CONFIRA

"A longevidade pode se tornar a nova desigualdade", diz cientista de Oxford

A visão da longevidade como um gasto para os governos e para a iniciativa privada pode fomentar a segregação pela idade em países emergentes

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

25/09/2026 | 13h58

Felipe Cavalheiro/VIVA

Hoffmann defende que o cuidado na velhice seja visto como investimento social - Felipe Cavalheiro/VIVA
Hoffmann defende que o cuidado na velhice seja visto como investimento social
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O sociogerontólogo Jaco Retief Hoffmann alertou que a longevidade pode se tornar uma nova forma de desigualdade, especialmente em países emergentes que enfrentam um rápido envelhecimento populacional, refletindo as disparidades sociais persistentes do colonialismo.

No Brasil, a transição demográfica está acelerada, com a previsão de que até 2030, a população com 60 anos ou mais superará a de crianças até 15 anos, evidenciando desigualdades no acesso a uma velhice digna e saudável.

Durante o 8º Fórum e Festival da Longevidade, especialistas discutiram a necessidade de transformar a percepção do envelhecimento de um custo para um investimento social, além de enfatizar a importância de políticas integradas de saúde mental para enfrentar o aumento das taxas de suicídio entre idosos.

Resumo gerado por IA

São Paulo - "A longevidade pode se tornar a nova desigualdade no mundo", disse o sociogerontólogo sul-africano Jaco Retief Hoffmann, professor da North-West University e pesquisador da Universidade de Oxford.

Reflexo de um mundo contemporâneo em que as discrepâncias sociais, ainda remanescentes do colonialismo e do imperialismo, estão longe de serem sanadas, o cientista social enxerga nos horizontes um possível novo alvo da segregação: a população idosa.

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Enquanto a África do Sul conseguiu o feito político de extinguir o apartheid racial da legislação — mas não do contexto social, uma vez que as violências raciais permanecem, segundo o pesquisador —, a visão da longevidade como um gasto para os governos e para a iniciativa privada pode fomentar a segregação pela idade em países emergentes que envelhecem rapidamente.

A fala foi proferida no 8º Fórum e Festival da Longevidade, evento no Parque Ibirapuera que discute, nos cenários nacional e internacional, políticas públicas, econômicas, culturais, de saúde e de bem-estar voltadas ao envelhecimento.

O painel "A longevidade pode se tornar a nova desigualdade", da tarde de quinta-feira, 24, reuniu a consultora para Envelhecimento Saudável e Saúde Mental da OPAS/OMS, Maria Cristina Hoffman, e o professor para discutir o cenário do envelhecimento no mundo e na América Latina.

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"Viver mais é uma das maiores conquistas da humanidade, mas viver mais não significa necessariamente ter qualidade de vida, e certamente não significa igualdade."
Jaco Retief Hoffmann, pesquisador da Universidade de Oxford

Para o especialista, essa fase da vida não é um fenômeno isolado, mas o ponto de convergência onde se escancaram todas as disparidades sociais, econômicas e educacionais acumuladas ao longo da jornada humana.

Como superar a ideia do envelhecimento como custo?

No contexto sul-africano, o professor Jaco Hoffmann apontou que o maior obstáculo atual não é a escassez de dados ou a falta de diagnósticos, mas sim a incapacidade de converter marcos regulatórios em transformações reais para as famílias.

Para Hoffmann, é preciso superar a lógica tradicional que trata o envelhecimento como encargo financeiro. "Quando a longevidade é discutida apenas na linguagem de custos de saúde e de cuidados, abre-se um caminho curto para enxergar a população idosa como um fardo."

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Em contrapartida, o cuidado deve ser compreendido como um investimento social e econômico intergeracional, no qual o apoio a uma geração gera retornos diretos para os jovens, para as famílias e para a comunidade, segundo o pesquisador.

O direito de envelhecer no Brasil

Consultora Maria Cristina Hoffman de óculos e blusa azul fala ao microfone no Fórum da Longevidade.
Consultora Maria Cristina Hoffman: "Infelizmente, no Brasil, nem todo mundo tem o direito de envelhecer" - Felipe Cavalheiro/VIVA

Ao trazer a pauta para o contexto nacional, Maria Cristina Hoffman detalhou o ritmo acelerado das transições demográfica e epidemiológica vividas pelo Brasil.

Ela destacou que o País passará por uma mudança profunda até 2030, quando o número de pessoas com 60 anos ou mais superará o de crianças e adolescentes de até 15 anos — uma realidade que mais de 1.300 municípios brasileiros já vivenciam hoje.

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A psicóloga fez um alerta contundente sobre as profundas assimetrias sociais. "Infelizmente, no Brasil, nem todo mundo tem o direito de envelhecer." Apesar de a expectativa de vida média ter alcançado 76,8 anos, a representante diz que existe um descompasso em relação à expectativa de vida saudável.

A saúde mental e a prevenção ao suicídio também ganharam centralidade. Maria Cristina revelou que as maiores taxas de suicídio no Brasil concentram-se entre adolescentes indígenas e entre homens com mais de 70 anos.

Por ser um fenômeno multifatorial — frequentemente associado ao isolamento e à perda do papel social —, o enfrentamento exige políticas de saúde mental integradas ao combate ao idadismo.

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