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Messi atravessa sofrimento e glória para virar lenda das Copas, de 2006 a 2026

Instagram / AFA

Messi é festejado pelos companheiros da Argentina na Copa do Mundo de 2026 - Instagram / AFA
Messi é festejado pelos companheiros da Argentina na Copa do Mundo de 2026
Por Robson Morelli

18/07/2026 | 15h39

Nova York — Vinte anos separam o garoto Lionel Messi, reserva da Argentina na Copa do Mundo de 2006, do capitão de 39 anos que chega à final de 2026 como o grande nome do Mundial. Nesse percurso, o mundo viu vários Messi. Entre uma imagem e outra existe uma das trajetórias mais completas da história das Copas, mas também de sofrimento, desilusão e glória.

Messi foi promessa, protagonista, decepção, símbolo de cobrança, campeão do mundo e, agora, lenda incontestável. Ele fará sua última partida neste domingo em Copas, pelo menos é o que se espera, embora o técnico Scaloni não soube dizer se realmente será o fim de linha. "Temos de perguntar isso a ele", disse. 

A caminhada começou na Alemanha, em 2006, quando Messi tinha apenas 18 anos e ainda era tratado como uma joia em formação. O Brasil, de Kaká, Ronaldo, Ronaldinho e Adriano, era a grande seleção daquele Mundial, principalmente porque vinha na esteira do penta de quatro anos antes.

Messi fez gol, deu assistência, encantou em poucos minutos, mas viu do banco de reserva a Argentina cair diante da Alemanha nos pênaltis, nas quartas de final, sem nada poder fazer. Ele ainda tinha cabelos longos e cara de menino em formação. Mas já era um jogador de talento nato, como mostraria dois anos depois nos Jogos Olímpicos de Pequim, quando ele e a Argentina massacraram o Brasil.

Quatro anos depois de 2006, já na África do Sul, Messi era o melhor jogador do mundo e foi comandado por ninguém menos do que Diego Maradona, um mito para ele e para toda uma Argentina. Messi jamais ousou se comprar a Diego. Nem antes nem agora.

Em Pretória, onde a seleção argentina ficou hospedada, Messi viveu sua única Copa sem gols e voltou a parar diante dos alemães, desta vez em uma derrota dura e sofrida por 4 a 0. Ele tinha 23 anos, jogava demais no Barcelona, mas não conseguia repetir as atuações mágicas com a camisa da seleção. O atacante sempre foi cobrado por isso.

Messi era chamado de 'traidor' na Argentina

Ele chegou a ser condenado e até chamado de "traidor" por ter deixado o seu país para jogar nas categorias de base de La Masia, onde nascem os craques do clube catalão. Sua geração foi apontada como fracassada. Messi ouvia tudo isso e não conseguia reagir. Era o oposto do que fazia com a camisa do Barcelona. Os argentinos não entendiam como era possível e depositavam toda a culpa em suas costas, como se Messi não quisesse jogar pela Argentina.

O primeiro grande capítulo de dor profunda, por exemplo, veio em 2014, no Brasil. Messi levou a Argentina à final, marcou quatro gols naquele Mundial, foi eleito o melhor jogador do torneio, mas terminou a Copa olhando para a taça sem poder tocá-la. Era mais um fracasso em sua história na seleção.

A Alemanha venceu por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Mario Götze, e aquela imagem passou a persegui-lo na carreira. Era o retrato de um gênio que encantava o mundo pelo Barcelona, mas ainda carregava uma cobrança feroz pela Argentina. A competição no Brasil, em que a seleção brasileira também entrou pelo cano, era a sua terceira Copa do Mundo. O problema era que ele estava no auge.

Uma Copa aos 35 anos

A edição da Rússia, em 2018, aumentou a sensação de que a história de Messi em Copas poderia terminar incompleta. Para muitos, azar das Copas. Para ele, um sentimento de impotência. Para o país, uma grande decepção. A Argentina avançou aos trancos e barrancos na fase de grupos graças a um gol decisivo de Messi contra a Nigéria, mas caiu nas oitavas diante da França, Mbappé, em um jogo caótico, perdido por 4 a 3.

Àquela altura, Messi já tinha vivido quase tudo em Mundiais, menos o que mais importava: vencer. Foi quando ele disse que não jogaria mais a competição da Fifa, tão desanimado que estava com o seu próprio rendimento pela seleção. Messi não era nem "bem-vindo" em seun próprio país por isso.

Mas a redenção veio no Catar, em 2022, com 35 anos. Messi chegou cercado pela urgência do último grande sonho e saiu campeão do mundo. Marcou sete gols, deu três assistências, decidiu em todas as fases eliminatórias do torneio da Fifa e liderou a Argentina no título sobre a França, nos pênaltis, depois de uma das maiores finais da história, com empate por 3 a 3 no tempo normal e na prorrogação. Messi, finalmente, sorriu para a Copa e a Copa fez o mesmo para ele. A taça encerrou um jejum de 36 anos da Argentina e mudou para sempre a relação entre Messi, a seleção e os próprios argentinos.

E se em 2022 parecia o fechamento perfeito de uma carreira truncada na seleção, 2026 virou o capítulo que ninguém imaginava. Um conto de fadas. Aos 39 anos, Lionel Messi voltou a ser o centro da Argentina e do mundo do futebol. De "odiado" pelos argentinos, passou a ser amado como foi Maradona um dia. Ele nunca quis nem uma coisa nem outra. Elas aconteceram. E ele sempre aceitou o seu destino, mas sem nunca ter deixado de lutar.

Do tamanho de Evita, Diego, Gardel e Borges

Neste 19 de julho de 2026, depois de 20 anos de Copas, Messi sai de cena para entrar para a história. Já é possível ter saudade dele. Ele conduz a sua Argentina, de tanta gente boa, como José de San Martín, Eva Perón, Diego Maradona, papa Francisco, Carlos Gardel, Che Guevara e Jorge Luis Borges, a mais uma final de Copa do Mundo, desta vez contra a Espanha. Pode ser o artilheiro da disputa e eleito o seu melhor jogador. 

Messi já não corre como antes, não tem a explosão dos tempos de Barcelona, mas ainda enxerga o jogo antes de todos. Sua influência não diminuiu. Apenas mudou de forma e de entrega. A  Copa ampliou sua coleção de recordes. Messi tornou-se o maior artilheiro da história dos Mundiais, o jogador com mais participações diretas em gols, um dos poucos a disputar seis Copas e pode entrar em campo em sua terceira final, igualando marcas reservadas a pouquíssimos da história. Mais do que números, porém, sua trajetória pesa porque atravessa duas décadas de pressão, frustração, resistência e consagração.

E quis o destino que ele tivesse o seu último ato contra a Espanha, país onde cresceu e onde virou lenda. Vai ser difícil o futebol superar esse 19 de julho. Mesmo que não vença, Messi deixará o torneio como uma figura maior do que qualquer estatística. Vinte anos depois de estrear como promessa, Lionel Andrés Messi Cuccittini chega ao fim de sua caminhada em Mundiais como aquilo que sempre pareceu destinado a ser: uma lenda.

Palavras-chave Copa do Mundo Espanha Messi final

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