Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Cabo Verde segura mais um campeão mundial, o Uruguai, e sonha com a vaga

Reprodução / Instagram

Seleção de Cabo Verde estreia na Copa do Mundo de 2026 - Reprodução / Instagram
Seleção de Cabo Verde estreia na Copa do Mundo de 2026
Por Robson Morelli

21/06/2026 | 23h08

Nova York — É difícil para um brasileiro imaginar o que representa a façanha de Cabo Verde na Copa do Mundo até agora. O Brasil já nasceu grande na competição da Fifa. Esperou poucas edições para ganhar o seu primeiro título mundial e se tornar o maior de todos, com cinco conquistas construídas por Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo e tantos outros craques da história do futebol.

A Copa, para o brasileiro, virou cobrança, obrigação e trauma quando não termina em taça. Para Cabo Verde, cada ponto é uma página nova

O arquipélago de dez ilhas, a cerca de 600 quilômetros da costa da África Ocidental, começou a disputar a Copa quase com um século de atraso em relação aos gigantes do futebol. Debutante no Mundial 2026, chegou aos Estados Unidos, Canadá e México com a etiqueta na mala de "saco de pancadas".

É uma satisfação enorme. A equipe se preparou muito bem para o jogo, mas acabamos por vacilar um pouco num lance que não se deveria falhar. O Uruguai é uma equipe muito forte, uma pena termos sofrido os dois gols, mas trabalhamos muito bem. Estamos aqui para competir", disse Vozinha

Era o time nanico do grupo diante de rivais como Espanha e Uruguai. Um convidado simpático apenas ou uma seleção exótica. Duas rodadas depois, Cabo Verde parou duas campeãs mundiais e virou uma das melhores histórias da competição.

Dois empates e a possibilidade de se classificar

Para quem reservou à seleção cabo-verdiana apenas o papel de figurante, o time liderado pelo goleiro Vozinha, de 40 anos, já roubou a cena. Empatar com a Espanha, uma das favoritas ao título, foi uma proeza e tanto. Poderia ser tratado como acidente de percurso, uma dessas noites em que a bola não entra e o favorito se irrita.

Mas Cabo Verde não deixou a história morrer. Neste domingo, fez de novo. Empatou por 2 a 2 com o Uruguai, bicampeão mundial e também favorito diante de um rival de idioma português e currículo muito menor.

Sorte de principiante? Pode até haver um pouco disso em toda boa campanha inesperada. Mas é pouco para explicar o que Cabo Verde tem feito na Copa. A Espanha tem alguns dos melhores jogadores do mundo e não conseguiu furar o bloqueio de Vozinha, já uma das figuras mais marcantes da competição.

Nós viemos aqui para competir. Sabemos que somos um país pequeno, uma nação que vive sua primeira vez essa experiência. Porém, todo dia trabalhamos muito e temos jogadores que atuam em grandes ligas. Sempre respeitamos os outros, mas com certeza vamos nos doar ao máximo para competir", disse o goleiro.

Contra o Uruguai, a seleção cabo-verdiana abriu o placar, sofreu a virada e teve força para buscar o empate. Não se entregou ao peso da camisa rival. Não olhou para a história do adversário. Jogou a partida que precisava jogar.

Cabo Verde só depende de suas forças

Com dois pontos em um grupo embolado, Cabo Verde chega vivo à última rodada. Pode se classificar se vencer a Arábia Saudita. O Uruguai também tem dois pontos e terá pela frente a Espanha. O que antes parecia improvável agora virou cenário real. Cabo Verde não depende de mil combinações absurdas nem de milagre estatístico. Depende de si, da coragem que mostrou até aqui e de mais uma atuação acima da expectativa.

A beleza da campanha está também na forma. Cabo Verde não está na Copa para amarrar jogo, simular contusão, matar tempo ou transformar cada lateral em uma assembleia. Não tem feito antijogo para sobreviver. Contra o Uruguai, cometeu apenas cinco faltas. Ficou menos com a bola, 38%, mas chutou quatro vezes ao gol, contra duas do rival sul-americano. Teve menos posse e mais intenção. Há uma diferença enorme entre jogar fechado e jogar encolhido. Cabo Verde tem entendido isso muito bem.

Vozinha já é 'herói nacional'

O time sabe suas limitações. Não tenta ser o que não é. Defende com organização, sofre quando precisa sofrer e escolhe bem os momentos de atacar. Mas não renuncia ao jogo. Essa talvez seja a grande diferença entre uma zebra simpática e uma seleção que começa a ser levada a sério. Cabo Verde não está apenas resistindo. Está competindo. E competir, em uma Copa, já é uma forma de respeito ao próprio futebol e à vaga conseguida pela primeira vez.

Vozinha virou símbolo porque goleiro de time pequeno costuma ser o primeiro herói de uma campanha desse tipo. Mas Cabo Verde não se resume a ele. Há disciplina, entrega, leitura de jogo e um orgulho evidente em cada disputa de bola. O time mostra mais do que uma camisa nova na Copa. Com o futebol e dois empates gigantescos, passou a ser visto no mapa e no cenário esportivo.

Para o Brasil, uma vitória em Copas muitas vezes é apenas obrigação cumprida. Para Cabo Verde, empates contra Espanha e Uruguai já mudam a forma como o mundo olha para a sua seleção. Não é exagero. É a dimensão correta de uma estreia que deixou de ser curiosidade e passou a ser ameaça real no grupo.

Agora vem a Arábia Saudita. O jogo que pode transformar um começo bonito em feito histórico. Cabo Verde já recuperou parte do tempo perdido. Já mostrou que não entrou na Copa para pedir licença. Falta um passo para transformar respeito em classificação. E, se jogar como jogou nas duas primeiras rodadas, ninguém poderá tratar isso como surpresa absurda. Cabo Verde deixou de ser "saco de pancadas" sem nunca ter sido. Virou time de Copa. Da Copa de 2026.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Últimas Notícias