Programa Voa Brasil entrega apenas 1,7% das passagens prometidas a R$ 200
Nick Morales/Unsplash
19/01/2026 | 09h05 ● Atualizado | 09h14
Brasília, 19/01/2026 - O programa Voa Brasil, que oferece passagens aéreas por R$ 200 a aposentados, registrou a venda de apenas 52 mil bilhetes entre julho de 2024 e o início deste mês. O volume representa apenas 1,7% dos 3 milhões de bilhetes prometidos para os primeiros 12 meses de operação. Apesar do fracasso, o governo não tem um diagnóstico claro ou plano para alavancar a iniciativa.
O programa foi pensado em formato que não depende de subsídio público e também não representa custos para as companhias. Mas depende diretamente da vontade das empresas. Isso porque o acordo prevê a disponibilização de passagens ociosas — aquelas que não são vendidas por falta de demanda, resultando em assentos vagos nos aviões.
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O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), que coordena o Voa Brasil, diz não saber quantas passagens realmente foram disponibilizadas. "A participação é voluntária e condicionada à ociosidade dos assentos", afirmou a pasta em nota. Perguntada, então, qual o número de bilhetes disponíveis em tempo real na plataforma, o MPor não retornou até a publicação desta reportagem.
Os dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que durante os 17 meses do programa cerca de 30 milhões de assentos vagos em voos nacionais.
Promessa de democratização
O Voa Brasil era descrito pelo MPor como um dos pilares da promessa de democratização do acesso à aviação, feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de 2022. A estimativa oficial era de que 23 milhões de pessoas estariam aptas a participar da primeira fase. O governo prometia lançar uma segunda fase ainda no primeiro semestre de 2025, com inclusão de estudantes de instituições públicas, o que não ocorreu.
Após dois meses do início das vendas, ainda em 2024, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, disse ter certeza de que o programa faria "muitos aposentados viajarem pelo País". "Nós esperamos, nessa primeira fase, incluir mais de 1,5 milhão de turistas que nunca viajaram de avião", afirmou na ocasião.
Considerando que, nos primeiros 12 meses, foram vendidas pouco mais de 40 mil passagens, o público efetivamente alcançado pode se limitar a cerca de 20 mil pessoas, já que cada beneficiário tem direito a dois trechos por ano. Observando o montante de 52.135 bilhetes ao longo dos 17 meses, apenas 26 mil pessoas podem ter sido alcançadas. Ainda que excedendo o prazo, a meta foi cumprida entre 0,86% e 1,73%.
Questionado sobre qual seria o diagnóstico para o baixo número de passagens vendidas, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que "a adesão ao Programa depende de múltiplos fatores, entre eles o conhecimento da iniciativa por parte do público-alvo e desafios de acesso e familiaridade com os serviços digitais".
Então, questionou-se o porquê de a segunda etapa não ter sido lançada para ampliar o público-alvo e assim aumentar a procura. Como a segunda etapa iria englobar estudantes, seria possível, em tese, superar os supostos desafios de acesso e familiaridade com os serviços digitais. O Mpor também não respondeu sobre isso até a publicação desta reportagem.
Histórico
O lançamento oficial do programa levou quase um ano e meio desde que foi anunciado pelo governo, em março de 2023. Nos bastidores, a demora era explicada por representantes das companhias aéreas. Na época, a Broadcast registrou, em diferentes momentos, que o programa havia se tornado uma espécie de moeda de troca. Por detrás de sucessivos adiamentos estava a insatisfação do setor em razão de demandas que não eram atendidas.
Quando finalmente saiu do papel, o que se viu foi um programa já desidratado, com menos beneficiários que o aventado pelo Ministério de Portos e Aeroportos. A Broadcast também registrou a falta de informações concretas por parte do próprio Executivo que, apesar de prometer 3 milhões de passagens em 12 meses, reconhecia que dependia do ritmo das liberações pelas aéreas.
No dia do lançamento, o ministro Silvio Costa Filho afirmou ter pedido às empresas que disponibilizassem as passagens com a maior antecedência possível. Isso seria possível a partir da avaliação de seus históricos de ociosidade. O Executivo apontava que, como há registro de assentos vagos em todos os meses dos últimos mais de 20 anos, com médias estáveis, seria possível repassar bilhetes com antecedência.
A reportagem perguntou à Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que representa Azul, Gol e Latam, se o número de assentos disponibilizados ao Voa Brasil é conhecido. Questionou-se também qual a dinâmica de oferta ao programa. A entidade respondeu com a seguinte nota:
As companhias aéreas mantêm uma oferta de passagens destinadas ao Voa Brasil, um programa do governo federal alinhado ao compromisso da Abear e das empresas associadas de ampliar o acesso da população ao transporte aéreo. Desde o lançamento, as companhias vêm colaborando com a iniciativa e reafirmam a disposição de trabalhar conjuntamente com o governo para aperfeiçoar o programa e viabilizar a inclusão de mais brasileiros na aviação."
(Por Luiz Araújo)
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