Datafolha registra pela 1º vez empate de 50% em pesquisas eleitorais
Cientista político ressalta que o arredondamento dos números não permite identificar com segurança quem está à frente na corrida à Presidência
Por Pedro Marques e Silvia Araújo
23/10/2026 | 13h04Wilson Dias/Agência Brasil e Marcelo Camargo/Agência Brasil
O Datafolha registrou pela primeira vez desde a redemocratização um empate técnico inédito no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, com 50% das intenções de voto para Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, o que gera incertezas sobre o resultado final.
A pesquisa indica que a avaliação do governo Lula melhorou, enquanto a rejeição a Bolsonaro se aproxima da de Lula, mas fatores como a abstenção e a decisão de última hora dos eleitores podem influenciar o resultado.
O desempenho do debate programado para esta sexta-feira pode ser crucial para a mobilização dos eleitores, e uma boa performance de Lula pode transformar a situação, embora ainda seja necessário um 'fato novo' para uma virada significativa na campanha.
São Paulo - Pela primeira vez desde a redemocratização, um instituto de pesquisas registrou empate exato em uma disputa de segundo turno em uma eleição presidencial, indicando 50% das intenções de voto para o atual presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e 50% para Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os números foram divulgados na noite desta quinta-feira, 22, pelo Datafolha e valem para os votos válidos, já na reta final do segundo turno de 2026. Quando entram em conta brancos, nulos e indecisos, o mesmo levantamento fica em 47% a 46%.
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Para Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria Integrada, o 50% a 50% publicado tende a ser efeito de arredondamento: um dos candidatos teria ficado pouco acima de 50% e o outro, pouco acima de 49,5%, e os dois apareceram como 50%.
O que a pesquisa do Datafolha está dizendo é: 'Eu não sei dizer quem está na frente'
Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria
“No fundo, a gente está tendo um movimento que a gente não consegue medir”, acrescenta Cortez, que ressalta que a maioria das pesquisas aponta para resultados semelhantes, dentro da margem de erro.
O movimento político do segundo turno, na leitura dele, favoreceu a candidatura de Lula. Flávio não abriu uma vantagem larga entre quem havia escolhido outros candidatos no primeiro turno, e a margem foi encolhendo ao longo da campanha.
Cortez associa isso a dois sinais: uma avaliação do governo em melhora e uma rejeição ao senador que se aproxima da de Lula e, em alguns levantamentos, já a supera. Em que patamar esse movimento estacionou, ele diz que as pesquisas ainda não permitem cravar.
Há outras duas variáveis que nenhum instituto captura e que podem decidir a eleição. A primeira é o comparecimento: se a abstenção cai, ou se cai a alienação eleitoral, que é a soma de abstenção, branco e nulo. A segunda é o eleitor que só escolhe na última hora.
“Vai ter eleitor que vai decidir de última hora, num nível suficiente para eventualmente trazer um cenário de virada. E a gente sabe que o quanto as pessoas vão ou não às urnas pode também ser um fator importante. Essas duas variáveis nenhuma pesquisa consegue pegar”, afirma.
Voto cristalizado
O voto de quem já escolheu, por outro lado, está cristalizado. Quem votou em Flávio no primeiro turno segue com Flávio; quem votou em Lula segue com Lula. Por isso Cortez trata como razoável a leitura de que o senador chega a esta sexta-feira com a vantagem numérica herdada do primeiro turno, e de que pesquisas com um ou dois pontos de dianteira estão, na prática, descrevendo a manutenção dessa diferença.
Para ele, o que chama a atenção é a campanha de Lula chegar competitiva até a reta final, resultado melhor do que o esperado no início do segundo turno. “É resiliente a campanha do Lula”, diz.
Cortez destaca que a melhora na avaliação do governo registrada nas pesquisas Datafolha e Quaest é um dado que o governo pode comemorar. Se ela estiver sendo bem captada, o eleitor de última hora e parte de quem hoje está no branco e no nulo tendem a ir mais para Lula do que para Flávio. “A variável importante é a avaliação do governo”, resume.
O que ainda pode mexer na balança é o debate desta sexta-feira, 23. Um bom desempenho de Lula, diz Cortez, pode funcionar como chave para transformar em voto uma mobilização maior do lulismo. Isso não garante a conversão do indeciso. Pode, se vier junto com a melhora da avaliação, produzir a onda que falta para a virada. “Uma virada é possível, mas ainda vai precisar de um fato novo. E quem entra atrás é a campanha da reeleição.”
Histórico de pesquisas
O empate publicado agora se apoia numa prática que, no Brasil, é recente em escala nacional. O historiador Alexandre Budaibes lembra que as primeiras pesquisas para presidente datam de 1945, quando o Ibope, fundado em 1942, ouviu eleitores de São Paulo na disputa vencida por Eurico Gaspar Dutra, com Eduardo Gomes e Yedo Fiúza também na corrida.
"Antes disso, a República Oligárquica (1894–1930) combinava voto aberto, exclusão e fraude do voto de cabresto. Entre 1930 e 1945, na Era Vargas, não houve eleição presidencial direta. A ditadura instaurada em 1964 suspendeu o voto direto para presidente logo no Ato Institucional nº 1, e os mandatários passaram a sair de eleições indiretas controladas pelas Forças Armadas e referendadas pelo Congresso", diz.
O voto direto para presidente só voltou em 1989. "É a partir daí, na Nova República, que a pesquisa eleitoral ganha a dimensão que o país conhece hoje", conclui o historiador.
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