Um terço dos eleitores do Rio vota em áreas dominadas por facções, diz estudo
A abstenção é maior em áreas dominadas por grupos armados, com 23,9% de faltas nas eleições, acima dos 22,1% observados nas áreas consideradas livres
Por Marcel Naves
08/10/2026 | 21h37Ilustração gerada por I.A/VIVA
Um levantamento revelou que 36,6% dos eleitores do Rio de Janeiro, cerca de 4,7 milhões de pessoas, votam em áreas dominadas por milícias ou facções criminosas, o que impacta a participação eleitoral.
A pesquisa apontou que a abstenção nas áreas controladas por grupos armados é de 23,9%, superior à média de 22,1% em áreas livres, além de um aumento nos votos brancos e nulos, que alcançaram 5,7% nessas regiões.
Os pesquisadores destacaram que a baixa participação não pode ser atribuída à coerção, mas sim de fatores sociais, como a pobreza e a dificuldade de transporte, e utilizaram inteligência artificial para cruzar dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados com informações do Tribunal Superior Eleitoral.
São Paulo - Mais de um terço do eleitorado do Rio de Janeiro — cerca de 36,6%, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas — está registrado em locais de votação situados em áreas controladas por milícias ou facções. É o que aponta o estudo “Dos territórios dominados à urna”, produzido pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (IBEVAR) em parceria com a FIA Business School.
A pesquisa comparou indicadores eleitorais em zonas sob influência de grupos armados e em áreas sem esse tipo de domínio. O retrato geral sugere participação menor e maior proporção de votos inválidos onde há presença desses grupos, ainda que o levantamento ressalte não ser possível atribuir causalidade direta à atuação criminosa.
Leia também
Veja os principais dados da pesquisa:
- Faltas no dia da eleição (Abstenção): As pessoas que votam nessas áreas dominadas faltam mais. A taxa de ausência foi de 23,9%, enquanto nas áreas livres foi de 22,1%. Na prática, são cerca de 82 mil eleitores a mais que deixaram de comparecer. As áreas controladas pelos grupos Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP) registraram as maiores faltas.
- Votos Brancos e Nulos: O número de eleitores que anularam ou votaram em branco também foi maior nas áreas sob domínio do crime (5,7%) se comparado às áreas livres (4,3%).
- A escolha dos candidatos: Quando observados os votos nos candidatos (como a comparação entre os votos de Lula e Flávio Bolsonaro de 2022 para 2026), não houve diferença significativa. Ou seja, o crescimento ou a queda de votos dos candidatos seguiu a mesma tendência tanto nas áreas dominadas quanto nas áreas livres.
Vulnerabilidade social pode influenciar voto
De acordo com os professores responsáveis pelo levantamento, Carlos Eduardo Furlanetti e Claudio Felisoni de Angelo, a pesquisa não indica que os grupos armados estejam proibindo o voto ou forçando as pessoas a votarem em branco.
Para eles o que pode explicar essa situação é a questão social. Geralmente, as áreas dominadas são mais carentes. Condições como renda menor e dificuldades de transporte pesam na hora de o eleitor decidir sair de casa para votar.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores cruzaram o Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro (versão 2024) com os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisando mais de 37 mil urnas. Para organizar e calcular esse grande volume de dados com precisão, a equipe contou com o auxílio de inteligência artificial.
Os pesquisadores também destacam que o trabalho não considerou variáveis socioeconômicas (como renda, cor e escolaridade) e levou em conta local de votação — não necessariamente moradores de regiões sob domínio de determinado grupo.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora

