'Resgate da liberdade e autoestima': dança do ventre conquista mulheres 50+
Prática pode ser adaptada a diferentes idades e condições físicas; professoras e aluna relatam como atividade melhora a relação com o próprio corpo
Arquivo pessoal
Viviane Grosso, aos 52 anos, decidiu aprender dança do ventre após uma viagem à Turquia, buscando resgatar sua autoestima e feminilidade, que se perderam na rotina profissional como advogada. Sua experiência reflete uma tendência crescente entre mulheres maduras que buscam essa prática como forma de autoconhecimento e reconexão pessoal.
Professoras de dança do ventre notam um aumento na participação de mulheres acima dos 40 anos, que muitas vezes chegam sem experiência e encontram na dança um espaço para si mesmas, após anos dedicadas a outras prioridades. A prática não é apenas uma atividade física, mas também um meio de promover novas amizades e melhorar a autoestima.
As aulas de dança do ventre são adaptáveis a diferentes idades e condições físicas, permitindo que mulheres de várias gerações compartilhem experiências. Especialistas afirmam que a dança pode ser uma forma de expressão e vitalidade, incentivando mulheres a não se deixarem limitar pela idade e a explorarem novas possibilidades de movimento.
São Paulo - Aos 52 anos, a advogada Viviane Grosso decidiu fazer algo que nunca havia experimentado: aprender dança do ventre. A vontade surgiu depois de uma viagem de 15 dias à Turquia, onde teve contato com a presença da dança na cultura local. De volta ao Brasil, procurou uma escola e começou a praticar.
O objetivo inicial era trabalhar a postura e desenvolver movimentos que considerava mais leves. Com o tempo, a atividade passou a representar algo maior. “Foi uma forma de me reconectar com essa dança, com esse resgate da autoestima”, conta.
Leia também
Viviane diz que encontrou um lado de si que havia ficado em segundo plano diante da rotina profissional. “Por conta do dia a dia, da correria, do trabalho, a gente acaba perdendo [a feminilidade] com o tempo. Eu trabalho só com homens, sou advogada, então você acaba ficando ali meio no automático", disse.
A experiência de Viviane não é isolada. Professoras ouvidas pelo VIVA relatam a presença crescente de mulheres maduras nas aulas. Algumas chegam depois dos 40 anos sem qualquer experiência anterior e continuam praticando por muitos anos.
Para Renata Chemalle, bailarina, coreógrafa e professora de Viviane, a procura entre mulheres maduras está relacionada também à mudança de prioridades que ocorre ao longo da vida.
Segundo ela, muitas mulheres passam décadas concentradas no trabalho, na família e nas necessidades de outras pessoas. Ao começar a dançar, encontram um espaço dedicado a elas mesmas.
"Toda mulher na maturidade precisa fazer dança do ventre para se encontrar novamente e perceber que, se ela não estiver bem, não adianta: não vai cuidar bem de ninguém, nem da família, nem dela mesma", afirma.
Renata, conhecida como Re, também relata que algumas alunas chegam às aulas com uma percepção limitada sobre a dança do ventre, associando a prática exclusivamente à sexualidade ou sensualidade. “Quando elas veem e descobrem que não era aquilo, elas se dedicam”, diz.
Nas turmas da Khawala' Danças e Bem-Estar, com mulheres de 50, 60 anos ou mais, a professora conta que é comum perceber mudanças na maneira como as alunas se apresentam e interagem. Ela cita novas amizades, maior cuidado com a aparência e a disposição para participar de apresentações como parte desse processo.
Prática ficou mais conhecida no Brasil com ‘O Clone’
Embora a dança oriental tenha uma história anterior no País, a modalidade ganhou grande visibilidade entre o público brasileiro no início dos anos 2000. Segundo pesquisas da Unesp, um dos principais marcos foi a novela "O Clone", exibida pela TV Globo.
A produção apresentou elementos da cultura árabe e marroquina, incluindo músicas, roupas e cenas de dança. A personagem Jade, interpretada por Giovanna Antonelli, tornou-se uma das referências mais lembradas quando o assunto é dança do ventre no Brasil.
Porém, a prática já era ensinada no País antes da novela. A chegada de imigrantes árabes, especialmente sírios, libaneses e palestinos, contribuiu para a presença de manifestações culturais árabes no Brasil ao longo do século XX. A partir das décadas de 1970 e 1980, professoras e bailarinas também ajudaram a estruturar escolas e a profissionalizar o ensino da modalidade.
Filha da Mestra Samira, uma das pioneiras da dança oriental árabe no Brasil, Shalimar Mattar atua como professora, coreógrafa, palestrante e pesquisadora das danças do feminino. Ela também está à frente do Mercado Persa Brasil, evento dedicado à dança e à cultura árabe realizado em São Paulo.
A especialista afirma que não existe uma idade máxima para começar a praticar dança do ventre. Mas, ela ressalta que a pessoa deve respeitar suas condições físicas e buscar liberação médica quando necessário.
O principal motivo apontado é que a modalidade permite diferentes tipos de movimentação. Uma aula pode priorizar força, deslocamentos e movimentos mais intensos ou trabalhar sequências mais suaves, dependendo do perfil e do preparo físico de cada aluna.
“Você pode aplicar a dança a cada corpo de uma maneira diferente, conforme o que for mais apropriado para essa pessoa no momento da vida em que ela está”, explica Mattar.
Para quem nunca dançou, a adaptação também faz parte do aprendizado. Renata conta que começou a praticar dança do ventre aos 39 anos, perto de completar 40. Na época, tinha receio de estar velha demais para começar.
Ela estudou durante quatro anos e, no quinto, tornou-se professora. “Eu sou uma mulher madura que começou a dançar na maturidade”, afirma. “Hoje estou aqui mudando vidas de outras mulheres.”
Quais são os benefícios da dança do ventre?
Além da experiência pessoal relatada pelas entrevistadas, a dança envolve movimentos que trabalham diferentes partes do corpo. Shalimar cita aspectos como consciência corporal, postura, flexibilidade, força muscular e condicionamento cardiovascular.
Essa prática também pode contribuir para a redução do estresse e para a percepção da própria respiração e dos movimentos.
“Destaco a liberação de neurotransmissores e hormônios, como a dopamina, a endorfina e a serotonina. Quando dançamos em grupo, com outras pessoas, a dança trabalha o corpo e a mente", afirma.
Segundo a professora, durante a dança a pessoa precisa compreender os movimentos, acompanhar a música e, ao mesmo tempo, desenvolver a expressão artística.
Ela também destaca o aspecto social das aulas. Quando a atividade é realizada em grupo, há convivência com outras pessoas e troca de experiências entre diferentes gerações.
Como são as aulas para mulheres mais velhas?
Uma das características apontadas pelas professoras é a possibilidade de adaptação. Re Chemalle conta que já ministrou aulas exclusivamente para mulheres com mais de 60 anos, em um projeto chamado Reflorescer.
Ela explica que algumas alunas podem apresentar maior dificuldade para acompanhar movimentos rápidos ou sequências mais complexas. Nesses casos, a professora pode reduzir a velocidade ou oferecer outra maneira de executar o mesmo movimento. “Tudo isso é adaptável”, afirma.
Shalimar também relata que existem turmas com diferentes faixas etárias. Segundo ela, não é incomum encontrar adolescentes, mulheres adultas e alunas mais velhas na mesma sala.
Tem gerações que dançam juntas. A mãe com a filha ou a avó com a neta. A dança pode ser adaptada, e você pode ter uma aula de dança do ventre com alunas de diferentes idades. Isso é incrível, porque uma aprende com a outra.”
Shalimar Mattar, mais de 30 anos de carreira na dança do ventre
O que muda quando a mulher dança depois dos 50?
Para a aluna Viviane, uma das mudanças está na relação com a própria imagem. Ela conta que nunca havia dançado antes e que, com o tempo, passou a perceber a atividade como uma forma de recuperar características que sentia ter deixado de lado.
"Na minha escola de dança, tem meninas de todas as idades, e a gente se dá super bem. É um ambiente acolhedor e feminino, que tem uma essência leve", ressalta.
As apresentações são outro estímulo. Mesmo que a participação não seja obrigatória, Viviane diz que os ensaios e a possibilidade de subir ao palco despertam interesse por uma dimensão artística que ela considera importante na maturidade.
O principal conselho da professora Rê é que quem tem vontade de começar não deixe a idade ou a opinião de outras pessoas impedir a experiência. “Se você tem vontade de começar, comece”, aconselha. “Não ligue para a opinião alheia.”
Para Shalimar, experimentar uma aula pode ser uma maneira de descobrir novas possibilidades de movimento e expressão. Mesmo depois dos 50, ela afirma que continua dando aulas e relata ter alunas com mais de 70 anos e praticantes com mais de 80.
“A dança não envelhece. Ela vai te trazer todos os dias um frescor, algo que vai fazer com que a sua vida seja repleta de dinamismo, de vitalidade, independentemente da sua idade", conclui.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora
