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Proibido correr! Conheça o Walking Football que está mudando a vida dos 50+

Alessandra Taraborelli/Viva

Walking Football (futebol caminhando) vem conquistando pessoas com mais de 50 anos - Alessandra Taraborelli/Viva
Walking Football (futebol caminhando) vem conquistando pessoas com mais de 50 anos
Por Alessandra Taraborelli

27/08/2026 | 13h32

São Paulo - O apito do juiz soa na quadra, mas o ritmo do jogo é diferente de tudo o que se costuma ver na televisão. Nada de disparadas em velocidade, carrinhos no chão ou disputas no alto. Em vez disso, passos firmes, troca de olhares atentos, risadas entre um passe e outro e uma regra de ouro: é proibido correr e ter contato físico brusco. Se um jogador descumpre uma dessas regras, o juiz entre em cena e apita a infração. Este é o Walking Football (futebol caminhando), uma modalidade adaptada que ganha cada vez mais força no Brasil e vem transformando a rotina de centenas de pessoas com mais de 50 anos.

Introduzido no Brasil pela organização Walking Football Brasil (WTB), o resultado é uma prática inclusiva, de baixo impacto e alto índice de promoção de bem-estar físico e mental. Criado na Inglaterra e regulamentado pela Federation of International Walking Football Associations (FIWFA), o esporte chegou ao país em 2018 pela WFB. A organização atua capacitando  profissionais de educação física e democratizando a prática em Núcleos de Convivência e Espaços Comunitários, atuando tanto no esporte social quanto no de alto rendimento.

Criado para atender às especificidades do envelhecimento, o esporte reduz os riscos de lesões ao eliminar o contato físico direto e as jogadas aéreas. A proposta une saúde, segurança e convivência, promovendo o envelhecimento ativo em um país onde a população idosa cresce a passos largos.

Ricardo Leme Pacheco, um dos fundadores e presidente do Walking Football Brasil
Ricardo Leme Pacheco, um dos fundadores e presidente do Walking Football Brasil - Alessandra Taraborelli/Viva

"A gente conheceu a modalidade em 2018 e o grande objetivo era permitir que as pessoas continuassem jogando futebol ou experimentassem o esporte pela primeira vez, gerando um impacto positivo na vida delas", explica Ricardo Leme Pacheco, um dos fundadores e presidente do Walking Football Brasil.

Ricardo pondera ainda que a modalidade abre as portas do esporte para quem nunca teve a oportunidade de jogar ao longo da vida, garantindo o acesso democrático e equitativo de mulheres e homens. "É a paixão nacional ressignificada para uma longevidade plena.”

Reparação histórica

Embora tenha nascido no exterior com um viés competitivo, no Brasil a modalidade ganhou uma roupagem de acolhimento. Ela se divide em duas modalidades: a de competição, que já conta com seleções representativas brasileiras masculina e feminina na categoria 60+, e a de participação, ou de, esporte para a vida.

Um dos dados da atuação da WFB no país é a maciça participação feminina: as mulheres representam 75% do público. O número tem peso de reparação histórica, considerando que a prática do futebol por mulheres foi proibida por lei no Brasil entre 1941 e 1979.

A Walking Football Brasil atua de forma estruturada para garantir a equidade de gênero nos gramados e quadras, permitindo que muitas mulheres joguem futebol pela primeira vez na vida aos 60, 70 ou 80 anos.

Quando imaginamos trazer a modalidade, a primeira reflexão foi de que não poderíamos reproduzir essa história. A prioridade foi fortalecer o esporte para que mulheres com mais de 60 anos, muitas das quais nunca haviam jogado, pudessem se sentir pertencentes, vivenciar o jogo e até se tornar atletas."

Regras do jogo

Para que a prática seja segura, o jogo conta com adaptações bem específicas. O professor e educador físico Andrei Oliveira Baptista, de 34 anos, atua na linha de frente dos treinos e ensina as particularidades da quadra.

Professor e educador físico, Andrei Oliveira Baptista
Professor e educador físico, Andrei Oliveira Baptista - Alessandra Taraborelli/Viva

A principal regra é não correr e não ter contato direto. Ele explica que é usado a medida do braço para manter a distância de segurança entre os praticantes.

No jogo lúdico, a bola não pode subir além da cintura da menor pessoa em quadra e não há goleiros fixos, o goleiro são cones. Não é permitido entrar na área e a bola só pode ser interceptada durante o passe, sem tirar direto do pé do adversário."

Esses cuidados garantem um ambiente multidisciplinar focado no ganho de força, equilíbrio e coordenação motora.

Além do esporte

O impacto positivo da modalidade no Brasil não se apoia apenas em percepções, mas em comprovação científica. Por meio de sua Área de Conhecimento e Pesquisa, a WFB mantém parcerias ativas com pesquisadores e instituições, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os estudos acadêmicos e trabalhos científicos já publicados identificam resultados significativos da prática da modalidade. Estudo liderado pela Walking Football Brasil e a Unicamp, publicado na Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, comprova que a prática do desse esporte melhora significativamente a agilidade, coordenação motora, força dos membros superiores, flexibilidade e força em idosos após 16 semanas de treino, com benefícios idênticos tanto para homens quanto para mulheres.

A pesquisa acompanhou 35 praticantes entre 50 e 80 anos (com média de 67,7 anos, sendo a maioria mulheres, representadas por 68,6% da amostra), com duas sessões semanais de duas horas cada. Os dados consolidados demonstraram que a prática com volume de 240 minutos semanais ao longo de 16 semanas proporcionou evoluções expressivas.

Histórias de quem pratica a atividade

Se a teoria comprova os benefícios à saúde, no dia a dia quem atesta a transformação são os próprios praticantes. A convivência semanal transforma colegas de quadra em grandes amigos, estendendo o convívio para comemorações de aniversários e festas.

Dona Alda da Conceição Duarte Peinado, de 88 anos
Dona Alda da Conceição Duarte Peinado, de 88 anos - Alessandra Taraborelli/Viva

Dona Alda da Conceição Duarte Peinado, de 88 anos, a atleta mais velha, pratica a modalidade desde 2024 e não esconde o entusiasmo.

"Futebol mesmo eu nunca tinha jogado. Me sinto muito bem aqui, a gente forma uma família. A idade não importa, o que importa é a gente gostar e estar junto das pessoas. Quando você está na quadra, esquece todos os problemas."

O esporte também atua como um divisor de águas na saúde. O casal Lígia Regina Sarti, de 76 anos, e Cláudio Sarti, de 72, encontrou no Walking Football um incentivo diário para afastar o sedentarismo.

"Se não fossem os exercícios, eu teria infartado. Precisei colocar um stent e o médico me disse que meu coração estava forte graças às atividades", conta Lígia, que vibra com a oportunidade de jogar futebol pela primeira vez na vida.

"É uma evolução. Nós não podíamos jogar no passado e agora estamos abrindo caminhos para as próximas gerações."

Cláudio Sarti e Lígia Regina Sarti
Cláudio Sarti e Lígia Regina Sarti - Alessandra Taraborelli/Viva

Seu marido, Cláudio, o único homem dessa turma, conta que perdeu 16 quilos desde que mudou de rotina, e reforça a alegria de reviver seu hábido da infância.

Lembra o passado, quando eu jogava na rua. Formamos novas amizades e o relacionamento com as pessoas faz o dia passar de um jeito muito gostoso."

Do lazer à camisa da seleção brasileira

Para quem busca mais exigência física, tem a modalidade profissional do Walking Football, que oferece treinos intensos, com regras oficiais, uso de peito de pé para chutes mais fortes e presença de goleiros em quadras maiores.

É o caso de Nilza Cantareira Serra, de 66 anos. Ela começou no grupo comunitário e acabou migrando para o time de competição, chegando a enfrentar a seleção inglesa em um amistoso internacional.

Nilza Cantareira Serra, de 66 anos
Nilza Cantareira Serra, de 66 anos - Alessandra Taraborelli/Viva

"No começo, o desafio era aprender a chutar, encontrar a posição certa do pé. Lá no competitivo a gente corre mais pelo campo, chuta com o peito do pé e tem que desviar do goleiro. Enfrentar as inglesas foi um aprendizado gigante. O futebol traz movimento, e qualquer atividade faz bem para a mente. A gente chega em casa e sente que o dia rendeu", comemora Nilza.

Desafio da expansão e o olhar para o futuro

Com presença consolidada em diversos Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, o Walking Football passou por um amplo programa formativo de profissionais em 47 cidades, com o objetivo de alcançar todas as cinco regiões do País.

Apesar do impacto social comprovado e do fomento por meio de leis de incentivo e fundos da pessoa idosa, Ricardo Leme Pacheco aponta que um dos maiores gargalos ainda é o engajamento do setor privado.

Ainda existe um preconceito etário no Brasil. O investimento social privado precisa voltar o olhar para a pessoa idosa. A sociedade está envelhecendo e a pirâmide etária vai se inverter. Precisamos cocriar experiências para uma longevidade ativa, e a responsabilidade social das empresas tem o dever de colocar a pessoa idosa no centro do debate."

Para quem deseja sair do sedentarismo e conhecer um núcleo próximo, as informações e os canais de contato estão disponíveis no site oficial da organização: wfb.org.br.

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