Socorro Acioli fala sobre livro ‘A Cabeça do Santo’ no Carnaval 2027
Alexandre Barreto/VIVA
São Paulo - O romance A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli, será levado para a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2027. Publicado em 2014, o livro foi escolhido como enredo da escola de samba Unidos da Tijuca e vai ganhar uma nova forma de contar a história, agora por meio de samba, fantasias, carros alegóricos e coreografias.
A adaptação foi tema da conversa “Esse livro dá samba: quando a literatura entra na avenida”, realizada neste domingo, 13, na Arena Cultural da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que bateu recorde histórico com 760 mil visitantes ao longo de dez dias no Distrito Anhembi. O encontro reuniu Socorro Acioli e o escritor Itamar Vieira Junior, com mediação de Valéria Almeida.
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Durante a conversa, Socorro contou que o convite partiu do carnavalesco Lucas Milato, que entrou em contato com ela para apresentar a proposta. A escola ainda precisava aprovar a escolha antes que o enredo pudesse ser anunciado.
A autora disse que não teve uma relação próxima com o Carnaval ao longo da vida. Ela nasceu no Ceará, morou em Salvador, mas nunca participou do Carnaval da cidade e nunca desfilou.
A aproximação com a Unidos da Tijuca mudou essa relação. Socorro afirmou que começou a entender a dimensão do projeto ao conhecer a quadra da escola e acompanhar de perto a preparação do desfile.
“Se eu tivesse ido a uma cartomante, por exemplo, em 2014, e ela falasse: ‘Daqui a dez anos eu vejo você no palco sambando’, eu acho que nesse dia eu ia dizer: ‘Essa mulher é realmente ruim’. É incrível estar no Carnaval, porque eu sou super tímida”, brincou.
Como o livro será contado na avenida?
Em A Cabeça do Santo, Samuel é um jovem que, depois da morte da mãe, vai para a cidade de Candeia em busca do pai. No caminho, acaba vivendo dentro da cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio.
A partir desse espaço, o personagem passa a ouvir as orações das pessoas que pedem ajuda ao santo. A narrativa mistura elementos do cotidiano do sertão cearense com situações ligadas ao realismo mágico.
Para Socorro, levar a obra para o Carnaval representa uma mudança completa na forma de contar essa história. No livro, o principal recurso é a palavra. No desfile, a narrativa passa a ser construída visualmente.
“A história que eu queria contar eu contei no livro. E o meu recurso para contar essa história foi só das palavras”, afirmou.
Segundo a escritora, a adaptação para a avenida permite que elementos que estavam apenas na imaginação do leitor sejam representados por diferentes componentes do desfile.
“Essa transposição, no caso do Carnaval, é pegar todas essas palavras e transformar no corpo das pessoas. Essa história vai sendo contada pelas roupas, pelos movimentos, pelas coreografias e pelos carros”, explicou.
Fé é um dos elementos do desfile
A relação entre fé, família e religiosidade presente no romance também estará no desfile da Unidos da Tijuca.
Socorro disse que acompanhou parte do processo de construção do enredo e afirmou que não precisou pedir à equipe que preservasse determinados elementos da história, porque encontrou afinidade entre a proposta da escola e os temas do livro.
O samba-enredo escolhido pela escola também aborda a relação de Samuel com a mãe e a trajetória do personagem em busca do pai.
A pesquisa para o desfile incluiu uma visita da equipe da escola a Caridade, no Ceará, cidade que serviu de inspiração para parte da história. O padre Felipe Calixto, da Paróquia de Caridade, também participou do processo e chegou a compor um dos sambas que concorreram para representar o enredo.
O que Socorro pensa sobre o sucesso do livro?
Mais de uma década depois da publicação, Socorro disse que não imaginava que A Cabeça do Santo alcançaria a dimensão que tem atualmente.
A autora afirmou que, quando escreveu o romance, não tinha como objetivo pensar no que aconteceria posteriormente com a obra. “Eu só queria terminar o livro, escrever o livro. Eu fui entender o que era depois”, disse.
Para Socorro, parte da dimensão que a obra ganhou vem das diferentes formas como os leitores passaram a interpretar e compartilhar a história.
Ela relatou ter recebido depoimentos de pessoas que leram o livro em diferentes situações, incluindo famílias que fizeram leituras conjuntas e pessoas que tiveram contato com a obra em hospitais.
Quem conta muito o que é esse livro são os leitores. São as pessoas que vão ler, que vão explicando o que eu fiz.”
A escritora também destacou que a transformação do romance em samba-enredo representa uma nova etapa dessa trajetória.
“Eu acho que não tem conto e prêmio maior, reconhecimento maior do que ser um livro que vira o samba, que está na avenida, que está perto das pessoas”, finalizou.
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