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Eleições 2026
Cidadania e Direitos / Política

Pela primeira vez, TSE divulga dados LGBT+ em eleições gerais; confira

Antônio Cruz/Agência Brasil

A Corte Eleitoral registrou 108 candidaturas de pessoas transgênero - Antônio Cruz/Agência Brasil
A Corte Eleitoral registrou 108 candidaturas de pessoas transgênero
Por Paula Bulka Durães

25/08/2026 | 08h41

São Paulo - Nas eleições gerais de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dá um passo histórico ao mapear, de forma oficial, o perfil de orientação sexual e identidade de gênero dos candidatos. Entre as 20.687 candidaturas consolidadas para o pleito deste ano, o País registra 487 postulantes LGBTQIAPN+ — o equivalente a 2,35% do total. 

Entre aqueles que declararam a orientação sexual, a maioria (53,04%) identificou-se como heterossexual. No campo da identidade de gênero, além dos declarados cisgêneros, a Corte Eleitoral registrou 108 candidaturas de pessoas transgênero (0,52%).

Do total de concorrentes nas eleições deste ano, 44,98% optaram por não divulgar sua orientação sexual à Justiça Eleitoral. Quando o tema é identidade de gênero, o índice de reserva é muito similar: 42,34% preferiram omitir se são pessoas cisgênero ou transgênero.

Os dados do TSE, presentes na página oficial de estatísticas e acessados na última sexta-feira, 21, não são definitivos, embora o prazo de registro de candidaturas tenha se encerrado no último dia 15 de agosto, pois ainda está sob análise do órgão. 

No entanto, o total de candidaturas LGBT+ registradas pelo Instituto Plena Cidadania supera o levantamento com base nos dados do TSE e chegam a 514 concorrentes em 2026. A organização cruza essas informações com candidaturas autodeclaradas ao projeto VoteLGBT, com autorização de divulgação.

Membro da diretoria executiva do Instituto Plena Cidadania e responsável pelo projeto, Gui Mohallem explica a origem da mudança. Ele relata que foi o próprio instituto que provocou o TSE, em aliança com o senador Fabiano Contarato (PT-ES) e com as deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP), Duda Salabert (PSOL-MG) e Daiana Santos (PCdoB-RS).

"Eles toparam e começaram o registro primeiro nas eleições municipais, em 2024, e agora pela primeira vez nas eleições gerais de 2026", relembra.

Para Mohallem, o alto índice de omissão atual está atrelado à falta de preparo de parte das legendas partidárias. "A gente não olha para isso com muita atenção, não, sinceramente falando, porque é o partido que declara". E completa: 

Estamos trabalhando há 12 anos para transformar LGBT, nossa identidade, em valor político. Pessoa LGBT que está na política e não se declara, a gente não conta, porque ela não está trabalhando para que isso vire um valor político."

Ele conta que a evolução dos dados ao longo dos últimos pleitos indica um avanço na percepção da identidade como força política. No início, em 2014, nem dava para fazer um site com candidaturas LGBT, porque não tinha candidatura declarada; era considerado uma vulnerabilidade eleitoral se declarasse, diz o ativista.

"O que aconteceu de lá para cá é gigantesco. Essa galera que já era LGBT e que não falava com medo de repreensão está entendendo que a vulnerabilidade está virando poder".

Maioria de candidatos LGBT+ é para deputado

O mapeamento aponta que a busca por espaço político se concentra quase exclusivamente nas disputas proporcionais, ou seja, nas vagas para o Poder Legislativo. Juntos, os cargos de deputado estadual, federal e distrital reúnem 466 das 487 candidaturas do grupo (95,69%).

Apenas 21 representantes (4,31%) concorrem a postos majoritários. Não há candidatos LGBTQIAPN+ registrados para a Presidência da República, mas o levantamento aponta a presença de postulantes aos cargos de vice-presidente (1), governador (4), vice-governador (8), senador (4) e suplentes de senador (4).

Sobre a concentração das candidaturas em vagas legislativas, Mohallem pontua o contexto histórico de protestos da causa, além do fato de que no Executivo é preciso ter maioria de votos, 50% mais um.

E quem vai votar em 50% mais um em alguém que, para muita gente, nem deveria existir? Então, é legislativo porque é o que dá."

Pessoas com mais de 60 anos são minoria

A proporção de autodeclaração varia de forma expressiva de acordo com a faixa etária dos políticos, indicando uma mudança comportamental entre as gerações.

Entre os 866 candidatos com menos de 30 anos no País, 9,12% declaram-se abertamente LGBTQIAPN+. Esse grupo mais jovem representa 16,53% de todo o contingente dessa comunidade que disputa as eleições neste ano.

Na faixa de 60 anos ou mais, que conta com 4.351 candidatos em todo o Brasil, apenas 23 declaram-se LGBTQIAPN+, ou 0,53% do universo de pessoas idosas na eleição. Dentro dessa parcela da população, as estatísticas oficiais registram um candidato gay na faixa etária de 85 a 89 anos e uma candidata lésbica na faixa etária de 70 a 74 anos.

Segundo Mohallem, a reduzida presença de pessoas mais velhas declaradas reflete o impacto histórico de crises sanitárias e sociais do passado. "Muita gente foi morta pelo vírus HIV, por conta de negligência estatal. Perdemos mentes brilhantes que poderiam estar aqui hoje ocupando esses espaços também da política. A geração mais velha de hoje é uma geração de sobreviventes", avalia.

Para o diretor, o acesso e a consolidação de dados numéricos oficiais sobre a população LGBTQIAPN+ são passos fundamentais para a construção de políticas públicas estruturadas. "A falta de números sobre nossa população é uma das maiores negações da nossa cidadania. Como é que você faz política pública se você não tem dado?", questiona

Diversidade regional e financiamento

A presença de representantes LGBTQIAPN+ também varia conforme a região. Proporcionalmente, o Centro-Oeste lidera, com 2,74% de candidatos desse grupo em suas chapas locais, seguido pela região Sul (2,27%), Nordeste (1,99%), Sudeste (1,80%) e Norte (1,53%).

Em números absolutos, o Sudeste concentra a maior quantidade, com 126 candidaturas, reflexo de ser o maior colégio eleitoral do País.

A destinação de verbas públicas de campanha por parte dos partidos políticos continua sendo apontada como um dos principais desafios para a viabilidade dessas postulações.

Apesar da visibilidade numérica, o TSE não estabelece uma cota eleitoral específica para a população LGBTQIAPN+, não prevendo o repasse obrigatório de recursos de campanha direcionados à orientação sexual e identidade de gênero. Contudo, é garantido o uso do nome social nas urnas eletrônicas, direito regulamentado pelo Tribunal desde 2018.

Distribuição ideológica

Na divisão político-partidária, os registros indicam uma forte concentração no campo da esquerda e centro-esquerda, que abrigam 79,5% do total de candidaturas LGBT+ do Brasil, com 380 postulantes.

O espectro de centro reúne 56 candidaturas, enquanto a centro-direita e a direita somam, juntas, 37 candidatos. Partidos classificados como de extrema-direita não registraram candidaturas identificadas com o grupo.

Saiba mais sobre o projeto VoteLGBT

Para facilitar o acesso a essas informações, o projeto VoteLGBT concentra uma página interativa, com levantamento próprio de todas as candidaturas LGBTQIAPN+ nas eleições gerais de 2026, divididas por cargo, partido, localização e principais causas.

No portal, o eleitor pode conferir, por exemplo, candidatos mais alinhados com pautas de Cidadania ao Envelhecer e outras bandeiras que considerar importantes. Para acessar a página, clique aqui.

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