Tati Gracia
Colunista VIVA
16/10/2026 | 11h04
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.
O que nossas escolhas revelam sobre nós? Consumo também conta nossa história
Pesquisas de consumo não dão conta de avaliar as mudanças de vida, como as escolhas são influenciadas pelas pessoas com quem convivemos
Envato
Mudanças nas escolhas de consumo entre pessoas acima de 50 anos refletem novas prioridades relacionadas à saúde e bem-estar, impactando o mercado e as decisões de compra no Brasil.
Dados indicam que consumidores com 40 anos ou mais estão presentes em 63% dos lares analisados, com um aumento de 5,3% nas compras desse grupo, enquanto os mais jovens apresentaram queda de 4,9%.
A reflexão sobre as escolhas de consumo destaca a importância de ouvir e considerar as necessidades dos outros, sugerindo que empresas e famílias devem adotar uma abordagem mais empática e atenta às histórias individuais por trás das decisões.
São Paulo - Você já percebeu quantas das nossas escolhas carregam a presença de outras pessoas? Às vezes, é um produto que compramos porque nossa mãe sempre usou. Um aplicativo que aprendemos a usar com os filhos. Ou uma pequena mudança na rotina para facilitar a vida de quem amamos.
São coisas simples, tão presentes no nosso dia a dia que nem sempre percebemos o quanto dizem sobre nós.
E talvez você também já tenha vivido o contrário. Depois de tantos anos escolhendo pelos outros, chega um momento em que começa a se perguntar o que realmente deseja para si.
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Tenho pensado muito sobre como nossas escolhas mudam ao longo da vida. E sobre como elas são influenciadas pelas pessoas com quem convivemos, por nossas responsabilidades, nossos afetos e pelas diferentes gerações que participam da nossa história.
Porque, muitas vezes, aquilo que escolhemos também conta a história de quem somos e de quem faz parte da nossa vida.
Muito além da idade de quem compra
Uma pesquisa da Worldpanel mostrou mudanças no comportamento de consumo das pessoas acima dos 50 anos, com novas prioridades relacionadas à saúde, ao bem-estar e à qualidade dos produtos.
Outro levantamento da empresa revelou que consumidores com 40 anos ou mais estão presentes em 63% dos lares analisados no Brasil. No segundo trimestre de 2026, esse grupo aumentou em 5,3% o volume de unidades compradas para consumo dentro de casa, enquanto os consumidores de até 39 anos registraram queda de 4,9%.
Os números ajudam a compreender a importância de um público que participa ativamente das decisões de consumo. Mas confesso que, quando leio pesquisas como essas, minha curiosidade vai além dos percentuais. Quero compreender as pessoas que existem por trás deles.
Penso na mulher de 50 anos que escolhe um produto para si, mas também ajuda os pais que estão envelhecendo. Na avó que conhece uma marca pela indicação do neto. No homem que, depois da aposentadoria, começa a descobrir novos interesses e passa a fazer escolhas que antes não faziam parte da sua rotina.
São histórias que mostram que nossas decisões não dependem apenas da idade, mas também do momento que estamos vivendo e das relações que construímos.
Talvez estejamos tão acostumados a perguntar quantos anos o consumidor tem que esquecemos de perguntar quem participa da vida dele.
Quem escolhe nem sempre é quem consome
Durante muito tempo, aprendemos a dividir os consumidores por faixas etárias. Jovens de um lado, adultos de outro, pessoas mais velhas em um grupo separado. Como se cada geração tivesse seus próprios desejos e fizesse suas escolhas sem a influência das demais. Mas basta pensar na própria família para perceber que a vida não funciona assim.
Em algumas situações, quem compra não é quem escolhe. Em outras, quem escolhe não é quem vai usar. E há escolhas que fazemos juntos, entre sugestões, conversas e aquela vontade de encontrar o que funciona melhor para todos.
Às vezes compramos porque precisamos. Outras, porque alguém que amamos precisa. E, em muitos momentos, uma decisão aparentemente simples carrega cuidado, lembranças ou o desejo de continuar sendo independente.
O consumo também conta a história das nossas relações.
Quem decide o que entra na sua casa?
Mas existe algo nessas escolhas que merece nossa atenção. Quantas vezes decidimos por alguém porque acreditamos saber o que é melhor para essa pessoa?
Uma filha que escolhe o celular da mãe porque considera aquele modelo mais fácil de usar. Um filho que passa a comprar os alimentos do pai pensando na saúde dele, mas deixa de perguntar sobre aquilo que ele gosta de comer. Ou uma família que muda pequenos hábitos da casa pensando no conforto de alguém, sem perguntar se era aquilo que essa pessoa realmente queria.
São atitudes que muitas vezes nascem do carinho e da preocupação. Mas que também nos convidam a uma reflexão.
Será que, na tentativa de cuidar, às vezes esquecemos de escutar? Porque existe uma diferença importante entre ajudar alguém a fazer uma escolha e decidir por essa pessoa.
E isso vale para todas as idades. Pais escolhem pelos filhos, filhos passam a escolher pelos pais, casais decidem um pelo outro. Em diferentes momentos da vida, podemos confundir nossas boas intenções com as necessidades de quem está ao nosso lado.
Cuidar também é reconhecer o direito do outro de continuar escolhendo.
A mesma idade, histórias tão diferentes
Ainda temos o hábito de associar a idade a determinadas necessidades, interesses e comportamentos. Mas pense em duas pessoas de 60 anos.
Uma está começando um novo relacionamento, fazendo planos e descobrindo interesses que nunca teve tempo de explorar. Outra está cuidando dos pais, reorganizando a vida profissional e tentando encontrar algum espaço para si.
As duas têm a mesma idade. Mas vivem momentos completamente diferentes.
Aos 50, 60, 70 anos ou mais, continuamos fazendo escolhas, mudando de ideia, aprendendo, desejando e encontrando novas formas de viver.
A idade faz parte de quem somos, mas não consegue contar nossa história inteira.
É aqui que a empatia ganha um significado importante. Não como uma palavra bonita, mas como a disposição de reconhecer que a experiência do outro pode ser diferente da nossa. Escutar antes de presumir. Perguntar antes de concluir. Compreender antes de decidir pelo outro.
Inovação com uma pergunta diferente
Vivemos em um tempo em que as empresas sabem cada vez mais sobre nossos hábitos. Conhecem o que compramos, quando compramos e quais produtos costumamos escolher. Mas será que conhecem os motivos que nos levam a fazer essas escolhas? Será que percebem o que muda quando alguém passa a cuidar dos pais, quando os filhos saem de casa ou quando a aposentadoria traz novos desejos e possibilidades?
Essas mudanças transformam nossas prioridades e nem sempre têm relação direta com a idade.
Talvez uma das maiores oportunidades de inovação esteja justamente em compreender essas histórias. Não apenas desenvolver produtos para uma faixa etária, mas criar soluções que considerem diferentes necessidades, formas de viver e relações entre gerações.
E se até dentro das famílias, com todo o afeto que existe, às vezes presumimos o que alguém precisa, quantas empresas também não estarão fazendo o mesmo?
Os dados são importantes. Mas a empatia continua sendo indispensável.
No fim, quem está escolhendo?
Volto à pergunta que dá título a este artigo: quem decide o que entra na sua casa?
Talvez seja você. Talvez seja alguém que mora com você. Ou talvez muitas das suas escolhas tenham um pouco daquilo que aprendeu com seus pais, seus filhos, seus amigos e tantas outras pessoas que participaram da sua história.
E talvez você também esteja vivendo um momento em que suas prioridades estão mudando. Em que aquilo que antes parecia indispensável já não faz tanto sentido. Ou em que novos desejos começam a encontrar espaço na sua vida.
Porque viver mais também significa ter mais oportunidades de mudar, aprender, ensinar e escolher novamente. E essa possibilidade não pertence a uma geração. Faz parte da experiência humana.
Talvez seja por isso que compreender o consumo exija algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão importante: compreender as pessoas.
Porque, no fim, uma escolha nunca conta apenas o que levamos para casa. Ela também revela as pessoas que levamos dentro de nós.
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