CONFIRA

Renda e raça determinam como o brasileiro envelhece, apontam gestores

Os especialistas lembraram que 69% dos pretos e pardos não têm acesso a saneamento básico, grupo que representa cerca de 56% da população

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

25/09/2026 | 18h47 ● Atualizado | 18h50

Marcos Hiroshi/VIVA

Secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva vê mudança cultural no combate ao idadismo - Marcos Hiroshi/VIVA
Secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva vê mudança cultural no combate ao idadismo
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A diferença na expectativa de vida entre moradores de bairros nobres e periféricos no Brasil pode chegar a oito anos, evidenciando desigualdades sociais que afetam o envelhecimento da população. O painel do 8º Fórum e Festival da Longevidade abordou como raça, classe e território influenciam a qualidade de vida dos idosos.

Dados alarmantes foram apresentados, como o fato de que 69% da população negra e parda não tem acesso a saneamento básico, refletindo a falta de investimento público em áreas vulneráveis. Em comunidades como Heliópolis, a maioria dos idosos que buscam atendimento médico são mulheres negras em condições precárias.

Os gestores públicos enfatizaram a necessidade de políticas integradas que conectem ações em nível nacional e municipal para enfrentar essas desigualdades. A discussão também destacou a importância de valorizar e reconhecer o trabalho das cuidadoras, muitas vezes mulheres negras de baixa renda, que enfrentam desafios significativos em suas funções.

Resumo gerado por IA

São Paulo - A diferença na expectativa de vida entre quem habita bairros nobres e periféricos do Brasil pode chegar a oito anos.

O abismo estatístico deu o tom da abertura do painel "Longevidade para todos: renda, território, raça e acesso", nesta sexta-feira, 25, no 8º Fórum e Festival da Longevidade. ,Realizado na Bienal do Ibirapuera, o evento discute, nos cenários nacional e internacional, políticas públicas, econômicas, culturais, de saúde e de bem-estar voltadas ao envelhecimento.

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A palestra reuniu gestores públicos para cutucar uma ferida incômoda: no Brasil, o processo de envelhecimento é atravessado por marcadores de raça, classe e território.

Para o secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, a mudança cultural de combate ao idadismo é visível, mas ainda insuficiente perante o tamanho do desafio.

"O que mudou é que hoje as pessoas já falam sobre isso, isso já começa a fazer parte do vocabulário", destacou. Contudo, ele enfatizou a necessidade de perenidade: "Não podemos atrelar a política da pessoa idosa a uma gestão".

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A renda dita o envelhecimento saudável

A líder da Ashoka, Marília Duque, mediou o painel - Marcos Hiroshi/VIVA

A realidade da população idosa brasileira é fortemente atrelada ao território. É no bairro, no município rural e na periferia que a falta de investimento público se transforma em adoecimento precoce.

Durante a mesa, os especialistas lembraram que 69% da população preta e parda não têm acesso a saneamento básico, grupo que representa cerca de 56% da população total do País.

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A disparidade foi ilustrada com relatórios de atendimento de saúde em comunidades como Heliópolis, em São Paulo (SP), onde a maioria das pessoas com 60 anos ou mais que chegavam para atendimento eram mulheres negras já acamadas. O dado foi apresentado pela coordenadora de Promoção da Igualdade Racial da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São Paulo, Josie Priscila.

"A pergunta que ficou no ar quando me deparei com aquele relatório é: por quê?" A resposta, segundo a coordenadora, está nas intersecções que ditam o envelhecer no País.

A renda interfere na escolha alimentar, naquilo que eu posso comer e ter para fazer uma atividade física."
Josie Priscila Pereira de Jesus, coordenadora de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de São Paulo

A exclusão também ganha contornos tecnológicos. Na periferia de São Paulo, no bairro do Canindé, o Rancho do Souza faz fronteira com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), porém, separados por um abismo social.

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Durante o painel, destacou-se que o público idoso da comunidade, mesmo vizinho a um centro tecnológico, sofre justamente com o vazio digital. Sem acesso à conectividade, essas pessoas dependem de um agente externo para realizar pagamentos ou pedir um carro de aplicativo, segundo a líder da Ashoka, Marília Duque.

E se as cuidadoras fossem brancas?

O setor da economia do cuidado é impactado por mulheres negras de baixa renda que cuidam de outras famílias enquanto as suas próprias envelhecem desprotegidas.

Diante do idadismo e do racismo estrutural, a mesa trouxe uma provocação sobre o reconhecimento social da profissão: "E se quem cuidasse das pessoas fossem pessoas de pele clara?", questionou Josie Priscila.

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A questão expôs como a sociedade brasileira naturalizou a exploração e a desvalorização das cuidadoras negras. Sem suporte governamental, formação adequada e remuneração justa, a atividade de cuidar converte-se em um vetor de adoecimento físico e mental.

"O cuidado passa por uma questão de raça, formação e reconhecimento na sociedade. A pessoa que cuida muitas vezes não vai ter condições e tempo, tornando o cuidado uma violação da pessoa que cuida", complementou Alexandre da Silva.

Inclusão ampla e políticas de Estado

Para reverter esse cenário, os gestores defenderam a ação integrada nos territórios. "Nós passamos a buscar um grande alinhamento para que os programas tenham resultado e conectem o nível nacional aos municípios", destacou o secretário.

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