CONFIRA

Maestro João Carlos Martins fala de resiliência e da arte de se reinventar

Aos 86 anos, pianista tem a vida marcada por superações, desde acidentes até o câncer, sempre encontrando na música seu refúgio e motivação

Adriana Del Ré

Por Adriana Del Ré

17/10/2026 | 10h00 ● Atualizado | 10h21

Divulgação/Ale Catan

João Carlos Martins tem uma longa trajetória marcada por glórias, mas também inúmeras batalhas - Divulgação/Ale Catan
João Carlos Martins tem uma longa trajetória marcada por glórias, mas também inúmeras batalhas
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João Carlos Martins, renomado pianista e maestro brasileiro, enfrenta desafios de saúde, incluindo um diagnóstico recente de câncer de próstata, mas continua a se apresentar e a inspirar com sua música, refletindo sobre sua longa carreira de quase 80 anos.

Martins superou diversas adversidades ao longo da vida, como um acidente que prejudicou sua mão e uma lesão cerebral, mas encontrou novas formas de se reinventar, incluindo o uso de luvas biônicas que lhe permitiram voltar a tocar piano.

Recentemente, ele estreou o espetáculo 'O Pianista e o Poeta' e está investindo na formação de novas gerações de músicos por meio de uma metodologia inovadora de musicalização infantil, buscando deixar um legado duradouro na música.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Na ampla sala do apartamento de João Carlos Martins, em São Paulo, onde o maestro recebeu a reportagem do VIVA, está uma pequena amostra de sua longa história de carreira, em objetos, quadros e no piano estrategicamente posicionado perto da janela de vidro que deixa a luz do dia entrar ininterruptamente. Mas observá-lo sentar diante do instrumento e tocar ali, na intimidade de seu lar, dá a real dimensão de como música, vivência (e sobreviência), resiliência e superação moldaram uma vida inteira.

Foram muitas glórias conquistadas, mas também inúmeras batalhas travadas em quase 80 anos de carreira de um dos mais importantes pianistas da história do Brasil, com reconhecimento internacional – começou a se apresentar aos 8 anos. Recentemente, o maestro passou por sessões de radioterapia, procedimento que faz parte dos cuidados médicos após ter sido diagnosticado, em 2025, com câncer na próstata. 

Tem duas formas de você encarar a adversidade: ou você salta para um abismo ou constrói uma plataforma para voar mais alto.
João Carlos Martins

A vida marcada por desafios fez com que Martins os encarasse de maneira resiliente. Aos 25 anos, ele sofreu um acidente em uma partida de futebol no Central Park, em Nova York, que atingiu o nervo ulnar no cotovelo e causou atrofia em três dedos da mão direita. Poucos anos depois, veio o diagnóstico de distonia focal do músico, condição neurológica rara que faz com que os músculos das mãos sofram contrações involuntários.

Aos 55 anos, outro baque: durante um assalto, foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, o que provocou uma lesão cerebral que comprometeu os movimentos do braço e da mão direita. Obrigado a se aposentar do piano, aos 63, ele se reinventou e se tornou maestro.

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Gabriel Chalita está sentado, falando, enquanto é observado por João Carlos Martins, que está sentado em frente ao piano
Gabriel Chalita e João Carlos Martins no espetáculo "O Pianista e o Poeta" - Divulgação/Fecomércio AM

Quase 20 anos depois, em 2020, uma nova esperança o tirou da aposentadoria: o designer industrial brasileiro Ubiratan Bizarro Costa desenvolveu um par de luvas biônicas especialmente para ele, permitindo que voltasse a encostar os dez dedos no piano e tocasse novamente.

Nos bons e nos maus momentos, é na música que o maestro encontra seu refúgio. No início deste mês, ele estreou o espetáculo "O Pianista e o Poeta", ao lado do escritor Gabriel Chalita, em cartaz no Teatro FAAP, em São Paulo. No palco, obras de Bach, Chopin, Schubert, Morricone e Ginastera dialogam com textos de renomados autores, como Cora Coralina, Simone de Beauvoir, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, entre outros.

Aos 86 anos, João Carlos Martins fala sobre desafios que enfrentou na vida e carreira, o hábito de se reinventar e a paixão inegociável de viver pela música.

VIVA Entrevista

São quase 80 anos de carreira. Olhando para trás, qual é a principal diferença entre o jovem pianista do início de carreira com o maestro que sobe ao palco hoje?

Vou fazer uma comparação pequena. No primeiro concerto que dei como pianista profissional aos 13 anos, todo mundo estava presente: Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Villa-Lobos, porque meu nome era muito falado. Toquei um recital enorme em três partes, demorou 2h10 praticamente: Bach, Haydn, Chopin, Schumann. Posso falar que o concerto saiu perfeito, com exceção de um compasso: dei as notas e eu esbarrei. Não dormi aquela noite por causa das duas notas.

Em agosto deste ano, regi a Nona de Beethoven, o último movimento, “Ode à Alegria”, que é o grande movimento da Nona. Deve ter cerca de 1 mil compassos. Não gostei de como foi a regência de um compasso em 1 mil. Só por causa de um compasso, eu não conseguia dormir até as 3h da madrugada. Quer dizer que a forma, a procura do perfeccionismo com emoção faz parte do meu DNA desde criança.

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Sua história é marcada por se reinventar diante das limitações. Como trabalhou isso para não deixar que a perda da mobilidade definisse o fim da sua relação com a música?

Maestro João Carlos Martins está regendo Bachiana Filarmônica SESI-SP
João Carlos Martins regendo a Bachiana Filarmônica SESI-SP - Divulgação/Fernando Mucci

Foram 31 cirurgias, a maioria nas mãos. Tenho distonia focal do músico desde os 16 anos. Aos 22, quando estava gravando, eu chegava ao meu apartamento de Nova York e tinha que deitar numa banheira, porque sentia um movimento involuntário. Conversei com médicos americanos e eles falaram: "Deve ser psicológico.” Eu sabia que não era psicológico.

De manhã, às 7h, eu não tinha nenhum problema de movimento involuntário. Depois de três horas, começava a perceber esses movimentos. Telefonei para meu empresário e falei: "Em todos os teatros onde tenho concerto, marque que vou chegar seis horas antes. Tem que ter um sofá grande ou uma cama no camarim. Vou dormir até 15 minutos antes do concerto e aí vocês me acordem.” E eu entrava no palco como se fosse 7h da manhã em casa. Assim aprendi a driblar o cérebro.

E depois?

A distonia também causava dor. A dor ficou tão intensa que tive que suspender a carreira. Entrei em uma banheira para me suicidar com quase 30 anos, com uma gilete. Só que tocou o telefone no meu quarto. Fui atender e era o meu antigo professor russo de piano. Ele conversou uma hora comigo. Moral da história: voltei, joguei a gilete fora e passei a ser talvez o cara com o maior amor à vida que você possa conhecer. Tem duas formas de encarar a adversidade: ou você salta para um abismo ou constrói uma plataforma para voar mais alto. 

O que esse seu professor falou que foi fundamental para sua salvação naquele momento?

A distorção focal do músico pode migrar do lado direito para o esquerdo. Meu problema era só no lado direito. Ele falou para mim: "Tem repertório para mão esquerda, você tem muita chance”. Ele mostrou: tem alternativa, mas continue na música. Nunca nem me passou pela cabeça ser maestro. Preferi me afastar e passar um tempo sabático até voltar para a música.

Foi nesse período sabático que decidiu empresariar o pugilista Éder Jofre?

Sim, primeiro porque eu adorava o (pugilista norte-americano) Muhammad Ali. Segundo lugar, porque de manhã eu tinha saudade de música, mas não queria ouvir música. Então, peguei uma profissão totalmente oposta à música.

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E você e o Éder já se conheciam?

Não, foi por acaso. Entrei no prédio do meu pai, encontrei com ele no elevador e falei: "Éder, você tem que recuperar o título mundial". Ele falou: "Estou com 37 anos”. Eu não entendia nada de boxe. Mas falei: "Se você quiser, eu patrocino a tua luta." No dia seguinte, surpreendentemente, ele me telefonou e falou: "Vou começar a treinar." Comecei a procurar as pessoas mais ligadas ao boxe, consegui organizar lutas para o Éder com ajuda delas. Consegui trazer o campeão mundial para lutar no Brasil e o Éder recuperou o título.

Quando vi o juiz levantar mão do Éder, falei para mim mesmo: "Se ele recuperou o título mundial, tenho que voltar para o piano. Vou fazer de tudo: mudar posições, tratamento. Quero voltar ao Carnegie Hall".

No ano passado, você falou sobre seu diagnóstico de câncer na próstata. Este ano, o câncer voltou. Como está o tratamento?

Quando acabei de reger a Nona Sinfonia de Beethoven, em agosto, olhei para o público e falei: "Tenho uma boa e uma má notícia para vocês. A boa notícia é que amanhã vou fazer minha primeira sessão de radioterapia. A má notícia é que vocês vão ter que me aguentar por muitos anos ainda." Fiz três radioterapias de imediato, porque é só um foco que tem. Realizei o exame de PSA (antígeno prostático específico) para ver se migrou para algum lugar, e está dentro do previsto pelos médicos. 

Tenho certeza que não vou morrer de câncer. Se eu morrer, vou morrer no palco regendo.

Como lida com essa volta ao tratamento?

Como acredito em espiritismo por causa da minha mãe, que era médium, encaro hoje vida e morte com a maior naturalidade. Vida sempre com a intenção de tentar deixar um legado e morte como uma espécie de missão cumprida.

A chegada das luvas biônicas foi transformadora?

Não tenho nem 10% da digitação que eu tinha, mas pude encostar os dez dedos no teclado. Nesses quase sete anos, elas acabaram moldando as minhas mãos. Então, posso até brincar no piano sem as luvas, inclusive, mas durmo com a luva. Uso 24 horas por dia, só tiro para tomar banho. Elas têm um significado enorme, porque eu só podia usar os dois polegares e depois pude encostar todos os dedos no teclado. No dia seguinte em que toquei pela primeira vez com as luvas biônicas, Viola Davis, Michelle Pfeiffer, Charlize Theron, todo esse pessoal compartilhou e acabou dando 33 milhões de visualizações no mundo. Toquei uma música muito bonita de Bach, lenta. 

Como vê a responsabilidade de formar novas gerações de músicos?

Montei uma metodologia de musicalização infantil ao lado do meu coordenador, Eduardo Maueski. Estamos trabalhando nisso há seis anos. Mas finalmente, no ano passado, me senti em condições de botar o trem no trilho. E o resultado: fiz uma escola-piloto, invertendo o sistema. Não tentar ensinar música para uma criança. O que uma criança gosta de fazer? Brincar. Por meio de uma brincadeira, a criança procura a música.

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Nas primeiras 40 aulas, a criança só tem como instrumento uma folha de papel sulfite, copinho plástico e varetas. Então, tudo começa com brincadeiras. No México, vai começar já no ano que vem com milhares de alunos.

Digo que a minha carreira de pianista começou aos 8 anos, de maestro, aos 63 e de educador musical, aos 85. Talvez possa falar que estou tentando deixar um legado.

Mas, no Brasil, já é aplicada em escolas públicas, não?

Já estamos com mais de 15 mil alunos, mas quero alcançar o Brasil inteiro. A criança vai ganhando amor à música sem perceber.

Para você, a música começou de uma forma lúdica também?

Começou de uma forma espírita. Com 6 anos, eu já tinha realizado três cirurgias no pescoço por causa de um cisto. Sofri bullying na escola porque vazava pus no meu pescoço. Meu pai comprou um piano e minha mãe era espírita. Toda segunda-feira, tinha sessão espírita na minha casa. Minha mãe era médium. No dia em que ele comprou um piano, baixou o espírito de Giuseppe Verdi. Minha mãe, falando italiano, olhou para mim e disse: "Você vai ser um grande músico.” Só sei que 15 dias depois eu estava tocando o primeiro movimento da Sonata ao Luar, de Beethoven. Se você pergunta: "É espiritismo?", te respondo: "Não sei. É um mistério."

Estar no palco exige muito fisicamente. Como se prepara?

Fico o dia inteiro deitado. Acabo o almoço, fico no escuro, deitado, só me concentrando, porque acho que o artista, antes de tudo, é um missionário. O artista tem que subir no palco e o público tem que sair com uma lágrima nos olhos e um sorriso nos lábios. Tem a missão de transmitir emoção. Se subo no palco simplesmente para cumprir tabela, prefiro ser qualquer outra profissão a não ser músico.

Faz musculação?

Agora, aos 86 anos, entrei numa academia pela primeira vez. Estou gostando. É aqui em frente (ao prédio onde mora). Só atravessar a rua. Se fosse longe, talvez eu não iria. Três vezes por semana na academia e nos outros dias aqui em casa mesmo eu faço meia hora de ginástica, musculação e ando daqui até lá e volto. 

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O segredo da longevidade é ter um propósito de vida?

É você não só ter um propósito de vida, mas ter atitudes. Tem que mostrar que acredita em longevidade não só para você: você tem que inspirar pessoas para a longevidade. É a razão pela qual, além da Bachiana Filarmônica Sesi SP, criei a Bachiana Jovem e a Bachiana Sênior, para músicos que acabaram de se aposentar. Então, estou realizando um sonho. 

Serviço

  • "O Pianista e o Poeta"
  • Data: 21 e 22 de outubro, quartas e quintas feiras, às 20h
  • Local: Teatro FAAP
  • Endereço: Rua Alagoas, 903, Higienópolis
  • Ingressos: Plateia R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada) / Mezanino R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada)
  • Vendas na bilheteria: de quarta a sábado, das 14h às 20h; domingos, das 14h às 17h; em dias de espetáculo, a bilheteria permanece aberta até o início do espetáculo.
  • Vendas online: site do Teatro FAAP

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