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Da aviação ao varejo: guerra eleva custos e muda planos das empresas

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Alta do petróleo tem pressionado custos de materiais sintéticos usados na fabricação de roupas - Envato
Alta do petróleo tem pressionado custos de materiais sintéticos usados na fabricação de roupas
Por Broadcast

10/05/2026 | 15h41

São Paulo - Empresas de diferentes setores, da aviação à moda, já começam a sentir os efeitos da escalada da guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. O aumento do preço do petróleo pressiona os custos de combustíveis, matérias-primas e logística e afeta o planejamento e o caixa das companhias.

Numa semana marcada pela divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2026, o assunto foi um dos mais comentados pelos CEOs de empresas como C&A, Latam Airlines Brasil, Azul, Vulcabras, Gerdau e Usiminas, além dos grandes bancos.

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Eles destacaram o aumento de despesas com petróleo, fretes e insumos derivados, além da preocupação com o avanço da inflação e possível reflexo no ciclo de queda dos juros.

Para analistas e executivos, o cenário lembra os choques observados durante a pandemia de covid-19, em meio a uma reorganização global de cadeias produtivas, alta da volatilidade e pressão sobre preços ao consumidor.

Segmento de calçados

O presidente da Vulcabras, Pedro Bartelle, afirma que os efeitos econômicos provocados pelo conflito se assemelharam ao impacto causado pela pandemia da covid-19, sobretudo no início.

“Começamos a ver que ia faltar matéria-prima, o preço do contêiner saltou e os custos subiram: tudo isso começou com um efeito muito parecido com o da pandemia. Hoje, não é mais, mas há semelhanças”, afirmou.

Um dos paralelos é que as reuniões semanais de diretoria na companhia se tornaram mais frequentes agora, de maneira parecida com a época da crise sanitária, quando passaram a ser diárias.

O executivo afirmou que teve de rever completamente a estratégia para 2026, diante da disparada nos custos de matérias-primas derivadas do petróleo.

Fizemos um orçamento para um cenário e tudo mudou. Aquela receita de dezembro já não funciona mais. Está muito incerto. Já nos adaptamos e agora estamos no meio da guerra”, diz ele.

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A empresa reajustou preços em até 15%, antecipou lançamentos e passou a priorizar produtos de faixa intermediária, apostando em uma migração do consumo para modelos mais baratos em meio ao cenário econômico mais pressionado.

Varejo de moda

A pressão sobre derivados do petróleo também chegou ao varejo de moda. O CEO da C&A, Paulo Correa, afirmou que a alta do petróleo tem pressionado os custos de materiais sintéticos utilizados pela companhia, como o poliéster.

“A subida no preço do petróleo faz com que os materiais sintéticos, que de alguma maneira são derivados, acabem tendo um impacto maior nessa pressão de reajuste”, afirma.

Segundo ele, o impacto dos custos mais altos de insumos sintéticos tem sido parcialmente compensado pela valorização do real frente ao dólar, o que ajuda os produtos importados.

Apesar da pressão recente, o executivo afirmou que a companhia mantém conversas positivas com fornecedores e não identifica, por enquanto, riscos mais relevantes para as margens.

Aviação: custo de combustível dispara

Se no varejo o impacto aparece nos insumos, no setor aéreo a pressão é ainda mais direta, por causa da disparada do querosene de aviação (QAV), cujo preço disparou nas últimas semanas.

Em abril, a Petrobras reajustou em 55% o preço do combustível, mas permitiu que o porcentual fosse dividido em até seis vezes a partir de julho. Neste mês, o reajuste foi de 18%, o que significa R$ 1 por litro.

O CEO da Latam no Brasil, Jerome Cadier, disse que o preço do combustível tem avançado acima do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio e atingindo níveis inéditos.

“Muito se fala do petróleo, mas estamos com preços nunca antes vistos na indústria de aviação para o QAV”, disse ele, durante apresentação dos resultados na semana passada. Ele criticou a proposta da Petrobras de parcelamento do aumento do QAV e disse que a medida não reduz os preços e ainda adiciona custo financeiro às companhias.

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“O aumento será pago com custo financeiro. O problema não é financiamento, é custo. A gente precisa lidar com o nível de preços”, reforçou o executivo.

A Latam registrou impacto de cerca de US$ 40 milhões no primeiro trimestre de 2026 em função da alta do combustível. A companhia espera efeitos mais relevantes nos próximos meses, projetando despesas adicionais superiores a US$ 700 milhões no segundo trimestre. Diante desse cenário, revisou para baixo as projeções para o ano.

Na Azul, embora a preocupação com o combustível também esteja no radar, a leitura é de que a valorização do real frente ao dólar ajuda a aliviar parte da pressão.

O CEO da Azul, John Rodgerson, destacou que isso acaba amenizando os impactos para as aéreas, já que grande parte dos custos está atrelada à moeda americana, incluindo o querosene de aviação e dívidas.

Uma semana antes, ele havia afirmado que a disparada do preço do querosene de aviação já força companhias aéreas a rever rotas, frequências e estratégias comerciais no mundo todo.

Segundo ele, a companhia avalia cortes pontuais de voos e reajustes tarifários, mas busca preservar a conectividade em regiões estratégicas, priorizando ajustes operacionais em vez da eliminação total de rotas.

De olho no impacto que os aumentos podem ter nas passagens para o consumidor, o governo federal já desenha uma linha de crédito temporária para ajudar as companhias aéreas.

O valor total seria de até R$ 1 bilhão, limitado a 1,6% do faturamento bruto anual de cada empresa. O teto estudado é de R$ 330 milhões por companhia ou conglomerado. A União assumirá o risco integral das operações.

Varejo alimentar

No varejo alimentar, o impacto já começa a aparecer, sobretudo nos produtos mais perecíveis e dependentes de logística rápida. O vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Marcio Milan, afirmou que a pressão tem sido mais intensa em frutas, verduras e outros itens frescos.

“O cenário vem nos preocupando. Não há perspectiva de acordo no curto prazo e, mesmo que ocorra, a normalização tende a demorar”, afirmou Milan.

Segundo ele, a tendência é de que a pressão de custos se estenda para o segundo semestre, especialmente em regiões mais distantes dos centros produtores, onde o frete tem maior peso.

Apesar disso, o repasse ao consumidor final ainda varia entre as empresas, a depender de fatores como nível de estoque, oferta e estratégia comercial, em um ambiente ainda competitivo.

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