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Eleições 2026

O que é 'psicose política'? Entenda o termo que viralizou nas eleições 2026

Expressão viral nas redes sociais não é diagnóstico clínico; psicóloga explica como notícias, ansiedade e conflitos políticos afetam o bem-estar

Alexandre Barreto

Por Alexandre Barreto

23/10/2026 | 13h58

Imagem ilustrativa/Gerada por IA

'Psicose política' é usado para descrever quem vive conectado à política e não consegue se desligar - Imagem ilustrativa/Gerada por IA
'Psicose política' é usado para descrever quem vive conectado à política e não consegue se desligar
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O termo 'psicose política' ganhou destaque nas redes sociais durante as eleições de 2026, referindo-se ao estresse e ansiedade causados pela polarização política, levando alguns a se filiarem a partidos ou se candidatarem a cargos públicos.

Pesquisas no Google Trends indicam um aumento de 5.000% nas buscas pelo termo em comparação ao ano anterior, especialmente em outubro, refletindo a crescente preocupação com o impacto emocional da política na vida das pessoas.

Especialistas alertam que, embora o termo seja popular, não é um diagnóstico médico reconhecido, e enfatizam a importância de equilibrar o envolvimento político com a saúde emocional, evitando que a ansiedade interfira nas relações pessoais e na vida cotidiana.

Resumo gerado por IA

São Paulo - O termo “psicose política” ganhou repercussão nas redes sociais durante as eleições de 2026, especialmente após o primeiro turno, disputado por Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). A expressão é usada para descrever o desgaste emocional, a ansiedade e o estresse provocados pelo acompanhamento constante da política e da polarização, que podem gerar preocupação excessiva e dificuldade de se desconectar do noticiário ou da internet.

Nas redes sociais, circularam legendas como “Dia 5 da psicose política: tô chorando ouvindo o hino do Brasil no Spotify” e “Assistindo a 'O Conto da Aia' pra alimentar mais ainda minha psicose política”. Também houve relatos de pessoas que se filiaram a partidos políticos ou manifestaram o desejo de ingressar na política, como candidatos a deputado.

Dados de "interesse ao longo do tempo" do Google Trends apontam que as pesquisas pelo termo tiveram aumento de 5.000% em comparação com o ano anterior, com destaque para o mês de outubro.

Apesar da popularidade, a expressão não é um diagnóstico reconhecido pela Psicologia ou pela Psiquiatria. Ouvida pelo VIVA, a psicóloga e escritora Deborah Dubner alerta que usar a palavra para classificar pessoas com opiniões políticas intensas pode banalizar uma condição clínica e reforçar o preconceito contra quem enfrenta transtornos mentais.

Deborah Dubner
Deborah Dubner é psicóloga, escritora, palestrante TEDx e especialista em Neurociência - Divulgação

Segundo a especialista, a exposição contínua a conflitos, notícias alarmantes e discussões com familiares e amigos pode contribuir para o aumento da ansiedade. O problema se torna mais significativo quando as preocupações políticas passam a interferir no sono, nos relacionamentos e nas atividades cotidianas.

A política mobiliza emoções porque envolve nossos valores, crenças, expectativas e preocupações com o futuro. Em um cenário de forte polarização, as diferenças de opinião podem passar a ser percebidas como ameaças àquilo que consideramos importante.
Deborah Dubner, psicóloga

Por isso, o termo "psicose política" é utilizado informalmente para descrever uma pessoa que acompanha notícias compulsivamente, sente irritação frequente com opiniões contrárias ou tem dificuldade de pensar em outros assuntos.

A especialista explica que sentir medo, raiva ou indignação diante de acontecimentos políticos não significa que alguém tenha um transtorno mental.

Para Dubner, é importante diferenciar o uso popular da expressão do significado clínico da palavra. “A psicose é uma condição clínica, que envolve alterações importantes na percepção ou interpretação da realidade, podendo apresentar sintomas como delírios e alucinações”, afirma.

A psicóloga ressalta que associar divergências políticas a uma suposta doença mental pode desqualificar quem pensa diferente e agravar a polarização. Em vez de discutir argumentos, as pessoas passam a atacar umas às outras com base em rótulos.

Polarização pode aumentar a ansiedade

A ansiedade relacionada à política não está restrita ao consumo de notícias. Ela também pode surgir quando as divergências atingem relações familiares, amizades e ambientes de trabalho.

Dubner cita que discussões em grupos de mensagens, desentendimentos nas redes sociais e conflitos com pessoas próximas podem provocar sentimentos de raiva, impotência, frustração e tristeza.

De acordo com ela, o desgaste ocorre também porque essas situações afetam os vínculos humanos, que são importantes para o bem-estar emocional. "Nosso cérebro tende a prestar mais atenção às informações que representam possíveis ameaças, fenômeno conhecido como viés de negatividade. Isso ajuda a compreender por que conteúdos alarmantes e conflitos políticos podem capturar tanto a nossa atenção."

Quando essa exposição acontece repetidamente, sem pausas suficientes para a recuperação, o organismo pode permanecer em estado frequente de alerta. Isso contribui para o estresse e pode intensificar a ansiedade.

Dificuldade de se desconectar das notícias

A dificuldade de interromper o acompanhamento do noticiário pode estar relacionada à tentativa de reduzir a incerteza sobre o futuro. Em períodos eleitorais, as pessoas podem associar o resultado das urnas a temas como direitos, segurança, economia e condições de vida.

Nesse contexto, a busca por informações funciona como uma tentativa de compreender os acontecimentos e "recuperar a sensação de controle". O problema é que o excesso de notícias nem sempre diminui a preocupação, explica a psicóloga.

Em alguns casos, quanto mais informações a pessoa consome, mais ansiosa fica e maior é a necessidade de continuar acompanhando. “Essa preocupação nos leva a buscar ainda mais informações, criando um ciclo vicioso e difícil de interromper”, explica.

Ela cita que a identificação com grupos políticos, como o Exército do Lula e a Tropa do Flávio, também influencia esse comportamento. Quando o sentimento de pertencimento se torna muito intenso, as vitórias e derrotas de candidatos podem ser vividas como conquistas ou perdas pessoais.

Quando a ansiedade política exige atenção?

A preocupação com as eleições merece atenção quando começa a prejudicar o sono, a convivência com outras pessoas ou a capacidade de realizar tarefas do dia a dia. A dificuldade persistente de controlar a ansiedade também pode ser um sinal de que é necessário buscar ajuda profissional.

Além disso, a psicóloga destaca que é importante não confundir o envolvimento intenso com a política com um transtorno mental. A avaliação de sintomas e de possíveis condições clínicas deve ser feita por profissionais de saúde qualificados.

Para a especialista, cuidar da saúde emocional não exige abandonar as convicções políticas, mas encontrar um equilíbrio entre a participação pública e as outras dimensões da vida.

"É sempre bom lembrar que as eleições passam, mas os vínculos permanecem. A política faz parte da vida, mas a vida é muito maior do que a política", conclui.

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