CONFIRA

Maria Mariana resgata 'Confissões de Adolescente' em livro e musical

Texto da escritora e atriz marcou geração de adolescentes nos anos 1990 com montagem de peça e série clássica exibida na TV Cultura

Adriana Del Ré

Por Adriana Del Ré

01/10/2026 | 08h58

Divulgação/Luísa Lorenzi

A atriz e escritora Maria Mariana, autora do clássico "Confissões de Adolescente" - Divulgação/Luísa Lorenzi
A atriz e escritora Maria Mariana, autora do clássico "Confissões de Adolescente"
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A série 'Confissões de Adolescente', que estreou em 1994, retorna com uma nova edição do livro e um musical inédito, reafirmando seu impacto cultural ao abordar as experiências de adolescentes através de quatro irmãs.

O projeto, que começou no teatro, vendeu mais de 250 mil cópias e se tornou um fenômeno ao dar voz aos dilemas da adolescência, refletindo sobre temas como relações familiares e descobertas pessoais em um contexto carioca.

Com a nova adaptação, a autora Maria Mariana busca dialogar entre gerações, abordando a evolução das relações familiares e os desafios enfrentados pelos adolescentes contemporâneos, enquanto um musical estreia em breve no Rio de Janeiro.

Resumo gerado por IA

São Paulo - A voz de Gilberto Gil cantando "Sina", sua bela releitura da canção de Djavan, era o prenúncio de que estava começando, na TV Cultura, mais um episódio da série brasileira "Confissões de Adolescente". Era a hora dos espectadores adolescentes que estavam em casa pararem tudo para assistir às aventuras e desventuras de quatro irmãs, com seus conflitos, descobertas e dilemas típicos dessa faixa etária. 

Inspirada na peça homônima da atriz e escritora Maria Mariana, a produção estreou na TV no dia 22 de agosto de 1994, repetindo o sucesso conquistado no teatro. O texto também virou fenômeno editorial, com mais de 250 mil livros vendidos. Agora, 34 anos depois da versão teatral, "Confissões" ganha uma nova edição pela Maquinaria Editorial e também o formato de musical.

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Sinto que as pessoas têm interesse em me ver de volta. E ficam muito intrigadas para saber onde eu estava. Existe vida fora da rede social"
Maria Mariana, autora de "Confissões de Adolescente"

Memória afetiva dos anos 1990

As quatro atrizes da série Confissões de Adolescente estão lado a lado, sorrindo
A série "Confissões de Adolescente" fez sucesso entre 1994 e 1995 na TV Cultura - Divulgação/TV Cultura

Tudo começou em 1992, no porão do Teatro Laura Alvim, no Rio, onde Maria Mariana tinha como companheiras de cena Ingrid Guimarães, Carol Machado e Patrícia Perrone. Mas foi na transição para a TV que "Confissões" virou memória afetiva coletiva ao alcançar um público maior.

Na série, Maria Mariana, Georgiana Góes, Daniela Valente e Deborah Secco viviam as irmãs Diana, Bárbara, Natália e Carol, de classe média em Ipanema, na zona sul carioca, cuidadas com carinho e cumplicidade pelo pai solo Paulo, interpretado pelo ator Luis Gustavo. A direção era de Daniel Filho. 

Luis Gustavo era inspirado na figura do próprio pai da escritora, o célebre cineasta Domingos Oliveira, que a estimulou a colocar em diários o que a atravessava como uma garota adolescente. Temas como sexo, primeiro beijo e relações familiares eram tratados com delicadeza, tendo a ensolarada cidade do Rio de Janeiro como cenário.

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A série teve uma segunda temporada na Band em 1996, com Camila Capucci no lugar de Deborah Secco. Em 2014, deu origem a filme com Sophia Abrahão, Bella Camero, Malu Rodrigues e Clara Tiezzi (disponível na Prime Video).

Impactada pelo sucesso de seu texto em diferentes formatos, Maria voltou à Globo para integrar elenco de séries, e ser autora em "Malhação" e outros seriados. Depois, ela saiu de cena para se dedicar aos quatro filhos, hoje com 26, 24, 22 e 19 anos, e aos estudos. Uma delas, Laura de Oliveira, está no elenco do musical que  estreia em 23 de outubro, na EcoVilla Ri Happy, no Rio, com Flor Gil (neta de Gilberto Gil), Clara Guimarães (filha de Ingrid Guimarães). 

Aos 53 anos e recém-formada em Psicologia, Maria Mariana fala sobre o sucesso de "Confissões" e a adolescência da atual geração. Leia a seguir:

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VIVA

Por que você quis fazer uma nova edição de “Confissões de Adolescente”?

Não foi bem isso. Foi “Confissões de Adolescente” que literalmente me resgatou. Eu estava aqui, no meu desenvolvimento. Eu me afastei um pouco da vida profissional porque mergulhei na maternidade, tive quatro filhos. Depois, quando comecei a sentir a ameaça do ninho vazio, fui buscar algo que me preenchesse. Então, fiz uma faculdade de Psicologia e outros cursos.

No final da faculdade, fiz uma apresentação do meu TCC no teatro onde estudava. E, muito magicamente, logo depois dessa apresentação, duas pessoas me procuraram na mesma semana. Uma foi a Renata Sturm, editora da Maquinaria, me oferecendo fazer uma reedição do livro. E o produtor de teatro Diego Timbó me procurou querendo fazer uma adaptação do “Confissões” para musical. Até perguntei: “Vocês se falaram?”. Não, foi uma coisa da sincronicidade do universo, e aí iniciei esses processos. 

Fazia tempo que você não revisitava esse texto?

Sim. Eu estava dedicada à minha família, à minha formação de estudos. O último trabalho que fiz foi o monólogo “Barco de Papel”, que eu escrevi e encenei, em 2012. Sinto que as pessoas têm interesse em me ver de volta. E ficam muito intrigadas para saber onde eu estava. Existe vida fora da rede social, sem você estar expondo, falando, produzindo. Mas eu estava vivendo coisas muito boas, construindo a mim mesma, fazendo obra de arte de mim mesma. A arte nunca saiu de mim. 

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Como foi revisitar a Maria Mariana da adolescência agora, com mais de 50 anos?

Durante esses 34 anos, algumas pessoas me procuraram querendo atualizar, adaptar “Confissões” para os tempos atuais. Sempre rejeitei essa ideia, porque “Confissões” não foi escrito por uma escritora. É o diário da formação de uma escritora. Meu pai me incentivava muito. Voltei para esse lugar, de alguma forma, com mais força. 

A todas as pessoas que me procuravam eu propunha: 'por que a gente não faz as adolescentes que cresceram e que agora são mães, que estão chegando aos 40, aos 50 anos e estão vivendo a menopausa, convivendo com as adolescentes de hoje'? Esse diálogo entre as gerações sempre me interessou, porque desse lugar eu posso falar. Quando a Renata e o Timbó me procuraram querendo readaptar “Confissões”, justamente com essa proposta de fazer esse diálogo entre gerações, achei que era sinal do universo.

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A relação entre pais e filhos não é a mesma dos anos 1990. Como “Confissões” entra nessa relação hoje?

Tenho refletido muito e conversado com as pessoas que estão entrando no projeto, tanto da peça quanto do livro. A pergunta é sempre: "O que é tabu hoje em dia?".

Porque hoje qualquer assunto você encontra no Google, no Instagram, no YouTube. Tem pessoas falando, e falando das maiores intimidades. Mas tem uma coisa que ainda é muito tabu, que é o vínculo."
Maria Mariana, atriz e escritora
Maria Mariana está de pé, com roupa cor vinho, na frente de uma estante de livros
Aos 53 anos, Maria Mariana é mãe de quatro filhos - Divulgação/Luísa Lorenzi

Eu tinha meu pai, uma pessoa para quem eu podia confessar o inconfessável. Ele dizia que éramos cúmplices da existência. Alguém que estava ali para me ouvir e com quem me sentia com liberdade para falar não só sobre as coisas que eu vivia, como também sobre o que eu sentia com aquelas vivências. A gente tinha um compromisso de afeto nesse vínculo.

Sinto que os adolescentes se põem para câmera; mas sem falar sobre o que realmente sentem, de como se sentem com essa exposição toda. Estão todos tomando muita medicação, existe uma epidemia de diagnóstico. Eles estão sofrendo com essa tecnologia e por falta desse espaço que é esse vínculo.

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Como você vê esses diagnósticos?

É muito sério. Essa luta da medicalização da vida, porque surgiram várias siglas de diagnóstico. Agora, tem o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição). Tem espectro autista, TDH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), TOD (Transtorno Opositivo-Desafiador). São profissionais de saúde que não têm tanto pensamento crítico e que dão diagnóstico muito precoce, mas principalmente a sociedade.

No DSM alguns critérios desse diagnóstico – estudei a fundo isso –, se fosse hoje, eu teria vários diagnósticos na pré-adolescência, tomaria vários medicamentos. Eu tinha um pouco de TDH, até muita timidez que poderia ser considerada uma bipolaridade: ficava muito fechada, às vezes muito eufórica. Coisas que a minha família e a sociedade tratavam como adolescência. É da existência. Hoje em dia é patológico.

Hoje, adolescente tem que só ser feliz, tem que estar sorrindo, tem que estar obediente. Isso não é ser adolescente. Ser adolescente é ser opositor, é sentir angústia, porque a gente está crescendo.

Ao que você atribui o fenômeno de "Confissões"?

É um projeto pioneiro. Deu lugar de fala para os adolescentes em todos os meios em que se propagou. Eu ia muito com meu pai aos teatros, já escrevia, fazia aula de teatro, estava em novela. Eu sempre buscava algum projeto que falasse sobre as coisas que eu estava sentindo e não encontrava. Depois do “Confissões”, tiveram várias peças com essa temática, os jornais passaram a ter teatro adolescente, fizeram "Malhação".

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Então, em vários âmbitos, o projeto abriu espaço, deu lugar de fala para os adolescentes, que tinham essa carência. Éramos adolescentes falando para adolescentes, e a plateia era toda de adolescentes com os pais. Então, teve essa coisa pioneira do “Confissões” que não se explica. Sempre fico querendo entender. Por quê? Qual é a receita? Não tem receita. Meu pai dizia que tocou em algum ponto do inconsciente coletivo. E é como está acontecendo agora. Sinto que o projeto está abrindo os próprios caminhos.

Serviço

  • "Confissões de Adolescente - O Musical"
  • Estreia: 23 de outubro
  • Temporada: de 23 de outubro a 29 de novembro; sexta, às 20h; sábado e domingo, às 19h
  • Local: EcoVilla Ri Happy - Sala Tom Jobim
  • Endereço: Rua Jardim Botânico, 1008, Jardim Botânico, telefone: 21-3553-2616
  • Ingressos:  Ingresso.com 
  • Valores: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia-entrada)

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