Peça de Aguinaldo Silva revisita a ditadura pelo olhar de artistas LGBTQIA+
Em cartaz em SP, “Almoço com a Estrela” resgata a noite carioca dos anos 1980 para abordar a amizade e o direito de existir em tempos de repressão
Divulgação/Rafa Marques
A peça 'Almoço com a Estrela', de Aguinaldo Silva, retrata a luta da comunidade LGBTQIA+ durante a ditadura nos anos 1980 no Brasil, estreando em São Paulo e em cartaz até 22 de novembro de 2026, destacando temas de resistência e amizade em tempos de repressão.
A trama segue Renata DiLoren, uma mulher trans que retorna ao Brasil para confrontar um trauma do passado, enquanto a narrativa combina humor com a realidade da violência e repressão enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+ na época.
Dirigida por Maciel Silva, a montagem inclui um elenco diversificado e busca equilibrar o humor com a sensibilidade necessária para abordar questões delicadas, enfatizando a importância da amizade e do direito de existir em um contexto de opressão.
São Paulo - Resistência, amizade, união e o direito de viver e existir em tempos de repressão ganham espaço em “Almoço com a Estrela”, peça de Aguinaldo Silva dirigida por Maciel Silva, que acompanha um grupo da comunidade LGBTQIA+ durante a ditadura nos anos 1980 no Rio de Janeiro. A montagem estreou na semana passada, em São Paulo, e segue em cartaz até 22 de novembro, na Casa de Artes SP, na Vila Buarque.
Na história, Renata DiLoren, uma mulher trans que passou anos na Europa, retorna ao Brasil e reencontra amigos artistas da noite carioca. O que inicialmente seria apenas um almoço de celebração ganha outro rumo quando ela revela que voltou ao País para acertar contas com um delegado relacionado a um trauma de seu passado.
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Ambientada entre o fim dos anos 1970 e os anos 1980, a peça combina humor com uma trama marcada pela repressão política e pela violência contra pessoas LGBTQIA+. Para Aguinaldo Silva, que trabalhou como jornalista durante a ditadura e frequentou a noite da Lapa naquele período, a história também funciona como uma forma de recuperar experiências que marcaram sua trajetória.
Eu acho que a gente tem que aprender muito com os anos 1980, a resistir aos tempos difíceis e sobreviver como seres humanos, como criaturas. Ou seja, não perder a identidade, por mais que os tempos sejam árduos e difíceis."
Aguinaldo Silva, dramaturgo
O escritor explica que parte da construção da peça vem de sua própria experiência na noite carioca. Aguinaldo afirma que conviveu com artistas e personagens do ambiente underground do Rio de Janeiro.
“Fui fiel à origem da peça, que era a minha vivência nos anos 1980, naquele ambiente da Lapa, com aquelas pessoas, aquelas criaturas todas maravilhosas com as quais eu tive a honra de conviver”, disse.
O texto também preserva uma linguagem característica daquele período. “Absoluta liberdade e absoluto desdém pelas convenções”, afirmou.
Segundo o dramaturgo, algumas falas podem causar estranhamento atualmente, justamente porque reproduzem a forma como aquelas pessoas se comunicavam naquele contexto.
A escolha levou a produção a incluir uma contextualização sobre a época retratada. Aguinaldo afirma que a intenção é deixar claro que determinadas expressões pertencem ao contexto histórico da narrativa. “Pensei que deveria dar essa explicação ao público e deixar bem claro: ‘Olha, isso aconteceu em outra época’.”
Equilíbrio entre humor e temas delicados
A direção é de Maciel Silva, que já trabalha com Aguinaldo Silva há cerca de uma década. Para ele, um dos principais desafios da montagem foi preservar o humor da obra sem ignorar a maneira como determinadas palavras e situações são recebidas atualmente.
O diretor conta que recebeu o texto quando estava em Portugal e decidiu que a montagem deveria reunir no palco artistas da comunidade LGBTQIA+, incluindo diferentes identidades e gêneros.
Segundo Maciel, os ajustes realizados no texto foram pontuais e tiveram como objetivo manter a ambientação histórica sem reproduzir determinadas expressões de forma descontextualizada. “Se alguém está rindo com uma situação, mas está ferindo alguém, aí não é mais humor", diz.
A presença de artistas ligados à cena drag e trans foi uma das escolhas feitas por Maciel Silva. A montagem reúne Valder Bastos, conhecido como TchaKa Drag Queen, Leonardo Miggiorin, Glamour Garcia, a Britney da novela "A Dona do Pedaço" (2019), Vinicius Andrade, conhecido como Organzza, campeã de ‘Drag Race Brasil’ (2023), Tomás Vasconcelos e Cleo Borzi.
O diretor explica que a história acompanha personagens LGBTQIA+ em um período de repressão e que buscou atores que compreendessem as questões apresentadas pelo texto.
É muito importante se falar que a gente fala de diversidade, de preconceito, de violência contra a comunidade, de cultura, de ditadura. Então, está tudo ali junto."
Maciel Silva, diretor, escritor e ator
A trama também aborda a transição de gênero de Renata e utiliza a intimidade da personagem como parte da construção da narrativa. Para o diretor, “o teatro dá mais liberdade para tratar do linguajar e de temas delicados”.
Amizade é um dos eixos da história
Apesar do contexto de repressão e da busca de Renata por justiça, Maciel afirma que a amizade entre os personagens é um dos principais elementos da peça. O grupo reúne artistas com relações marcadas por conflitos, diferenças e interesses próprios.
Porém, quando a protagonista decide enfrentar o homem relacionado ao seu passado, os amigos se unem para ajudá-la. “A gente fala de um grupo de amigos artistas que se amam e se odeiam e que aprontam todas, mas, na hora em que precisam se unir, todos se unem.”
“Além da amizade, é o direito de viver, o direito de existir”, diz o diretor sobre a narrativa, que atravessa um período em que ser LGBTQIA+ exigia coragem. Em meio à repressão e à violência, a peça “Almoço com a Estrela” retrata a união da comunidade como forma de afirmação da própria existência.
Serviço
- Peça: “Almoço com a Estrela”
- Texto: Aguinaldo Silva
- Direção: Maciel Silva
- Local: Casa de Artes SP
- Endereço: R. Maj. Sertório, 476 - Vila Buarque, São Paulo
- Temporada: até 22 de novembro de 2026
- Sessões: sábados, às 20h; domingos, às 18h
- Ingressos: Sympla
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