Lula defende aliados e filho, minimiza dívida e promete zerar fila do INSS
Ricardo Stuckert/PR
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira, 27, na sabatina promovida pela TV Globo, que o filho, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", não será protegido nas investigações da Polícia Federal sobre suposto tráfico de influência e corrupção, mas disse ter certeza de que ele será inocentado.
O presidente também defendeu o senador Jaques Wagner (PT-BA), investigado por supostas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, admitiu que o envolvimento de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como "Marcola", com a lobista Roberta Luchsinger traz suspeita e desconfiança para o Palácio do Planalto e afirmou que, se houver irregularidades, os envolvidos terão de responder pelos atos.
Na mesma sabatina, Lula disse que não está preocupado com a dívida pública brasileira, afirmou que não pretende vender os Correios e prometeu anunciar na próxima semana que a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foi zerada, com a espera reduzida a 251 mil pessoas, patamar que classificou como normal.
Ao falar sobre Lulinha, o presidente afirmou que, se o filho tiver cometido algum crime, não haverá proteção por parte do governo.
"Se ele fez um erro, ele pagará; não tem outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho. Ele sabe o que tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele, e eu tenho certeza de que ele vai ser inocente", afirmou.
Lula disse que não vai afastar delegados da Polícia Federal ou adotar outros movimentos que buscariam proteger Fábio, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, segundo ele, fez mudanças na corporação com a intenção de proteger familiares investigados durante seu governo.
Ao falar sobre os indícios apontados pela Polícia Federal, Lula classificou o caso como "ilações tiradas de telefonemas" e comparou a situação com as acusações que sofreu na Operação Lava Jato. Disse que a força-tarefa foi feita para impedi-lo de se eleger presidente em 2018 e que, ao ser preso, procurou provar sua inocência.
"Não tem nenhuma acusação, são ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso. O que eu tenho dito? Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz, eu sou presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro", declarou.
Vazamentos da PF
O presidente também afirmou que há vazamentos de conversas envolvendo o filho para a imprensa e disse esperar o andamento das investigações.
"A Polícia Federal está investigando e a Polícia Federal está vazando as coisas para a imprensa, e eu espero que aconteça o julgamento. Se tiver que vir prestar depoimento, ele vai prestar depoimento, vai participar dos inquéritos. Se ele for culpado, pagará o preço. Se não for, ele será inocentado", declarou.
A PF investiga Lulinha em três inquéritos que giram em torno de suposto tráfico de influência em contratos no governo. Entre as apurações, está a suspeita de que ele tenha atuado para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", em negociações do Ministério da Saúde.
Antunes é o principal personagem envolvido na trama de descontos bilionários ilegais contra beneficiários do INSS. O que liga o filho do presidente ao caso é sua relação com a lobista Roberta Luchsinger, ligada a Antunes.
Lula afirmou que, até o momento, não há provas coletadas pela PF de dinheiro público desviado ou de interação ilegal do empresário com algum ministro de Estado e disse estar na expectativa pelo fim do inquérito.
"Até agora, não existe uma prova de um centavo público ou de uma conversa de um filho com algum ministro, e eu tenho certeza de que não fez. Meu filho vai ser investigado como qualquer cidadão brasileiro. Eu estou só na expectativa de se terminar esse inquérito", afirmou.
Caso Marcola
O presidente também reconheceu que a relação entre Marco Aurélio Santana Ribeiro, mais conhecido como "Marcola", que foi chefe de gabinete da Presidência, e Roberta Luchsinger gera suspeita e desconfiança para o Palácio do Planalto. Lula disse que o ex-auxiliar cometeu um erro, mas afirmou acreditar, por enquanto, na versão dele de que não houve irregularidades no recebimento de R$ 249 mil.
"É totalmente errado, e o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel de um chefe de gabinete. Ele sabe da importância de ser chefe de gabinete. Ele diz que tomou R$ 249 mil emprestados. Quando tiver uma acareação entre os dois, é que vai se saber se foi empréstimo ou não. Eu, por enquanto, acredito na versão dele de que foi empréstimo", afirmou.
Lula disse que Marcola não cumpriu as funções que eram delegadas a ele na chefia do gabinete da Presidência, entre elas encaminhar pedidos de audiência aos ministérios. O presidente, porém, afirmou que, se não houve dinheiro cedido pelas pastas a Roberta, não haveria crimes.
O presidente negou conhecer ou ter tido contato com a lobista. Questionado sobre conversas que mencionam relações dela com Marcola e com Lulinha, Lula questionou o jornalista César Tralli sobre o conteúdo de conversas telefônicas.
"Você acha que, se eu pegasse o seu celular, e fosse investigar tudo o que você falou, só teria coisa certa? O que uma pilantra ou um cara qualquer pode fazer no telefone?", disse.
Lula afirmou que, se Marcola precisava do empréstimo, poderia ter consultado a ele, e mencionou que a relação entre os dois era quase a de "pai e filho". Disse também que o ex-auxiliar tinha sua total confiança, mas que ele "pagará o preço" se tiver cometido irregularidades.
A PF investiga se Marcola atuou para beneficiar Roberta Luchsinger, que tem ligações com Antunes, em negociações do Ministério da Saúde.
Ao falar sobre a fraude bilionária envolvendo descontos indevidos do INSS, Lula afirmou que todo o dinheiro desviado foi devolvido aos aposentados lesados e que houve um trabalho sério da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU). Questionado sobre o ex-ministro da Previdência Social Carlos Lupi, demitido após o estouro da crise, Lula disse: "Não está condenado, é um cidadão livre, tenho que deixar de falar com ele?"
O presidente afirmou ainda que, na próxima semana, anunciará que a fila do INSS foi zerada, com a espera contabilizada em 251 mil pessoas, número que classificou como normal.
Defesa de Jaques Wagner
Lula também defendeu o senador Jaques Wagner, investigado por supostas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro. O presidente disse que não está provado que o aliado tenha relação irregular com o dono do Banco Master e afirmou que "as pessoas são inocentes até que se prove o contrário".
"Não posso admitir e aceitar é fazer política vivendo de ilações todo santo dia. Você tem um processo, tem uma apuração e tem uma investigação. As pessoas são inocentes até que se prove o contrário", disse.
Ao falar sobre o senador, Lula afirmou que não colocará em dúvida o comportamento do aliado, de quem é amigo próximo há 45 anos, e que o defenderá durante o curso das investigações.
"É um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista. Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação. Eu tenho consciência de que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu", declarou.
Jaques Wagner foi alvo de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal em junho, após investigadores suspeitarem de que ele havia beneficiado Vorcaro em articulações no Senado em troca de benefícios financeiros. A PF suspeita que o senador recebeu um imóvel de R$ 2,5 milhões e pagamentos de propina que totalizaram R$ 3,5 milhões por meio de uma empresa ligada a um de seus familiares.
Dívida pública
Na área econômica, Lula afirmou que não está preocupado com a dívida pública brasileira. Questionado se adotaria medidas de ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, o presidente se esquivou e disse que quer governar o País por mais quatro anos para "fazer esse País crescer", alegando que já fez "o básico que tinha que fazer".
"A mim não preocupa a dívida pública. Eu herdei esse governo com déficit fiscal de 2,8% (do PIB). Sabe quanto vai ser esse ano? Superávit primário de 0,1% (do PIB). Se tem alguém nesse País que tem responsabilidade fiscal sou eu", afirmou, ao ser questionado sobre a trajetória da relação dívida/PIB, que atingiu 81,9% do PIB em junho deste ano.
"Se tem uma coisa que baliza minha vida se chama responsabilidade fiscal. Tenho uma equipe econômica, que era do (Fernando) Haddad, era do Guido (Mantega) e agora é do Dario (Durigan), com muita responsabilidade fiscal", declarou.
O presidente fez referência aos seus dois primeiros mandatos e afirmou que o Brasil teve superávits primários anualmente no período.
"Dos países do G20 fui o único que fiz superávit primário durante oito anos. Nunca tive problema fiscal no País. Você acha que o Brasil está com problema de dívida pública porque chegamos a 80% (relação dívida/PIB), sabe por quê? Porque estamos há mais de dez anos sem crescer", afirmou.
Lula relativizou a trajetória da relação dívida/PIB e disse que 80% não é um porcentual alto, comparando a situação brasileira com a de Estados Unidos, Japão e Itália.
"80% de dívida para um país não é muito se você olhar para os EUA, Japão, Itália. Sabe quanto é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB, é de US$ 40 trilhões. O que é importante é que uma parte da dívida é pela taxa de juros, porque vocês defenderam a vida inteira o Banco Central independente", respondeu.
O presidente atribuiu a situação fiscal ao governo de Jair Bolsonaro e afirmou que recebeu o País sem orçamento para governar.
"Pegamos o País em uma situação que não tínhamos orçamento para governar, a PEC da transição foi para pagar rombo deixado pelo outro governo. Deixou um rombo de R$ 94 bilhões de dívida com as pessoas que nós tivemos que pagar", disse.
Apesar de não responder se pretende adotar medidas de ajuste fiscal em um eventual quarto mandato, Lula afirmou que pretende governar por mais quatro anos para avançar em temas como exploração de minerais críticos, desenvolvimento de inteligência artificial e defesa.
Correios
Lula também afirmou que não vai vender os Correios e garantiu que a estatal sairá da crise em que se encontra. O prejuízo da empresa foi de R$ 3,1 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Questionado sobre a situação da companhia e propostas de privatização, Lula disse que os números negativos são uma realidade histórica, mas destacou a importância estratégica da estatal e sua presença em todos os municípios do País.
"Desde 1985, os Correios vivem crise e alguém quer privatizar os Correios. É uma empresa muito importante para o Brasil, porque ela está em todos os municípios", disse.
O candidato à reeleição afirmou que os Correios precisam se adaptar a uma realidade de concorrência com outras empresas do setor e disse que será feito um "enxugamento" nas contas da estatal naquilo que o governo considerar necessário.
"A crise dos Correios é que não se adaptou aos novos tempos. Surgiram muitas empresas de fazer entregas e os Correios ficaram na mesmice", afirmou.
Os Correios enfrentam uma crise econômica há anos. Em junho de 2022, o resultado negativo era de R$ 171,8 milhões. Saltou para R$ 1,5 bilhão um ano depois e chegou a R$ 1,7 bilhão em 2024. Em 2025, o déficit foi de R$ 2,6 bilhões. Neste ano, o resultado foi de um déficit de R$ 1,5 bilhão.
O governo Lula trocou o presidente dos Correios no ano passado, em meio a um plano de recuperação da estatal. Emmanoel Schmidt Rondon assumiu o lugar de Fabiano Silva dos Santos. Desde então, alguns diretores foram substituídos e a empresa elaborou um plano de reestruturação, com previsão de fechamento de agências e de um plano de demissão voluntária.
(Por Gabriel de Sousa e Gabriel Hirabahasi)
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