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Fafy Siqueira, aos 71, fala de etarismo e amores: 'Nunca fiquei no armário'

A humorista relembra momentos de seus 50 anos de carreira, da relação de amor e amizade com Chico Anysio e da repercussão sobre sua orientação sexual

Adriana Del Ré

Por Adriana Del Ré

19/09/2026 | 08h00

Divulgação/Saymon Sampaio

Longe das novelas, a atriz e humorista Fafy Siqueira está fazendo teatro e cinema - Divulgação/Saymon Sampaio
Longe das novelas, a atriz e humorista Fafy Siqueira está fazendo teatro e cinema
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Fafy Siqueira, renomada atriz e humorista, destaca-se por suas imitações de personalidades famosas, o que a levou a papéis memoráveis, como o de Dercy Gonçalves, que impactou sua carreira e a fez ser indicada a prêmios internacionais.

Embora tenha iniciado sua trajetória artística como cantora, Fafy se tornou uma figura proeminente no humor brasileiro, participando de programas icônicos e compondo músicas de sucesso para outros artistas, como Xuxa e Sandy & Junior.

Atualmente, Fafy celebra 50 anos de carreira com a peça 'Já Dizia Minha Vó!', abordando temas sociais como o etarismo, enquanto reflete sobre sua vida pessoal e profissional, incluindo sua orientação sexual e o impacto de seus relacionamentos.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Quando Fafy Siqueira imita personalidades, como Roberto Carlos, Reginaldo Rossi ou Ronald Golias, é um acontecimento. Com pleno domínio dessa arte, Fafy vai nos detalhes: na postura, na forma de falar ou gesticular.

Isso está tão inerente a ela que, quando lembra de algum amigo famoso, como Chico Anysio, no meio de uma conversa, sua voz instantaneamente muda e chega ao timbre e ao jeito de falar da pessoa homenageada.

Esse dom levou a atriz e humorista a ser escalada para viver Dercy Gonçalves nas minisséries "Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor" (2010) e "Dercy de Verdade" (2012), na Globo. É um de seus papéis mais memoráveis até hoje.   

Com Dercy, fui indicada para prêmio internacional. Ela foi um upgrade na minha vida. Bem forte."

Além de grande imitadora, a trajetória artística de Fafy tem outras facetas – e talvez a menos conhecida delas seja a ligada à música. A atriz começou sua carreira querendo ser uma cantora de sucesso. Uma Ivete Sangalo. Em 1974, chegou a ganhar o prêmio de cantora revelação no programa "Globo de Ouro", da Globo.

Fafy Siqueira caracterizada como Roberto Carlos, com camisa azul, casaco branco e peruca
Fafy Siqueira como Roberto Carlos, uma de suas principais imitações - Reprodução/TV Globo

Mas seu caminhar na arte a levou para o teatro, e depois para a TV e o cinema, sob o mesmo pilar do humor. Fez fama em humorísticos como "A Praça é Nossa" e "Escolinha do Professor Raimundo", e em novelas que investiam na comédia, como "Zazá", ao lado de Fernanda Montenegro. 

Mesmo não seguindo como cantora, como sonhou na juventude, Fafy se tornou uma compositora requisitada. É de sua coautoria, por exemplo, sucessos como  "Marque um X", da Xuxa, e "Rap do Aniversário", de Sandy & Junior, entre outras canções compostas para outros artistas. 

Longe da TV – para onde espera voltar logo –, Fafy faz filmes e espetáculos teatrais. Atualmente, ela comemora seus 50 anos de carreira em cima do palco, na peça "Já Dizia Minha Vó!", no Teatro UOL, em São Paulo. Dividindo a cena com Rachel Gollassi, aos 71 anos, ela usa a leveza da comédia para refletir sobre temas em debate na sociedade hoje. Entre eles, a luta contra o etarismo, ao interpretar uma avó que quer voltar ao mercado de trabalho e encontra barreiras para isso. 

Em entrevista ao VIVA, Fátima de Figueiredo, a Fafy, fluminense criada na Tijuca, fala sobre carreira, envelhecimento e lembra da repercussão ao revelar, em 2020, que era casada com a diretora teatral Fernanda Lorenzoni, 35 anos mais jovem. O relacionamento, que já terminou, veio à tona durante uma entrevista em que atriz comentava o acidente doméstico que a fez quebrar três costelas. Leia os principais trechos.

Você está completando 50 anos de carreira. Qual é o maior aprendizado que você carrega dessa história toda?

Não desistir. Eu não queria ser atriz, eu não queria ser humorista. Eu queria ser Ivete Sangalo. Queria cantar para o povo. Tenho três grandes amigos: a Sandra Sá, minha comadre, a Joanna e o Elymar Santos, que conseguiram ser vitoriosos em suas carreiras e eu, não. Aí fui fazer outra coisa e, de repente, caí no humor e hoje em dia o humor é a minha religião. Acho que tenho uma ligação espiritual com o humor. É uma missão da minha vida.

Como você migrou da música para atuação?

Fafy Siqueira caracterizada como Dercy Gonçalves
Fafy Siqueira como a lendária atriz e comediante Dercy Gonçalves - João Miguel Júnior/TV Globo

Eu precisava pagar meu aluguel e não estava conseguindo. Coincidentemente, comecei a namorar um produtor de teatro e ele falou: "Você quer fazer trilhas sonoras para uma peça que eu vou montar?”. Nem fui eu que fiz a trilha, mas ia muito aos ensaios. E aí eu estava completamente sem saber para onde ir. Houve um problema: a atriz que fazia um papel chamado Marta, a mulher do povo, ficou doente. Falei: "Sei fazer isso". Fui lá e fiz. Não continuei no teatro, não era aquilo que eu queria. Mas comecei a andar com atores, a ver como falavam, como agiam. Foi dando certo. Um dia, eu estava fazendo uma peça infantil – que não gosto de fazer. O (diretor) Wolf Maya, por uma questão divina, viu sem querer e falou: "Vou chamar você para fazer minha novela ("Hipertensão", de 1986)". Era Dona Fifi. Até hoje as pessoas não sabem que fui eu que inventei. Quando a pessoa é fofoqueira chamam de Fifi.

Ah por causa da personagem...

Sim, mas saí logo da Globo e fui para o SBT para fazer humor. Então, não houve uma perpetuação dessa personagem em relação a Fafy: “a Fafy que fez a Fifi”.

Você continua compondo?

Continuo. Acabei de fazer uma música que vai ser gravada pela Sandra Sá e Xande de Pilares, que se chama “Respeita Meu Cabelo”. Acabei de fazer também “O Amor é Minha Religião”. Meu maior sucesso é “Marquei um X”, da Xuxa. E fiz música para Sandy & Junior, para Sandra, para Joanna e fiz muita música para o pessoal antigo também: Maria Creusa e Tony Tornado. Vou te ser sincera: a música me dá tanto prazer.

Você recebeu recentemente convite para voltar às novelas?

Eu estou com saudade de fazer uma novela. Não recebi convite nenhum. Meu convite é tudo de humor. São peças. Não paro de trabalhar, mas novela não tem. Acho que também porque eles abdicaram do humor na novela. O Miguel Falabella fez o programa “Roda Viva” e falou que não quer mais ser ator. Ele só quer escrever e quer trazer para o horário das 7 o humor. Fiz muita novela das 7 de humor. Fiz quatro com a Fernanda Montenegro, inclusive. Fiz filha dela na novela “Zazá” (1997), era engraçadíssima. Acho que falta isso também na televisão.

Pensando em TV, quais papéis acha que são marcantes na sua carreira: na "Escolinha do Professor Raimundo" ou Dercy Gonçalves?

São duas coisas diferentes. Eu estava conversando sobre isso com o Gustavo Mendes, que é um grande ator, que faz a imitação da Dilma (Rousseff). Ele falou: "Posso fazer Shakespeare, mas vou ser sempre a Dilma". Falei: bem-vindo ao clube, porque posso fazer o que for que vou ser sempre o Roberto Carlos, é meu personagem mais famoso. Mas com a Dercy, fui indicada para prêmio internacional. A Dercy foi um upgrade na minha vida. Bem forte.

Queria relembrar sua parceria com o Chico Anysio. Vocês tiveram um breve romance e ficaram amigos. Qual a importância dele na sua carreira?

Acredito que é a maior. Ele confiou em mim. (A personagem) Fifi fez muito sucesso. Só que a TV Globo não me contratou. Então, fiquei meio sem saber o que eu fazia. Nisso, o Chico me chamou para fazer a "Escolinha', no auge do programa, e o Carlos Alberto de Nóbrega me chamou para fazer a "Praça". Só que entrei na "Praça". Vi o Ronald Golias, a Nair Bello, a Catifunda, o Lilico, o Geraldo Alves, o Canarinho, eu falei: "Quero ficar aqui". Eu não tinha nem empresário, não tinha nada. Era uma garota da Tijuca, boboca, desempregada como cantora.

Fiquei três anos na "Praça". Tenho orgulho. Foi lá que aprendi a ser uma humorista."

Mas eu queria fazer dramaturgia e o Carlos Alberto é muito ciumento. Acho que ele é assim até hoje. Um dia, Chico Anysio me liga. Não era qualquer um: era o Chico Anysio. "Fafy, se você vier para a 'Escolinha', não só deixo você fazer como indico você para fazer outras coisas de dramaturgia na Globo". E, naquela época, tinha programas como "Você Decide" e "Brava Gente". Fui contratada pela Globo por 15 anos. Fiz poucas novelas, mas fiz muita essa teledramaturgia. E a "Escolinha" e o "Zorra Total". Sei de gente que quis me mandar embora, forças ocultas, e o Chico, como força oculta maior, falava: "Não, não vai mandar". Levantava da mesa e ia embora.

E a relação entre vocês?

Fafy Siqueira está vestida como a personagem, com roupa verde, em cima da mesa, rindo, sob o olhar de Chico Anysio como o Professor Raimundo
Fafy Siqueira com Chico Anysio na "Escolinha do Professor Raimundo" - Reprodução/TV Globo

Eu morava na Lagoa, a duas quadras do teatro onde ele trabalhava. Ele tinha acabado um romance com uma mulher linda, a Aldine Muller. Ele estava solteiro, nós ficamos amigos. Nessa época, eu não estava trabalhando com ele ainda. Eu ainda era da "Praça".

A gente ia muito aos restaurantes do Ricardo Amaral, Chico’s Bar, e houve uma coisa de affaire muito grande, de um sentimento... Ele é um homem muito interessante. Por isso, ele namorava quem ele queria. A gente começou a ter uma coisa lúdica, só que o objetivo dele era casar de novo e ter filhos. Ele queria ter uma filha.

Comecei a perceber que a minha parada não era essa. Por que continuar? Eu via que, se eu desse continuidade naquilo, a amizade ia dar um retrocesso. Tanto que passados dois, três meses, ele começou a namorar a Zélia Cardoso de Mello. Aí ele dirigiu e produziu um show meu. Eu frequentava muito a casa dele e da Zélia. Então, para mim, ele foi o mais importante. Eu ligava e falava: "Chico, isso é que é engraçado?". E ele: “É”. Objetivo. Mas era tão divertido. Ai que homem culto. Ai que beleza de homem.

Falando em amores, em 2020, você tornou público seu relacionamento com a Fernanda. Como que foi para você expor publicamente a sua orientação sexual aos 65 anos?

Naquela época, foi muito natural, porque eu nunca escondi nada de ninguém. É que ninguém nunca me perguntou nada."

Até no programa do Bial, eu falei: "O que vocês queriam que eu falasse? Que eu chegasse e falasse: ‘Alô, gente, sou sapatão? Nunca me perguntaram nada. A primeira pessoa que me perguntou foi a repórter da Patrícia Kogut: "tinha alguém com você?". Respondi que tinha. E ela: quem? Falei: "Fernanda, a moça está perguntando". Ela disse: "Fala, Fafy". Aí falei: "É minha namorada". No dia seguinte, ninguém queria saber da costela quebrada, da pandemia, queriam falar: ‘Fafy saiu do armário’. "Não saí, não. Sou claustrofóbica, nunca fiquei em armário nenhum, é que vocês nunca me perguntaram". Estou falando agora e tudo bem.

Foi essa repercussão toda?

Fafy Siqueira está de branco e ao lado da então mulher Fernanda Lorenzoni, que está de vermelho
Fafy Siqueira com a ex-mulher, Fernanda Lorenzoni, com quem foi casada por 10 anos - Reprodução/Instagram @felorenzoni

Sim, acho muito engraçado esse termo orientação sexual. A minha mãe me criou para que eu casasse virgem, tivesse dois filhos, casasse com um homem. A minha orientação sexual foi essa. Eu não quis. Aí aconteceu de eu gostar de mulher, de não me sentir culpada nem nunca ter problema com isso. Mas tive problema em ser mulher. "Não, você não pode fazer isso porque você é mulher". Ouvi umas quatro vezes isso. Tanto na música popular brasileira quanto na minha carreira de humorista.

Tiraram meu quadro do “Zorra Total”, um quadro maravilhoso que estava indo super bem, porque eu rimei ‘Brasil com ponto que partiu’. Eu não podia fazer isso. O alto escalão da TV Globo me chamou. Falei: "Mas um dos meus mestres que foi o Agildo Ribeiro gruda o bumbum da mulher e fala: ‘Sobe mais, sobe mais’. Outro mestre, Paulo Silvino, olha para a câmera e fala: ‘Ai como era grande’". “Mas eles são homens, Fafy. Você é mulher".

Qual era o problema dessa rima?

É porque, na época, podia parecer um palavrão. Nesse quadro, eu interpretava uma portuguesa que tinha uma cantina. Imitei Elba Ramalho, Marilyn Monroe, Reginaldo Rossi. Era o quadro de maior audiência. Tive que calar projetos, porque não era homem. Quando era jovem, eu imitava o Elvis igualzinho. Ouvi: "Pô, Elvis é Elvis. Você tem que imitar Rita Pavone". Mas eu queria muito imitar o Elvis e não conseguia. Minha vingança foi que depois eu só imitava homem: Roberto Carlos, Golias, Reginaldo Rossi.

Ainda sobre sua relação com a Fernanda, acha que pesou o fato de você ser mulher para as pessoas falarem sobre a diferença de idade entre vocês?

Não foi mais pesado, porque tive um fã-clube que cortou essa parada. A gente tinha um fã-clube do casamento. Estou falando das redes sociais. Muita gente falava: "É sua neta?". E aí esse comentário gerava, por exemplo, 40 outros chamando aquela pessoa de ridícula. Eu me sentia no colo do meu público. Eu não precisava nem rebater. Era um carinho da imprensa comigo e com ela tão grande. Era tão engraçado que a gente falava: "amor, somos Tarcísio Meira e Glória Menezes; Paulo Goulart e Nicette Bruno".

Do público teve menos hate e mais carinho também?

Sim. E graças a Deus, porque fiquei um pouco com raiva. Não levei isso muito na boa, não, dessa coisa da diferença de idade. Fiquei com uma raiva danada das pessoas que falavam. Mulher me chamando de velha, perguntando se ela era a minha neta. Meus amigos e meus orientadores falavam: "acalma a sua Dercy". A Fernanda também me ajudou muito: "deixa para lá". Achei melhor mesmo, porque o montante de gente carinhosa e mais amorosa era tão grande que não valia a pena aquilo.

Vocês não estão mais juntas?

A gente se separou em janeiro deste ano, foram 10 anos de casamento. Somos muito amigas. Quantos casais hoje em dia duram 10 anos?

Como é a experiência de envelhecer?

Acho muito ruim. Acho chato, como diria Fernanda Montenegro. Mas a vida não pode ser chata.

Acho que é um aprendizado constante. É um aprendizado, é um desafio, de saúde, de se cuidar.

Sei que não é fácil hoje em dia com todos os contextos, inclusive monetários. Cuidar da saúde custa caro. Cuido de uma coisa de cada vez. Porque, se você se preocupar também em consertar tudo, não vai conseguir. Falo que eu sou um Opala, o melhor dos anos 70. A gente tem que se cuidar nesse sentido da saúde, na medida do possível. Vai fazer e vai seguir sua vida. Se você tiver uma fé, siga a sua fé. Siga a sua luz. Veja o que você tem que fazer e não esmoreça.






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