulka Durães

10/07/2026 | 19h07

São Paulo - Era fim de tarde de quarta-feira, 24 de junho de 2026. Em milhares de lares de Caracas e do balneário costeiro de La Guaira, famílias estavam reunidas para o feriado nacional em comemoração ao dia de São João e à histórica Batalha de Carabobo. Às 18h01, a terra tremeu de forma violenta.

Em menos de um minuto, dois terremotos consecutivos – de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter – atingiram o norte da Venezuela.

A rapidez e a violência do sismo sequencial não deram margem para reações coordenadas. Edifícios residenciais de 10 a 12 andares desabaram em um colapso do tipo "panqueca", no qual laje sobre laje ruiu de maneira fulminante, esmagando tudo o que estava abaixo.

Duas semanas após a catástrofe, o boletim oficial divulgado na quinta-feira, 9, pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, revelou a dimensão do desastre: 3.889 mortos confirmados, 17 mil feridos e ao menos 17.907 desabrigados.

Por trás dos números áridos, no entanto, esconde-se um drama demográfico e social. Devido à crise humanitária que assola a Venezuela há mais de uma década, a população mais velha tornou-se uma das parcelas mais vulneráveis, isoladas e desamparadas desse desastre.

O rápido envelhecimento venezuelano

Para compreender a alta letalidade entre as pessoas idosas, é preciso olhar para a reconfiguração demográfica. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o êxodo de 7,9 milhões de venezuelanos, a maioria em plena idade produtiva, entre 18 e 45 anos, transformou a pirâmide etária do país.

O diretor-geral da Associação Civil Convite, Luis Francisco Cabezas, dimensiona o impacto: "A migração nos últimos dez anos de aproximadamente 6 milhões de venezuelanos é como se você esvaziasse duas vezes praticamente toda a população do Uruguai".

A migração forçada fez com que as pessoas de mais idade ficassem para trás sem redes de apoio."
Desabrigados pelo terremoto na Venezuela sentam em colchões sob árvores enquanto equipes organizam doações ao fundo.
Desabrigados pelo terremoto na Venezuela sentam em colchões sob árvores enquanto equipes organizam doações ao fundo. - Médico Sem Fronteiras (MSF)

De um país jovem, a Venezuela envelheceu de forma acelerada devido à crise humanitária. Em 2025, estimava-se que existissem 51 indivíduos com mais de 60 anos para cada 100 menores de 15 anos no país.

Os dados são do relatório da Encuesta de Condiciones de Vida y Salud de las Personas Mayores (Enpoven), divulgado pela Convite A.C., organização dirigida por Cabezas.

Segundo o levantamento, 35% dos lares na Venezuela são habitados por uma pessoa idosa que vive sozinha ou por um casal da mesma faixa etária. Cabezas calcula que entre 350 mil e 380 mil pessoas idosas vivem em absoluta solidão no território nacional.

Isoladas e sem assistência física imediata, essas pessoas podem ter sido um dos principais grupos vitimados pelos abalos sísmicos de 24 de junho, que ainda carecem de dados estatísticos completos.

Sem preparo ou simulações de evacuação, o pânico empurrou os moradores mais velhos para a morte. Halima Husein, coordenadora médica da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), relata o horror vivido nos andares altos.

As escadas dos prédios altos foram as primeiras coisas que desabaram. Muitas vezes você vê o prédio ainda em pé, mas as escadas estão completamente destruídas. Muitas pessoas idosas que tentaram descer correndo foram soterradas ali."

Para aqueles com mobilidade reduzida – cerca de 15% dos cidadãos mais velhos do país –, a situação foi ainda mais cruel. "Nós tivemos pessoas da nossa equipe que desceram correndo com crianças nos braços. Mas para quem está em uma cadeira de rodas ou acamado no 10º ou 15º andar, como você vai carregá-los escada abaixo? Não há o que fazer."

Por que os tremores foram tão destrutivos?

A velocidade e a força do evento geológico não permitiram qualquer defesa. O sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), explica a raridade e a letalidade do fenômeno que atingiu o país vizinho.

Escombros de edifício desabado pelo terremoto bloqueiam rua com carros estacionados e fiação caída na Venezuela.
Escombros de edifício desabado pelo terremoto bloqueiam rua com carros estacionados e fiação caída na Venezuela. - Médico Sem Fronteiras (MSF)

"O primeiro abalo foi de magnitude 7,2 e, apenas 39 segundos depois, ocorreu o segundo tremor, de magnitude 7,5. Como a escala que usamos é logarítmica, esse segundo terremoto foi três vezes maior e mais forte em liberação de energia. As vibrações do primeiro ainda não tinham cessado quando veio o segundo."

A Venezuela está localizada sobre uma área tectonicamente ativa, na borda de atrito horizontal entre a placa Sul-Americana e a placa do Caribe. Contudo, o último tremor de proporções desastrosas foi registrado em outubro de 1900, com uma magnitude de 7,7 na escala Richter. Na época, o sismo também atingiu a costa norte do país, próximo a Caracas.

Nogueira ressalta que o grau de destruição foi potencializado por uma combinação trágica de fatores físicos e estruturais.

Foi a soma de tudo: o tremor ocorreu extremamente raso – nos primeiros 10 quilômetros da crosta terrestre –, muito próximo a uma alta densidade populacional, com a ocorrência de dois eventos subsequentes, e sobre uma infraestrutura urbana cujas condições de construção civil estavam muito abaixo da regulamentação de suporte a abalos."

Litoral mortal

Dezenas dos edifícios destruídos em La Guaira foram construídos pelo programa de habitação popular Gran Misión Vivienda, semelhante ao Minha Casa, Minha Vida brasileiro.

Edifício residencial de tijolos com andares desabados e estrutura severamente rompida após os terremotos na Venezuela.
Edifício residencial de tijolos com andares desabados e estrutura severamente rompida após os terremotos na Venezuela. - Médico Sem Fronteiras (MSF)

Embora ainda sejam muito precoces uma avaliação e perícia que responsabilize a infraestrutura, especialistas apontam que os materiais utilizados nas edificações não eram compatíveis com eventos geológicos extremos.

A concentração de vítimas de faixas etárias mais avançadas na costa também tem uma explicação socioeconômica. Historicamente, essa região de praias sempre atraiu aposentados que buscavam tranquilidade. Após o trágico deslizamento de terra ocorrido em 1999, os preços das propriedades locais despencaram.

"Isso fez com que muitas pessoas idosas vissem ali uma oportunidade para adquirir moradias baratas com suas poupanças de aposentadoria", esclarece Luis Francisco Cabezas.

É uma zona que potencialmente atrai essa população. Por isso, é altamente provável que uma grande proporção dos corpos que ainda estão nos necrotérios sem identificação pertença a pessoas idosas."

Sobreviver com menos de um dólar

Antes mesmo do desastre, a população com mais de 60 anos já vivia no limite devido ao colapso econômico. Segundo a pesquisa Enpoven 2025, a pensão oficial paga pelo governo equivale a 130 bolívares, valor que não chega a um dólar mensal.

Mesmo com a distribuição de bônus estatais pelo sistema Patria, a renda mensal desse grupo dificilmente ultrapassa 50 dólares.

Como consequência, 70% dos entrevistados afirmam que seus rendimentos não cobrem as despesas mais básicas, e 12% não recebem qualquer tipo de auxílio governamental ou familiar.

Para sobreviver, 32% dos aposentados confessaram ter recorrido ao consumo de vísceras, peles, ossos ou descartes animais para substituir proteínas de qualidade que já não podem pagar.

O acesso à saúde e à medicação básica é outra barreira quase intransponível:

  • 63% dessas pessoas sofrem de hipertensão arterial;
  • 22% possuem diabetes;
  • 82% necessitam de fármacos de uso contínuo, mas apenas 12% conseguem comprá-los com facilidade;
  • 62% adquirem as receitas médicas com extrema dificuldade;
  • 20% conseguem apenas uma parte dos remédios necessários;
  • 86% não possuem qualquer apólice de seguro de saúde privado.

"O salário mínimo deles é menos de um dólar. Como a pessoa vai comprar medicamentos se não tem o que comer?", indaga a coordenadora da organização Médicos Sem Fronteiras, Halima Husein.

Eles têm que escolher todos os dias: ou compro a comida ou compro o remédio para minha doença crônica. Essa é a realidade da Venezuela hoje."

Emergência sanitária

Nas duas semanas seguintes aos terremotos, a crise de saúde pública agravou-se de forma drástica. As altas temperaturas em La Guaira, que oscilam entre 32°C e 36°C, aceleraram a decomposição de corpos soterrados nos escombros dos edifícios que desabaram.

Profissionais de colete branco descarregam caixas de suprimentos de um veículo para as vítimas do terremoto.
Profissionais do Médico Sem Fronteiras descarregam caixas de suprimentos de um veículo para as vítimas do terremoto. - Médico Sem Fronteiras (MSF)

Com o colapso total do sistema de distribuição de água potável e de escoamento de esgoto, as cidades afetadas enfrentam uma grave iminência de contaminação generalizada.

"La Guaira transformou-se em um grande banheiro a céu aberto. O risco de contaminação cruzada da água e a decomposição dos corpos criaram uma emergência sanitária muito perigosa", alerta Cabezas.

Os serviços móveis de Médicos Sem Fronteiras já registram aumento expressivo em infecções de pele por falta de higiene, síndromes diarreicas graves causadas por águas contaminadas e complicações respiratórias agudas decorrentes da densa poeira de areia e concreto que paira sobre as zonas de resgate.

A ocorrência de mais de 300 réplicas sísmicas mergulhou os sobreviventes mais velhos em uma espiral de insônia e ansiedade crônica. "As pessoas não conseguem dormir. Há uma sensação constante de que tudo está se movendo e de que o próximo abalo virá a qualquer momento", descreve o diretor-geral.

Em meio à devastação, o Brasil mobilizou uma força-tarefa robusta, enviando 80 especialistas de busca, cães farejadores, 100 purificadores de água e um hospital de campanha que realizou mais de 1.200 atendimentos em dez dias. Contudo, a reconstrução das cidades venezuelanas exigirá mais do que cimento, defende Cabezas.

Os direitos não envelhecem. Não podemos pensar na reconstrução de cidades devastadas e na formulação de novas políticas públicas sem colocar na agenda que somos um país que abriga milhares de pessoas mais velhas que precisam de dignidade, acessibilidade e proteção."

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