Transição de carreira: profissionais 50+ descobrem a vida pós-crachá
Envato
São Paulo - Mudanças profundas na vida de uma pessoa são sempre um processo difícil e até doloroso. E quando se trata de transição de carreira de um profissional 50+, a questão se torna mais delicada. Principalmente quando envolve a construção da identidade profissional a partir do cargo ocupado nas empresas, o que pode ser um obstáculo importante no momento da transição. Mas quem já passou por isso diz que há, sim, vida após o crachá.
A mudança normalmente ocorre quando o profissional passa por uma demissão ou acerto para deixar o cargo ou prestes a se aposentar oficialmente. O problema surge quando o profissional perde a própria identidade e passa a se confundir com a função exercida. É quando o profissional passa a se definir pelo cargo que ocupa, explica o consultor, mentor de executivos e psicanalista corporativo Rogério Bragherolli.
Você acaba virando a função do seu crachá e não a pessoa que você era. Em vez de falar ‘eu sou diretor’, ‘eu sou gerente’, a pessoa deveria dizer ‘eu estou trabalhando como diretor, etc. O cargo tem fim e esse fim tem chegado mais rápido do que imaginamos”.
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Guinada após os 50 anos
Há também a virada por um desejo forte de mudança. Após 30 anos de carreira e 14 anos trabalhando na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) como secretária e assistente administrativa no Departamento de Comunicação, com forte relacionamento interno, Adriana Medeiros decidiu mudar radicalmente de vida aos 50 anos, buscando autonomia.
Ela relata que, apesar do bom salário e da segurança, chegou a um ponto de esgotamento. “Eu estava estagnada”, diz, acrescentando estresse, sinais da menopausa e o desejo de autonomia como fatores que a levaram a pedir demissão.
A transição não foi simples: após cinco meses de descanso, enfrentou desafios de mercado e crises de ansiedade, superados com terapia e a postura de estar "recalculando a rota".
Minha vida pós-crachá é intensa e libertadora, Uma nova fase marcada por propósito e novos desafios."
Aproveitando seu networking e seu perfil voltado a vendas, Adriana reinventou-se profissionalmente e hoje atua com relacionamento estratégico e assessoria de comunicação. Embora não tivesse um plano financeiro robusto, conta que sua estabilidade financeira permitiu a transição da vida CLT para a de empreendedora.
Como se preparar?
Bragherolli reforça a necessidade de encarar a realidade da finitude da carreira profissional. “Todo mundo vai passar por isso. A questão é estar preparado.” Para o consultor, uma estratégia para vencer o medo de perder o crachá consiste em construir planos alternativos para a vida profissional e pessoal.
E sugere desenvolver competências, sem esquecer do networking, para ter um plano B e um plano C, e fazer cursos de preparação. “E não estou falando apenas de trabalho, mas da vida após a carreira corporativa.”
Ele próprio passou por isso e conta sobre sua virada da vida corporativa - quando era vice-presidente de Recursos Humanos da Sodexo e ex-executivo da Philips - no livro “O Executivo que Tropeçou no Divã” (Editora Reflexão).
O planejamento para a transição de carreira deve começar cedo, quer ele venha por decisão própria ou por demissão. “Não é porque você tenta se segurar a qualquer custo que permanecerá mais tempo no trabalho”, diz.
Bragherolli ressalta que fatores como novas tecnologias, concorrência e mudanças econômicas têm reduzido o tempo de permanência nos cargos de liderança. Dados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que 322 mil posições de gerência foram extintas nos últimos seis anos.
"A partir dos 40 anos, a pessoa já precisa começar a se preparar e encarar essa realidade", defende.
Reivenção profissional
Foi o que aconteceu com Pitty Sarian, hoje à frente da Anthea Reimagine Midlife, empresa voltada a transição de carreira. Graduada em Administração com pós-graduação em Finanças, ela construiu uma carreira sólida e bem-sucedida de 20 anos no mercado financeiro. No entanto, por volta dos 42 anos, o cenário de estabilidade deu lugar à primeira grande crise de propósito.
Em busca de devolver à sociedade os privilégios que acumulou, ela migrou para o terceiro setor, atuando com sustentabilidade e ONGs. Nos 13 anos seguintes, consolidou-se como conselheira de empresas, costurando a estratégia de negócios ao impacto socioambiental. Há cerca de quatro anos, o chamado interno por algo ainda mais humano ecoou novamente.
“É doloroso pensar em recomeçar, principalmente por toda a questão de identidade que vai embora junto com o crachá quando saímos da vida corporativa", diz.
Segundo a executiva, a carreira fornece muito mais do que um salário ou um título. "Ela fornece estrutura, ritmo, pertencimento, propósito — e, talvez mais do que tudo, uma resposta imediata para a pergunta mais antiga: quem sou eu? O crachá responde antes que a pergunta termine".
Ao estudar sobre transições, legado e reinvenção profissional, Pitty percebeu que sua inquietação não era um caso isolado. Quase toda a sua rede de contatos na mesma faixa etária enfrentava tempestades perfeitas, onde múltiplos desafios convergem ao mesmo tempo.
De um lado, havia profissionais sofrendo com o etarismo e não conseguindo recolocação; de outro, executivos no auge do sucesso, que sentiam um vazio profundo e percebem que o status já não responde às suas principais perguntas. O que ela busca com a criação da Anthea é ajudar profissionais a ressignificar a segunda metade da vida, trazendo valor e o indispensável brilho no olho.
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