A Farmácia Popular vai acabar? Professor analisa disputa no 2º turno
Na reta final das eleições, campanhas recorrem à política do medo e apresentam visões antagônicas sobre o acesso a medicamentos
Elza Fiuza/Agência Brasil
A pesquisa do Instituto Datafolha revela um empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, com ambos os candidatos registrando 50% das intenções de voto nos votos válidos, o que intensifica a polarização política a poucos dias da eleição.
Flávio Bolsonaro propõe cortes significativos nas contas públicas, entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões, enquanto Lula defende a manutenção e expansão de programas sociais, como a Farmácia Popular, evidenciando visões opostas sobre o papel do Estado na economia.
As campanhas têm se concentrado em estratégias que evocam medo e esperança, com Lula alertando sobre os riscos de cortes em programas sociais e Bolsonaro prometendo um sistema de entrega de medicamentos, mas sem detalhes claros sobre sua implementação, enquanto a taxa de indecisos permanece em 2%.
São Paulo - Na reta final do segundo turno, neste domingo, 25, em que a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha confirma o cenário de empate técnico absoluto entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), um dos pontos principais da propaganda política é a manutenção dos programas sociais. Um deles é a Farmácia Popular, programa de distribuição gratuita de medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS).
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Em resposta à promessa de Flávio sobre um tesouraço nas contas públicas, Lula acusou o rival de planejar o corte da Farmácia Popular. "Você vai cortar os benefícios do povo, é assim que seu pai fez. Você vai cortar o Farmácia Popular, vai deixar de dar aumento ao salário mínimo acima da inflação", disse Lula em um vídeo divulgado nas redes sociais em 11 de outubro.
Poucos dias antes, em 9 de outubro, o candidato da oposição disse a jornalistas que manterá programas sociais como o Bolsa Família e a Farmácia Popular, em resposta às acusações da campanha adversária.
O professor e pesquisador Ary Azevedo, vice-líder do grupo de pesquisa Comunicação Eleitoral (CEL) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), avalia que a diferença entre os dois planos reflete concepções de Estado distintas: uma indutora e pública, a outra voltada ao enxugamento e a parcerias privadas.
O que mostram os planos de governo?
Ambos os programas de governo entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) falam sobre a distribuição de medicamentos; contudo, apresentam visões antagônicas sobre a estruturação política dos programas.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
A plataforma petista trata a Farmácia Popular como prioridade na atenção básica do SUS. O documento assinala que o programa alcançou 27,3 milhões de pessoas em 2025 e garante a manutenção da gratuidade total do catálogo de 41 medicamentos, fraldas geriátricas e absorventes.
A proposta central de Lula é diversificar o escopo da rede, passando a incluir a oferta de exames laboratoriais, de diagnóstico e de monitoramento de condições crônicas — como hipertensão e diabetes —, além de estabelecer parcerias para expandir postos de retirada nas periferias das grandes cidades e em regiões com vazios assistenciais.
Sobre a expansão dos serviços, Azevedo destaca o ganho de capilaridade para a saúde pública. "O que é interessante nessa proposta da Farmácia Popular do Lula é manter o que já existe, que é a distribuição de remédios de uso contínuo, e expandir isso também para a realização de alguns tipos de exame. Você capilariza o atendimento e tende a reduzir as filas no Sistema Único."
Ary Azevedo aponta que as farmácias já vêm passando por uma mudança estrutural no setor privado, deixando de ser meros pontos de venda de medicamentos para atuar como centros de cuidados primários e serviços básicos.
Flávio Bolsonaro (PL)
O plano oficial do candidato do PL não cita nominalmente a Farmácia Popular. A pauta do acesso a medicamentos é contemplada na seção de atenção preventiva à saúde sob a perspectiva de facilitador logístico.
A proposta de Flávio Bolsonaro consiste na criação de um sistema de entrega de remédios em domicílio direcionado a pessoas idosas, com deficiência e com doenças crônicas. A medida é apresentada no plano com a finalidade de evitar o deslocamento físico desses públicos e poupar custos com o transporte até as unidades de saúde.
Ao examinar a promessa, o pesquisador aponta a falta de especificação técnica e orçamentária.
"Tem proposta de entrega de remédios para idosos em domicílio. Só que não mostra a relação de quais tipos de remédios nem qual o recorte dos idosos, se de baixa renda ou baixíssima renda."
Além disso, Ary Azevedo aponta uma contradição no discurso fiscal da oposição ao prometer manter programas sociais enquanto sinaliza um corte profundo nos gastos públicos.
Durante a campanha, Flávio propôs um corte que varia entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões — o que corresponde a cerca de 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) —, a fim de lidar com a dívida de R$ 11 trilhões da União. Nas declarações públicas, a equipe econômica de Flávio, composta por Adolfo Sachsida e Daniella Marques, tem defendido um ajuste fiscal baseado, por exemplo, na extinção de ministérios, na reforma administrativa e em privatizações.
"Ao mesmo tempo em que você tem a ameaça de tesouraço de R$ 200 a R$ 250 bilhões, partir da premissa de que isso não vai impactar os programas sociais e o funcionamento da máquina pública é contraditório", diz o professor.
Política do medo vigora no 2º turno
O pesquisador da UFPR aponta que a discussão sobre propostas concretas foi enfraquecida por uma profunda degradação da credibilidade pública e por acusações morais cruzadas — como os recentes embates sobre a quebra de sigilos bancários e fiscais.
Para Azevedo, ambas as campanhas, à sua maneira, apelam para a política do medo — estratégia de discurso em que líderes, partidos ou grupos usam a insegurança e o pânico (real ou fabricado) para orientar as decisões eleitorais. No ambiente polarizado, o medo é acionado como um mecanismo para neutralizar a esperança depositada no adversário.
Dentro dessa estratégia, você coloca no adversário a possibilidade de destruir a sua esperança — então você precisa votar em mim. Esperança e medo dialogam de uma forma quase equivalente.
Ary Azevedo, vice-líder do grupo de pesquisa Comunicação Eleitoral (CEL)
Ele pontua que, quando o eleitor percebe o cenário político de forma homogênea, alimentado por escândalos e guerras de versões nas redes sociais, a confiabilidade nas promessas institucionais se dissolve.
"Quando o contexto todo aparenta ser homogêneo — no qual a direita é corrupta, mas a esquerda também, e a política não presta —, isso é muito ruim. Essa descrença redunda em uma alta abstenção e votos nulos. O que resta aos partidos é tentar convencer não por meio da discussão de propostas, mas por uma discussão ética e moral."
Diante dessa perda de ancoragem racional, as campanhas passaram a operar na fronteira entre o medo e a esperança para mobilizar o eleitor hesitante ou propenso a se abster, analisa o professor.
Com a taxa de indecisos situada em 2% no Datafolha e a abstenção do primeiro turno acima dos 33,4 milhões de eleitores (a maior desde 1998), fica a dúvida: qual o potencial de convencimento dos dois lados polarizados?
O professor explica como esse ciclo de desgaste atua sobre o comportamento do eleitor. "O Flávio fala ambiguidades, aí o Lula aproveita e reforça que pode ser acabado, pode ser extinto. Tem o medo de o PT se perpetuar nessa nova administração. E o contrário também é verdadeiro: a parcela progressista da população tem muito medo quando lembra das políticas ambientais e de saúde. Esperança e medo dialogam de uma forma quase equivalente."
O que é a Farmácia Popular?
Instituído originalmente pelo Decreto nº 5.090/2004 — que regulamentou a Lei nº 10.858/2004 —, o Programa Farmácia Popular do Brasil (PFPB) funciona como uma estratégia complementar de assistência farmacêutica integrada ao SUS.
O objetivo central do programa é universalizar e ampliar o acesso a medicamentos essenciais, reduzindo o impacto financeiro que a compra de remédios causa no orçamento das famílias brasileiras.
O programa opera tanto em rede própria quanto em parceria com farmácias e drogarias privadas credenciadas, identificadas pelo selo "Aqui Tem Farmácia Popular", além de Unidades Básicas de Saúde (UBS) e farmácias municipais.
Atualmente, o Farmácia Popular oferece gratuitamente tratamentos para 12 indicações de saúde:
- Doenças crônicas e recorrentes: Hipertensão arterial, diabetes mellitus, asma, osteoporose, dislipidemia (colesterol alto), rinite, doença de Parkinson e glaucoma.
- Saúde cardiovascular: Diabetes mellitus associada à doença cardiovascular.
- Planejamento familiar: Medicamentos anticoncepcionais.
- Insumos de cuidado: Distribuição de fraldas geriátricas para pessoas com incontinência — idosos com 60 anos ou mais ou pessoas com deficiência — e absorventes higiênicos no âmbito do Programa Dignidade Menstrual.
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