Cuidados Paliativos: diálogo ajuda a derrubar estigma e garantir dignidade
Planejamento Antecipado de Cuidados é essencial para garantir que as vontades do paciente sejam respeitadas em momentos críticos
Por Emanuele Almeida
10/10/2026 | 11h00Adobe Stock
O Dia Mundial de Cuidados Paliativos, lembrado em 10 de outubro, destaca a importância de respeitar a autonomia dos pacientes em tratamentos de doenças graves, em um contexto com mais de 600 mil adultos e 34 mil crianças no Brasil necessitando desse suporte especializado.
Apesar de avanços como a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS, ainda persiste o estigma de que esses cuidados significam desistência, quando na verdade visam melhorar a qualidade de vida desde o diagnóstico de doenças graves.
Medidas como o Planejamento Antecipado de Cuidados e as Diretivas Antecipadas de Vontade são essenciais para garantir que as preferências dos pacientes sejam respeitadas, evitando decisões difíceis em momentos críticos e promovendo um suporte integral a pacientes e familiares.
São Paulo - Lembrado neste sábado, 10 de outubro, o Dia Mundial de Cuidados Paliativos reforça a necessidade de ampliar o diálogo sobre a autonomia e o respeito às vontades do paciente ao longo do tratamento de enfermidades graves. No Brasil, segundo dados da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), mais de 600 mil adultos e cerca de 34 mil crianças necessitam desse tipo de assistência.
Apesar de avanços institucionais significativos, como a consolidação da Política Nacional de Cuidados Paliativos no Sistema Único de Saúde (SUS), a modalidade ainda enfrenta o estigma equivocado de que paliar significa "desistir" do indivíduo. Na realidade, trata-se de um modelo médico ativo voltado para a prevenção e o alívio do sofrimento.
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Desmistificando
Diferente da crença popular, os cuidados paliativos não se restringem aos últimos dias ou semanas de vida. A recomendação médica é que a abordagem seja integrada preferencialmente desde o diagnóstico de uma doença grave ou com risco de vida. O suporte beneficia pessoas diagnosticadas com câncer, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doença renal, demências e sequelas de acidente vascular cerebral (AVC).
O estigma de que os cuidados paliativos são indicados apenas quando 'não há mais nada a fazer' é um dos maiores equívocos na prática médica.
Cláudia Serralheiro, médica clínica do Grupo São Lucas de Ribeirão Preto.
Segundo a especialista, na realidade, trata-se de uma abordagem ativa, abrangente e altamente especializada, cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida da pessoa e de sua família.
Ela explica que o manejo paliativo se baseia no conceito de "dor total", que acolhe o paciente de forma multidisciplinar nas suas dimensões física, emocional, social e espiritual. Essa integração altera a própria pergunta condutora do tratamento médico: em vez de focar apenas no tipo de doença que a pessoa tem, a equipe interdisciplinar busca compreender quem é aquele indivíduo e como a enfermidade impacta suas escolhas e valores de vida.
Autonomia do paciente
Garantir o protagonismo do paciente nas decisões sobre sua própria saúde é um dos pilares centrais da especialidade. O Planejamento Antecipado de Cuidados estimula conversas transparentes sobre preferências e limites terapêuticos antes do surgimento de momentos críticos ou crises de urgência.
Nesse cenário, destacam-se as Diretivas Antecipadas de Vontade, conhecidas popularmente como "testamento vital". Esse registro formal permite que a pessoa expresse com antecedência suas escolhas de tratamento para situações em que possa estar incapacitada de responder por si.
O presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Lucíulo Melo, destaca que falar sobre isso antes da urgência é um ato de cuidado." Quando as vontades são conhecidas, evitamos sofrimento desnecessário. Os cuidados paliativos não antecipam e nem adiam a morte, eles garantem que a vida, até o fim, seja vivida com dignidade", pontua.
Muitas pessoas chegam a momentos críticos sem nunca terem conversado sobre o que gostariam que fosse feito. Isso gera decisões difíceis, muitas vezes, em um ambiente de urgência, com familiares inseguros e sobrecarregados.
Lucíulo Melo, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da SBGG
Suporte familiar, espiritualidade e ferramentas
A assistência estende-se diretamente aos familiares e cuidadores, auxiliando na gestão da sobrecarga física e emocional, na mediação de conflitos e no acompanhamento continuado durante o processo de luto.
Outro aspecto relevante é o suporte espiritual, que se distingue de práticas religiosas. A dimensão espiritual busca ajudar a pessoa a encontrar propósito, significado e respostas existenciais diante da dor, respeitando integralmente as crenças individuais de cada paciente.
Para democratizar a informação e estimular conversas familiares sobre o tema, a SBGG disponibiliza recursos educativos gratuitos em seu portal oficial sbgg.org.br/materiais-em-cuidados-paliativos:
- Projeto "Cartas na Mesa": ferramenta acessível que ajuda a iniciar diálogos sobre valores, desejos e escolhas em saúde de forma leve;
- Guia "Minhas Vontades": instrumento prático que auxilia no registro das preferências e diretivas do paciente.
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