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Por Carla Nigro, especial para o VIVA
redacao@viva.com.brSão Paulo, 15/11/2025 - Magda Versiani, 53, lembra que tinha um olfato apurado. O cheiro era capaz de transportá-la para memórias da infância, como o lanche da escola. Apaixonada por perfumes, identificava cada fragrância. Isso não acontece mais. A sensibilidade olfativa diminuiu há um ano quando a influenciadora começou a passar pela menopausa.
Pesquisas recentes mostram que as alterações hormonais do climatério podem afetar não só o sono e o humor, mas também a percepção dos cheiros Embora seja um processo natural, muitas mulheres ainda enfrentam falta de informação e preconceito — inclusive no trabalho.
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Um desses estudos foi realizado este ano pelo grupo O Boticário em parceria com o Centro de Pesquisa do Olfato, com 102 participantes divididas em três grupos etários. Os resultados iniciais indicaram que mulheres entre 50 e 69 anos, em menopausa ou climatério, tendem a perceber menor intensidade e durabilidade das fragrâncias.
Outro estudo, feito na Coreia do Sul com 3.863 mulheres, também encontrou uma relação. Segundo os pesquisadores, quanto maior o tempo de privação de estrogênio, maior a chance de comprometimento olfativo.
“O olfato é uma função sensorial crítica intimamente ligada à qualidade de vida. Embora a perda da função olfativa não seja considerada fatal”, aponta o estudo, “causa problemas relacionados a diversos aspectos, como nutrição e bem estar emocional”.
A diminuição de olfato durante o climatério pode acontecer sem que a pessoa perceba. No estudo coreano, os pesquisadores alertam que diagnósticos baseados em relatos subjetivos podem subestimar a prevalência real, já que muitas mulheres não percebem a mudança, dependendo da intensidade dos sintomas, idade e até da etnia.
Foi o que aconteceu com a empresária e influenciadora Marize Regis, 63. Ela entrou na menopausa cedo, por volta dos 42 anos, e não se lembrava de ter perdido o olfato até o marido contar que, durante um tempo, ela não sentia cheiro de nada. “Ele me dava as coisas para cheirar e eu não sentia cheiro de nada, nem de perfume, nem de azedo”, diz.
Ela explica que começar a sentir os sintomas é um momento difícil.
“Junta tudo. Você está irritada, não se sentindo bem consigo mesmo, não fazendo mais o que fazia antes, pernas cansadas. A pele não é a mesma coisa, o cabelo muda”.
Segundo a empresária hoje, com a reposição hormonal, ela se sente outra pessoa.
A alteração na percepção dos cheiros também pode estar relacionada a mudanças no padrão do sono, outro sintoma frequente da perimenopausa. Em pesquisa do Boticário, por exemplo, 46% das mulheres no climatério relataram perda de qualidade do sono.
A vida de mulheres como Magda e Marize é afetada tanto por esses sintomas quanto por outros — névoa mental, alterações de humor, ressecamento vaginal, fogachos e mais. Cerca de 26 milhões de mulheres vivem hoje o climatério e a menopausa. Mas nem o mercado, nem parte dos profissionais de saúde parecem preparados para lidar com o tema.
"Diria que na maioria das empresas, a menopausa é um tabu”, ressalta Alessandra Avanzo Figueroa, consultora, facilitadora de diálogos e fundadora da Meno na Mesa, uma empresa que ajude líderes e gestores a transformar a experiência da menopausa em inovação e cultura organizacional.
Falar sobre menopausa, segundo Alessandra, ainda é aterrorizante no ambiente de trabalho, por medo do julgamento e da exclusão. “Tive muitos relatos de mulheres que passaram por isso”.
O primeiro passo para as empresas é abrir espaço para o diálogo, pois cada mulher vivência o climatério de forma diferente, explica. Outras medidas incluem montar uma equipe multidisciplinar com especialistas e trocar experiências com companhias que já criam programas voltados ao climatério e à menopausa.
"Ao enxergar a menopausa, as empresas e nós ganhamos como sociedade. Não só em produtividade, pois o corpo pede por mais momentos de pausa e espaços de respiro, mas também passamos por muitos questionamentos emocionais, já que, para os olhos do mundo, deixamos de ser férteis. E tudo isso em silêncio é pesado. É dar espaço para uma transição turbulenta e adoecedora”.
O tabu, no entanto, não está apenas nas empresas. Quando Alessandra começou a sentir os primeiros sintomas, encontrou um sistema de saúde despreparado. Ela conta que o médico receitou um fitoterápico e terminou a consulta sem dar mais informações. Só quando procurou uma médica compreendeu o tratamento "e isso mudou minha qualidade de vida”.
Para ela, é preciso agir em várias frentes. A boa notícia é que muitos movimentos e mulheres começaram a falar publicamente sobre o assunto.
"Temos que continuar estourando as bolhas dos tabus e dos silêncios para que a informação chegue para todas e todos. Isso muda tudo: qualidade de vida, sanidade, expectativa de vida e legado para as futuras gerações”.
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