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Mesmo reformulada, previdência privada avança com dificuldade entre os 50+

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Aprender a poupar cada vez mais cedo é o grande desafia, dizem os especialistas - Adobe Stock
Aprender a poupar cada vez mais cedo é o grande desafia, dizem os especialistas
Por Fabiana Holtz

21/08/2026 | 11h24

São Paulo - Pouco conhecida do grande público, a previdência privada foi mencionada por apenas 2% dos entrevistados em um levantamento recente sobre investimentos. Os dados são do último Raio-x do Investidor brasileiro, pesquisa anual da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), realizada em parceria com o Datafolha.

Outro dado revelador do mesmo estudo é que 60% deles pretendem contar com o INSS para se sustentar quando essa hora chegar, porém, não fazem a menor ideia de quanto irão receber de benefício.

Com relação à baixa popularidade do produto previdência, Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, considera que essa dificuldade em se preparar para o momento da aposentadoria é 'transversal', ou seja, atravessa todas as faixas etárias. 

Obviamente entre as pessoas acima de 50 anos isso vai se tornando mais complexo, mas a maioria economicamente ativa (em qualquer faixa etária) ainda diz que vai contar com o INSS, com a previdência pública."
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Para Marcelo Billi, da Anbima,  a falta de conhecimento sobre o sistema ainda acaba punindo financeiramente os brasileiros
Foto: Divulgação/Anbima

Segundo Billi, a Anbima tem a percepção de que a previdência privada ainda é entendida como um produto que não tem rentabilidade suficiente, é caro, não é adequado e não funciona. Reflexo, segundo ele, de uma profunda falta de conhecimento do sistema.

"Várias das pessoas que entrevistamos para a nossa pesquisa, por exemplo, tinham a opção de entrar em planos de previdência fechada oferecido por seus empregadores. Veja bem: você está ganhando 100% na largada, porque o seu empregador está dando aquela quantia para contribuir para a sua previdência no futuro. E mesmo nestes casos, muitos jovens disseram ter recusado a proposta, alegando que preferem usar o dinheiro de outra forma ou ter o poder de escolher para onde destiná-lo", conta Billi. 

Para o superintendente da Anbima, essa situação ilustra bem a dificuldade dos brasileiros em enxergar a previdência privada como uma alternativa para o planejamento de longo prazo. "Essa mentalidade é realmente disseminada na população e acaba prejudicando as pessoas, que estão deixando muito dinheiro na mesa sem perceber", lamenta.

Segundo Billi, a impressão entre a população é de que a previdênca privada rende pouco. E ainda existe uma falha de comunicação:

Hoje existe uma concorrência muito maior, o que levou a uma oferta maior de produtos de previdência. Se você conversar com qualquer departamento de Recursos Humanos vai sentir que há uma dificuldade em explicar e convencer os trabalhadores a aderirem ao plano oferecido pela empresa."

São várias camadas de complexidade a mais que dificultam essa decisão, inclusive o pensar no longo prazo. "Essa dificuldade de planejar o futuro é uma característica nossa", afirma o superintendente da Anbima. Representantes desse segmento do Bradesco, BB e Caixa concordam que o produto previdência é complexo, cheio de regras e letrinhas, PGBL, VGBL, porém, o brasileiro já tem dado sinais de que está começando a descobrir sua importância.

executivo Estevão Scripilliti, do Brasdesco Vida e Previdência
Maior desafio, aponta Estevão Scripilliti, do Bradesco Vida e Previdência, é conseguir atender aos mais diversos perfis
Foto: Divulgação

Linguagem mais simples e direta

Para Estevão Scripilliti, diretor da Bradesco Vida e Previdência, este é um desafio de longo prazo e que requer um esforço continuado. "Não tem uma solução ou alguma política específica que ajude a ampliar o conhecimento sobre previdência. Temos feito vários esforços, primeiro na linha de comunicação, transformando o tema em algo mais simples, tangível", explica Scripilliti. 

Sandro Costa, superintendente de Produtos da Brasilprevi, braço de previdência do Banco do Brasil, concorda que o grande desafio no âmbito do educação financeira é fazer as pessoas pouparem.

A gente costuma dizer que a previdência complementar é um dos instrumentos de poupança. O primeiro desafio é fazer com que as pessoas entendam que elas precisam ter reserva financeira".
Sandro Costa, BrasilPrevi, homem, branco, cabelos castanhos e curtos
Sandro Costa, da BrasilPrevi, conta que tem se preparado para esse cenário nos últimos cinco anos - Foto: Divulgação

Na visão de Costa, conscientizar a população que é preciso poupar desde cedo porque vamos viver muito mais é desafiador por sua complexidade.

"Isso representa uma grande vantagem, mas também um grande ponto de atenção e preocupação, considerando que você precisa ter recurso acumulado para sobreviver nesse período", afirma. Tendo em vista essa perspectiva, a BrasilPrevi criou uma área específica que trata da 'desacumulação' em 2021 para pensar em soluções para um público mais maduro.

De acordo com Scripilliti, um primeiro passo importante seria parar de falar da previdência apenas como instrumento de aposentadoria. "Está na hora de falarmos dela como um instrumento amplo, múltiplo e potente para proteger e planejar seu futuro e nesse sentido temos feito um esforço muito grande nos últimos dois a três anos para materializar esse benefício", conta o diretor da Bradesco Vida e Previdência.

Outro ponto que precisa avançar, destaca ele, é a grade de soluções de produtos para atender a todos os gostos, bolsos e necessidades. "Fomos construindo uma carteira de produtos cada vez mais ampla para atender aos diferentes desejos e perfis, que são múltiplos".

O executivo do Bradesco recorda que o brasileiro gosta da sensação de satisfação imediata e cita como exemplo o fenômeno das bets (apostas online) dos últimos anos, o que tem consumido ainda mais os poucos recursos que o brasileiro havia poupado. Reverter isso depende de um esforço educativo também, acrescenta ele.

Um primeiro e importante passo foi dado em meados de julho, quando o Senado aprovou a inclusão da educação financeira como tema transversal nos ensinos fundamental e médio.

A iniciativa visa garantir que os estudantes aprendam a lidar com o dinheiro o mais cedo possível, evitando assim o endividamento futuro. Apresentado pela deputada Any Ortiz (PP-RS), o texto aguarda agora nova análise  da Câmara dos Deputados.

Trabalho multigeracional

Em 2025, com o objetivo de atingir o público mais jovem, a Bradesco Vida e Previdência começou a falar de previdência via influencers digitais no Instagram, no TikTok e mais recentemente através de um cartunista em vídeos curtos e divertidos. Do ponto de vista da educação financeira, de acordo com Scripilliti, a previdência precisa começar a ser considerada como mais uma conta essencial no orçamento doméstico, como a mensalidade da escola, o aluguel.

Essa mudança de mentalidade é importante para evitar o mau uso do instrumento da previdência, que hoje pode ser utilizada até como garantia de crédito no caso de uma despesa inesperada de curto prazo.

A Caixa Vida e Previdência* afirma também ter identificado que há uma conscientização crescente da população sobre a importância de iniciar esse planejamento mais cedo, o que tem contribuído para o crescimento da participação de públicos mais jovens em sua carteira de clientes.

Mais do que olhar esse cenário sob uma perspectiva de incerteza, reforça a Caixa, os fatos tem deixado evidente a necessidade de ampliar a educação financeira e incentivar o planejamento de longo prazo.

Para o diretor da Bradesco Vida e Previdência, estamos no começo de uma fase de transição que vai ser muito rápida e intensa. "Já está claro que esse regime, do jeito que está, não se sustentará no tempo", afirma, ao observar que o país passou por sete mudanças centrais na legislação da Previdência nos últimos 30 anos. A situação é crítica e a previdência privada 'inexoravelmente' é parte da solução, acrescenta ele.

Precisamos de uma discussão um pouco mais profunda, legislativa, de incentivos para o produto. Hoje, por exemplo, as empresas têm um benefício fiscal só para quem tenha o lucro declarado e não tem para o lucro presumido, não tem para as MEIs. Seria preciso ampliar o escopo do benefício da previdência para todas as empresas, inclusive pequenas e médias empresas."  

Mudança de comportamento

Na Caixa Vida e Previdência*, os números confirmam que já podemos ver sinais de mudança de comportamento entre os brasileiros. Em 2026, a participação das faixas de 26 a 45 anos (reunidas) cresceu 8,6 pontos percentuais, com destaque para o grupo de 36 a 45 anos, que passou de 11,7% para 18%.

Dados da BrasilPrev confirmam a tendência, com um aumento de 27% na adesão de clientes entre o público 50+ no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Na Bradesco Vida e Previdência, o público 55+ já representa 40% da sua base de clientes - o equivalente a 1,1 milhão. Em 2025, a demanda por novos contratos dessa faixa etária cresceu 7%, enquanto a base total cresceu 2,5%.

Para os próximos anos, com o avanço da digitalização, acrescenta a Caixa Vida e Previdência*, o momento é de ampliação da oferta de estratégias de investimento, personalização dos produtos e uma atenção crescente à fase de desacumulação, quando o cliente passa a utilizar os recursos acumulados ao longo da vida.

*Em razão do período de defeso eleitoral - regras de conduta para agentes públicos em eleições - a Caixa Vida e Previdência optou por se pronunciar apenas institucionalmente.

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