CONFIRA

Sobre a coluna

Médico PhD e geriatra é fundador do Instituto Moriguchi, em Veranópolis (RS), a 'blue zone' brasileira. É professor de medicina na UFRGS e professor-visitante em Chiba e Keio (Japão).


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Envelhecimento não é objeto: deve ser sujeito da sociedade!

Viver mais pode ser questão cronológica, mas o mais importante é envelhecer bem, com qualidade de vida e sentimento de felicidade

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O que no Brasil é importante para viver mais e melhor? - Envato
O que no Brasil é importante para viver mais e melhor?
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O envelhecimento é visto como uma conquista, mas também como um potencial mercado de saúde que deve ser tratado com cautela para evitar a exploração comercial.

A pesquisa do Projeto Veranópolis aponta que o envelhecimento deve ser abordado com respeito e responsabilidade, promovendo uma sociedade mais justa e amigável, com a participação de diversos setores, incluindo saúde, infraestrutura e tecnologia. A visão predominante de tratar o envelhecimento como um custo é considerada simplista e inadequada.

A falta de profissionais capacitados e a necessidade de planejamento estratégico para atender a população idosa são alarmantes. Ignorar o envelhecimento como prioridade pode levar ao colapso do sistema de saúde, resultando em sofrimento para os idosos que merecem cuidados adequados e de qualidade.

Resumo gerado por IA

Veranópolis (RS) - Em 1994, voltei dos Estados Unidos, após concluir o meu pós-doutorado em Geriatria na Wake Forest University, com uma missão dada pelo meu mentor, Prof. Dr. William Hazzard, considerado o “papa da geriatria” norte-americana: descobrir o que, no Brasil, era importante para viver mais e melhor. Esta missão acabou tornando-se no “Projeto Veranópolis de Envelhecimento Saudável com Qualidade de Vida”, que segue em atividade há 32 anos, sem interrupção a pesquisa sobre envelhecimento e longevidade mais longa do país.

Viver mais pode ser questão cronológica, que certamente não é o mais importante. O mais importante é envelhecer bem, vivendo a vida longa com qualidade de vida e sentimento de felicidade.

Um dos fenômenos que aconteceu ao longo deste tempo em que pesquisamos a longevidade e os seus “segredos” é que o envelhecimento e a longevidade se tornaram em “o próximo grande mercado da saúde”. Este fenômeno me preocupa muito e considero algo com que temos que tomar muito cuidado. Temos que cuidar para não transformar o envelhecimento, que é uma conquista pessoal e social, em motivo ou objeto de negócios ou meio de exploração comercial.

Na minha opinião, em vez de perguntar 'quanto vale a população idosa', devemos nos perguntar o que aprendemos com o envelhecimento e a longevidade.

Devemos usar o envelhecimento como motivo de respeito ao idoso e de preparação de uma sociedade mais justa e amigável, cuja meta seja longevidade feliz para todos. Nessa visão, o despertar não deve de um setor, mas de todos: infraestrutura, indústria, comércio, hospitais, seguradoras e tecnologia.

Tratar o envelhecimento apenas como custo do Sistema, leitura ainda dominante no Brasil é tão equivocado quanto tratá-lo apenas como oportunidade.

Os gestores, tanto na gestão pública quanto na privada, devem ter uma visão de responsabilidade, de obrigação e de planejamento adequado ao envelhecimento populacional, tanto no sistema de saúde como na infraestrutura. Enxergar isso simplesmente como mercado seria uma visão muito mesquinha e simplista.

Se a longevidade não é produto, isso não significa que a pesquisa deva ficar na gaveta. Muito antes, pelo contrário, todos os fatores e determinantes relacionados à longevidade saudável e feliz devem se tornar produtos, serviços ou programas concretos oferecidos pela sociedade para os idosos. Não somente aqueles que dão retorno financeiro.

O que falta é uma visão mais solidária sobre o envelhecimento e a longevidade na sociedade. Falta também gente. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, temos muitas lacunas em toda a cadeia: profissionais da linha de frente: médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, nutricionistas, educadores físicos, fonoaudiólogas, assistentes sociais, cuidadores e cursos de formação adequados e de qualidade, infraestrutura e gestão, pública e privada.

Os riscos de não priorizar o envelhecimento

Se nós ignorarmos o envelhecimento e longevidade como prioridades estratégicas na próxima década, o maior risco é o colapso do sistema de saúde pública e suplementar, pela falta de capacidade para atender adequadamente essa população que está envelhecendo.

Nem é a perda de participação no "mercado”. O resultado seria o sofrimento de toda uma população idosa que poderia e deveria estar recebendo uma assistência adequada e de mais qualidade, para se poder atingir o sonho de todos, que é uma longevidade com qualidade de vida e felicidade.

Aqui, no Brasil, estamos atrasados na nossa preparação para a sociedade que envelhece.

É obrigação dos gestores públicos e privados planejar, cuidar e dar condições de vida para todas essas pessoas que trabalharam a vida inteira para que nós pudéssemos estar aqui hoje. Precisamos ter uma visão de mais longo prazo, para que possamos continuar envelhecendo bem, com saúde e qualidade de vida, para que o envelhecimento não vire um castigo aqui no Brasil.

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