"A longevidade pode se tornar a nova desigualdade", diz cientista de Oxford
A visão da longevidade como um gasto para os governos e para a iniciativa privada pode fomentar a segregação pela idade em países emergentes
Felipe Cavalheiro/VIVA
O sociogerontólogo Jaco Retief Hoffmann alertou que a longevidade pode se tornar uma nova forma de desigualdade, especialmente em países emergentes que enfrentam um rápido envelhecimento populacional, refletindo as disparidades sociais persistentes do colonialismo.
No Brasil, a transição demográfica está acelerada, com a previsão de que até 2030, a população com 60 anos ou mais superará a de crianças até 15 anos, evidenciando desigualdades no acesso a uma velhice digna e saudável.
Durante o 8º Fórum e Festival da Longevidade, especialistas discutiram a necessidade de transformar a percepção do envelhecimento de um custo para um investimento social, além de enfatizar a importância de políticas integradas de saúde mental para enfrentar o aumento das taxas de suicídio entre idosos.
São Paulo - "A longevidade pode se tornar a nova desigualdade no mundo", disse o sociogerontólogo sul-africano Jaco Retief Hoffmann, professor da North-West University e pesquisador da Universidade de Oxford.
Reflexo de um mundo contemporâneo em que as discrepâncias sociais, ainda remanescentes do colonialismo e do imperialismo, estão longe de serem sanadas, o cientista social enxerga nos horizontes um possível novo alvo da segregação: a população idosa.
Leia também
Enquanto a África do Sul conseguiu o feito político de extinguir o apartheid racial da legislação — mas não do contexto social, uma vez que as violências raciais permanecem, segundo o pesquisador —, a visão da longevidade como um gasto para os governos e para a iniciativa privada pode fomentar a segregação pela idade em países emergentes que envelhecem rapidamente.
A fala foi proferida no 8º Fórum e Festival da Longevidade, evento no Parque Ibirapuera que discute, nos cenários nacional e internacional, políticas públicas, econômicas, culturais, de saúde e de bem-estar voltadas ao envelhecimento.
O painel "A longevidade pode se tornar a nova desigualdade", da tarde de quinta-feira, 24, reuniu a consultora para Envelhecimento Saudável e Saúde Mental da OPAS/OMS, Maria Cristina Hoffman, e o professor para discutir o cenário do envelhecimento no mundo e na América Latina.
"Viver mais é uma das maiores conquistas da humanidade, mas viver mais não significa necessariamente ter qualidade de vida, e certamente não significa igualdade."
Jaco Retief Hoffmann, pesquisador da Universidade de Oxford
Para o especialista, essa fase da vida não é um fenômeno isolado, mas o ponto de convergência onde se escancaram todas as disparidades sociais, econômicas e educacionais acumuladas ao longo da jornada humana.
Como superar a ideia do envelhecimento como custo?
No contexto sul-africano, o professor Jaco Hoffmann apontou que o maior obstáculo atual não é a escassez de dados ou a falta de diagnósticos, mas sim a incapacidade de converter marcos regulatórios em transformações reais para as famílias.
Para Hoffmann, é preciso superar a lógica tradicional que trata o envelhecimento como encargo financeiro. "Quando a longevidade é discutida apenas na linguagem de custos de saúde e de cuidados, abre-se um caminho curto para enxergar a população idosa como um fardo."
Em contrapartida, o cuidado deve ser compreendido como um investimento social e econômico intergeracional, no qual o apoio a uma geração gera retornos diretos para os jovens, para as famílias e para a comunidade, segundo o pesquisador.
O direito de envelhecer no Brasil
Ao trazer a pauta para o contexto nacional, Maria Cristina Hoffman detalhou o ritmo acelerado das transições demográfica e epidemiológica vividas pelo Brasil.
Ela destacou que o País passará por uma mudança profunda até 2030, quando o número de pessoas com 60 anos ou mais superará o de crianças e adolescentes de até 15 anos — uma realidade que mais de 1.300 municípios brasileiros já vivenciam hoje.
A psicóloga fez um alerta contundente sobre as profundas assimetrias sociais. "Infelizmente, no Brasil, nem todo mundo tem o direito de envelhecer." Apesar de a expectativa de vida média ter alcançado 76,8 anos, a representante diz que existe um descompasso em relação à expectativa de vida saudável.
A saúde mental e a prevenção ao suicídio também ganharam centralidade. Maria Cristina revelou que as maiores taxas de suicídio no Brasil concentram-se entre adolescentes indígenas e entre homens com mais de 70 anos.
Por ser um fenômeno multifatorial — frequentemente associado ao isolamento e à perda do papel social —, o enfrentamento exige políticas de saúde mental integradas ao combate ao idadismo.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora

